'Até o vinho descansa, o povo não’: desabafo de Tilde em ‘Quem ama cuida’ traduz realidade na Copa
O país todo está no clima da Copa do Mundo, e eu só consigo pensar na caixa do supermercado com quem conversei outro dia. Será que ela vai ser liberada para assistir aos jogos do Brasil? Não é todo trabalhador que pode, né? Diversos setores têm feito escalas especiais, o que é ótimo, mas a realidade de muitos é mais complexa.
Essa linha tênue entre o privilégio e a batalha diária tem sido bem traduzida na novela das nove, “Quem ama cuida”. A Tilde (Luana Martau), arrumadeira na mansão do finado Arthur Brandão (Antonio Fagundes), virou uma excelente porta-voz do proletariado. Apegada à CLT e sem filtro, ela grava a vida dos ricos para mostrar nas redes sociais e mandou essa para seus seguidores, ao exibir um decanter do patrão: “Dizem que é para o vinho descansar. Tá vendo? Para os ricos até o vinho descansa, enquanto o povo se ferra com a escala 6x1”.
A gente ri na frente da TV, mas a realidade na fila do caixa é de chorar. A funcionária a quem me referi me ofereceu um brownie de marca genérica. Eu ando evitando doces, mas ela argumentou: “Preciso bater meta. Quem vender mais ganha um voucher e uma folga. E o que eu quero mesmo é a folga, para poder ficar domingo em casa com meus filhos”.
Levei o brownie na hora. Levaria dez se mudasse o destino de uma mãe que almeja, acima de tudo, o direito de descansar com os seus. Sempre que vou ao mercado nos fins de semana, vejo rapazes jovens trabalhando e penso na dignidade de uma rotina em que caibam o lazer, o convívio familiar e uma dose de diversão.
Enquanto muitos trabalhadores sonham apenas com horas livres para estar com quem amam, não faltam vozes influentes tratando qualquer debate sobre jornadas mais humanas como uma ameaça à economia. Ouvimos, com frequência, que o país vai quebrar, que não há alternativa, que descanso é privilégio. Mas privilégio é ter tempo. É poder escolher.
Já trabalhei na comunicação de um shopping center e me incomodava ver os mutirões de Natal, com lojas abertas até a madrugada. Para que você compre o presente aos 45 do segundo tempo, alguém perde a ceia em família para folgar, quem sabe, numa terça ou quarta-feira. Mas numa terça ou quarta-feira os filhos estão na escola, o parceiro está na labuta, os amigos estão ocupados. Não é a mesma coisa.
A discussão não é simples. Existem setores que precisam funcionar, demandas que não desaparecem. Mas a pergunta a ser feita é: por que o conforto de alguns muitas vezes significa o sacrifício de tantos outros?
Até a Tilde sabe que esse papo de criticar escala justa não desce goela abaixo de quem está cansado de vender a força de trabalho sem retorno.
Cumpram suas metas, vendam seus brownies e, espero eu, acompanhem Brasil e Escócia na próxima quarta-feira. O jogo começa às 19h.
Gabriela Germano é editora-assistente e atua na área de cultura e entretenimento desde 2002. É pós-graduada em Jornalismo Cultural pela Uerj e graduada pela Unesp. Sugestões de temas e opiniões são bem-vindas. Instagram: @gabigermano E-mail: gabriela.germano@extra.inf.br
