Profissionais de saúde que atuam no combate ao Ebola foram perseguidos com facões enquanto tentavam enterrar uma vítima no leste da República Democrática do Congo, em um dos ataques mais recentes contra trabalhadores da linha de frente que lutam para conter uma epidemia que se espalha mais rápido do que eles conseguem reagir.
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Pouco mais de 100 dias após a declaração do surto, mais de 5.500 pessoas foram infectadas e 2.642 morreram, enquanto a violência, as greves e a escassez impedem a implementação de medidas básicas necessárias para quebrar as cadeias de transmissão.
“O surto está crescendo mais rápido e se alastrando mais do que a resposta ao Ebola”, disse Julien Harneis, coordenador sênior das Nações Unidas para o Ebola, a repórteres, descrevendo as condições enfrentadas pelos profissionais da linha de frente como “brutais”.
“Agora (o surto) abrange uma área maior que a França”, disse Harneis.
A violência já forçou alguns socorristas a deixarem o terreno.
A Cruz Vermelha do Uganda evacuou sua equipe depois de um ataque ter deixado um trabalhador gravemente ferido, perto do epicentro, na província de Ituri.
Além dele, um carro de transporte foi destruído e outros dois foram vandalizados, segundo a organização.
A escalada da violência e da intimidação está interferindo em enterros seguros, descontaminação, transferências de ambulância e investigações de casos em diversas províncias.
Na semana passada, uma equipe de sepultamento em Kivu do Norte foi atacada, deixando várias pessoas feridas.
Veículos da Cruz Vermelha foram vandalizados e uma ambulância que transportava um paciente suspeito foi atacada.
Em Beni, os socorristas foram impedidos de chegar à casa de um caso confirmado para informar a família da pessoa.
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Resistências a enterros seguros foram relatadas em diversas zonas de saúde.
Somente na cidade de Kilo, em Ituri, as autoridades registraram cinco incidentes no sábado, enquanto em outros locais famílias impediram que os corpos fossem examinados, retiraram cadáveres de centros de tratamento e bloquearam o trabalho das equipes de sepultamento.
Os problemas vão além da violência.
Cinco postos de triagem em Haut-Uélé permaneceram em greve no sábado devido a salários atrasados, enquanto trabalhadores de engajamento comunitário em Kivu do Norte e Tshopo estão há meses sem receber.
O sistema bancário precário da região tem dificultado o envio de dinheiro suficiente para as áreas afetadas, a fim de pagar os trabalhadores da linha de frente, disse Harneis.
Manter as pessoas infectadas isoladas também está se mostrando difícil.
Quatorze pacientes fugiram de centros de tratamento em Ituri na sexta-feira, e as autoridades registraram separadamente 14 recusas de isolamento em diversas zonas de saúde.
Nova ferramenta
As falhas estão agravando o desafio de combater o Ebola em uma região já assolada por conflitos armados, deslocamentos em massa, fome, pobreza e surtos de outras doenças.
Quatorze semanas após a declaração da epidemia, o Congo havia relatado 5.375 casos confirmados; a crise do Ebola na África Ocidental, entre 2013 e 2016, levou mais de 30 semanas para atingir um número comparável.
A organização Médicos Sem Fronteiras alertou que as equipes de resposta precisam expandir o trabalho de detecção e controle de infecções nas comunidades, em vez de concentrar recursos apenas nos centros de tratamento.
Mais de 60% das mortes por Ebola desde o início do surto ocorreram em comunidades, muitas vezes longe dos centros de tratamento, afirmou o grupo.
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O Congo está se preparando para expandir o uso de uma vacina já existente contra o Ebola, enquanto as autoridades buscam maneiras adicionais de conter a transmissão.
As primeiras 16.520 doses da vacina Ervebo, da Merck & Co., chegaram a Kinshasa na sexta-feira, parte de um carregamento de mais de 50.000 doses previsto para segunda-feira, segundo o Ministério da Saúde.
O Ervebo não está aprovado contra a cepa Bundibugyo, responsável pelo surto, mas novas evidências de que ele gera respostas imunológicas que reconhecem o vírus motivaram planos para avaliar se ele pode oferecer proteção.
Ainda assim, as vacinas e o aumento da capacidade de tratamento não eliminarão a necessidade de detectar casos precocemente, isolar com segurança as pessoas infectadas e fortalecer o controle de infecções nas comunidades, afirmou a organização.
