Quando você pensa em um destino paradisíaco, com certeza as Ilhas Maldivas estarão na sua mente. Mas você sabia que existe um exemplar semelhante ao país asiático aqui no Brasil? Trata-se do Atol das Rocas, uma ilha localizada no Rio Grande do Norte.
No entanto, ao contrário do parente famoso, o local não pode ser visitado, pois é protegido por leis ambientais. Ambos são considerados parentes geográficos pois têm formação geológica igual: os dois são atóis – ou seja, são uma formação de recifes de corais ou algas calcárias em formato de anel que circundam uma lagoa central.
Especialistas explicam que os atóis se formam a partir de vulcões submarinos, que se elevam desde o fundo do mar até a superfície da água. “O edifício desse vulcão inativo serve como esqueleto para a colonização de corais.
Assim, os atóis são pontos de água rasa e terra firme em meio ao oceano”, diz o geólogo Gustavo Bianchi, da Universidade de Brasília (UnB). Bianchi conta que Martim Vaz, São Pedro e São Paulo, Trindade e Fernando de Noronha são outros exemplos de ilhas e arquipélagos vulcânicos no Brasil.
“O Atol das Rocas, como as demais ilhas brasileiras no Atlântico Sul, são evidência dos últimos vulcões em território brasileiro”, diz. O especialista da UnB afirma que o vulcanismo na ilha potiguar cessou há cerca de 12 milhões de anos.
Mesmo tendo a mesma formação geológica, os “primos” distantes têm atributos únicos. Uma das diferenças entre os dois é que nas Maldivas há um conjunto de atóis e a ilha brasileira é somente um único exemplar.
“O país Maldivas é formado por vários atóis. São várias ilhas que são, na verdade, atóis.
No Brasil, o Atol das Rocas é o único atol do Atlântico Sul, o que forma uma feição única. Por isso, há essa a ideia de comparar os dois”, exemplifica o professor Alex Bastos, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo).
Outra distinção diz respeito ao ecossistema predominantemente em cada uma das ilhas. Enquanto o atol brasileiro é dominado por algas coralináceas incrustantes, com contribuição de moluscos vermetídeos, foraminíferos e corais, o asiático tem corais com papel central na construção recifal, além da participação das algas calcárias.
“A predominância das algas coralináceas incrustantes na construção de Rocas é uma de suas características mais marcantes”, destaca o professor Guilherme Longo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e apoiado pelo Instituto Serrapilheira. O Atol das Rocas está a 260 km da costa de Natal, mas o local não está aberto para visitação.
Isso porque ele abriga diversas espécies de peixes, que utilizam o local como berçário devido à proteção fornecida por corais e algas. A ilha é uma reserva biológica administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O turismo é proibido e visitas para o desenvolvimento de investigações só podem ser realizadas por pesquisadores com autorização. “A preservação do atol é fundamental para o equilíbrio dos oceanos justamente por ser um local de grande concentração de biodiversidade.
Atol das Rocas serve como lar para inúmeras espécies endêmicas e ameaçadas de extinção”, ressalta Bianchi. Segundo o geólogo, na região há várias espécies de algas, corais, moluscos, crustáceos, peixes, tartarugas marinhas (tartaruga-verde, tartaruga-de-pente e tartaruga-cabeçuda), esponjas e estrelas-do-mar.
Aves migratórias também costumam utilizar o atol para descanso. Mudanças climáticas, em especial o aquecimento do oceano, a pesca nos arredores e as incursões de pesca ilegal estão entre as principais ameaças ao Atol das Rocas.
A pressão para flexibilização da proteção e permissão de pesca e visitação turística também podem atrapalhar o bom funcionamento da região. “Manter essa proteção é um desafio diário, enfrentado há mais de três décadas por pessoas que dedicam suas vidas ao atol.
Sua conservação mantém um dos poucos ambientes recifais brasileiros com baixa pressão humana direta, oferecendo uma referência fundamental para compreender o funcionamento desses ecossistemas”, finaliza Longo.
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