Ativistas invadem canteiro de obras de data center da Microsoft enquanto protestos se espalham pela Europa

Ativistas invadem canteiro de obras de data center da Microsoft enquanto protestos se espalham pela Europa - Foto
Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – Mais de 100 manifestantes ocuparam nesta sexta-feira (6) o canteiro de obras de um centro de dados da Microsoft em Amsterdã, na Holanda, em protesto contra os impactos ambientais e sociais da expansão da infraestrutura destinada à inteligência artificial (IA). A mobilização integra uma campanha internacional que prevê manifestações em 16 países europeus e de outras regiões do mundo, com reivindicações pela suspensão de grandes projetos até que sejam estabelecidas regras mais rigorosas para sua implantação.

Segundo a agência Reuters, a ação foi organizada no contexto de uma campanha coordenada pela coalizão Stop Dirty Data Centres, que reúne organizações ambientalistas e movimentos de defesa dos direitos digitais. Os participantes denunciam o elevado consumo de eletricidade e água dessas instalações, além da disputa por recursos com comunidades locais e outros setores da economia.

Durante a manifestação em Amsterdã, ativistas marcharam de braços dados antes de entrar no terreno onde está sendo construído o empreendimento. Alguns escalaram guindastes, outros penduraram balões e dançaram no local, enquanto policiais acompanhavam a movimentação.

Cartazes exibiam mensagens de rejeição ao projeto, incluindo a frase “Que se dane o seu centro de dados”. “Esses centros de dados estão destruindo o nosso mundo.

Ele está se tornando inabitável por causa de todos os recursos que consomem. É por isso que estamos aqui hoje”, afirmou à Reuters o manifestante Sam van der Beek.

Proprietária do empreendimento pede saída dos manifestantes A Pure Data Centres, proprietária do terreno e responsável por um investimento previsto de mais de US$ 1 bilhão, solicitou que os manifestantes deixassem a área.

A empresa, que conta com o apoio da Oaktree, pertencente à Brookfield, declarou estar disposta a discutir os impactos do empreendimento com representantes da comunidade. “Pedimos respeitosamente a todos que se encontram no local que se retirem em segurança e que dialoguem conosco sobre o empreendimento e quaisquer preocupações que possam ter”, informou a companhia em comunicado.

A Microsoft, por sua vez, declarou compreender a intensidade das preocupações relacionadas ao projeto e respeitar o direito de manifestação pacífica. A empresa ressaltou, entretanto, que não apoia ações consideradas ilegais.

A ocupação na capital holandesa marca o início de dois dias de protestos internacionais. Entre as atividades anunciadas estão uma marcha em Dublin, na Irlanda, uma manifestação diante do Parlamento em Varsóvia, na Polônia, e um ato contra outro empreendimento da Microsoft na Dinamarca.

Consumo de energia e água está no centro das críticas O avanço dos centros de dados tornou-se um dos principais pontos de conflito entre a indústria tecnológica e organizações ambientais.

Essas instalações concentram servidores e equipamentos necessários ao processamento e armazenamento de grandes volumes de informações, incluindo os sistemas utilizados no desenvolvimento e na operação de ferramentas de inteligência artificial. A expansão da IA exige investimentos crescentes em capacidade computacional, o que amplia a demanda por eletricidade, sistemas de refrigeração e infraestrutura de abastecimento.

Para os movimentos contrários à construção indiscriminada dessas instalações, os projetos podem pressionar redes elétricas, comprometer reservas hídricas e dificultar o cumprimento de metas climáticas. Os ativistas também apontam a competição por terrenos e recursos que poderiam ser destinados à habitação e a outras atividades econômicas.

Entre as preocupações apresentadas estão ainda possíveis perdas de empregos associadas à transformação tecnológica e riscos à privacidade e à segurança nacional decorrentes da concentração de informações e capacidade computacional em grandes empresas privadas. As companhias de tecnologia defendem que os centros de dados são indispensáveis para atender à demanda mundial por inteligência artificial e serviços de computação em nuvem.

Segundo o setor, essas estruturas também sustentam serviços essenciais utilizados por empresas, governos e consumidores. A coalizão Stop Dirty Data Centres afirma que sua reivindicação não representa uma oposição ao progresso tecnológico nem uma exigência de fechamento das instalações existentes.

O objetivo declarado é interromper temporariamente a construção de grandes empreendimentos até que os governos estabeleçam critérios claros para sua expansão. União Europeia enfrenta dilema entre inovação e proteção ambiental

A mobilização ocorre em um momento de divergências sobre o futuro da inteligência artificial na Europa. De um lado, governos e instituições defendem a ampliação da infraestrutura tecnológica para reduzir a distância em relação aos Estados Unidos e à Ásia.

De outro, organizações sociais cobram garantias de que os investimentos não comprometam o abastecimento energético, os recursos naturais e a qualidade de vida das populações. Em entrevista à Reuters na quinta-feira (5), a responsável pela área de tecnologia da União Europeia, Henna Virkkunen, defendeu a ampliação da capacidade computacional do continente, mas reconheceu a necessidade de cuidados na implantação dos projetos.

“A inteligência artificial, naturalmente, é uma tecnologia extremamente importante e precisamos ter nossa própria capacidade”, afirmou Virkkunen. A dirigente mencionou investimentos europeus na fabricação de semicondutores, no desenvolvimento de empresas emergentes de inteligência artificial e na criação de grandes instalações de processamento de dados em diferentes regiões do bloco.

Ao mesmo tempo, destacou que o avanço tecnológico não pode provocar prejuízos à população. “É muito importante para os cidadãos que eles possam confiar que suas contas de energia não vão disparar e que não haverá apagões por causa dos centros de dados, ou que esses projetos não estejam destruindo o meio ambiente”, declarou.

Projetos enfrentam resistência em diferentes países A contestação à expansão dos centros de dados ultrapassa as fronteiras da Holanda.

Conforme a Reuters, empreendimentos tecnológicos enfrentam questionamentos ambientais, regulatórios e de infraestrutura em diferentes mercados, incluindo países europeus, a Índia e os Estados Unidos. Na Finlândia, um projeto do Google é alvo de investigação criminal relacionada à remoção de vegetação em terrenos destinados ao empreendimento.

Itália e Portugal, por sua vez, estão reforçando exigências ambientais aplicáveis a centros de dados. No Reino Unido, a Microsoft desistiu de um projeto que enfrentava atrasos relacionados à infraestrutura necessária para sua implementação.

A Holanda ocupa uma posição importante nesse processo de expansão. O país possui aproximadamente 200 centros de dados, considerando instalações já em funcionamento, em construção ou ainda em fase de planejamento.

O debate também ganhou dimensão econômica nos Estados Unidos, onde ações de empresas de tecnologia registraram fortes quedas na quinta-feira (5), em meio a preocupações de investidores com a possibilidade de regras mais rígidas para a inteligência artificial após mudanças no equilíbrio político do Congresso.

Com manifestações programadas em 16 países, os organizadores pretendem ampliar a pressão sobre governos e empresas para que a expansão da infraestrutura digital seja submetida a avaliações mais rigorosas de seus custos ambientais, energéticos e sociais.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →