golpe, binance, criptomoedas, cibersegurança, criptoativos, moedas cripto, blockchain, exchange, In this photo illustration, the Binance logo is displayed on a phone screen adjacent to an image from a crypto exchange on a laptop Dan Kitwood/Getty Images
O ataque de US$ 6,3 bilhões à Binance, o maior já registrado no mercado de criptomoedas, levantou questionamentos sobre a capacidade do setor cripto de proteger ativos digitais e se tornar parte da infraestrutura financeira tradicional. Segundo a Bloomberg, as corretoras de criptomoedas são há muito tempo alvos lucrativos para hackers porque controlam grandes volumes de ativos digitais que podem ser transferidos rapidamente pelo mundo, geralmente com certo grau de anonimato.
Agora, porém, uma série de ataques cibernéticos começa a expor a descentralização -- que antes era apontada como um dos maiores pontos fortes das criptomoedas -- como uma vulnerabilidade. Quão comuns são os ataques a criptomoedas?
Segundo a Blomberg, os ataques relacionados a criptomoedas têm se tornado maiores e mais frequentes. Aproximadamente US$ 1,2 bilhão foram perdidos em 255 ataques entre julho e setembro, em comparação com US$ 822 milhões em 222 incidentes entre abril e junho, informou a empresa de segurança em blockchain CertiK.
Antes do ataque à Binance, nesta semana, o maior roubo de criptomoedas conhecido publicamente havia ocorrido na corretora Bybit, em fevereiro de 2025, quando os invasores levaram quase US$ 1,5 bilhão em tokens. Como os hackers atacam as criptomoedas?
Alguns ataques dependem de técnicas simples de engenharia social, em que hackers enganam pessoas para conseguir acesso a sistemas privados. Eles podem entrar por meio de contas comprometidas, credenciais roubadas ou programas maliciosos (os chamados malware).
Segundo a Bloomberg, inicialmente, a Binance afirmou que o incidente pode ter envolvido o laptop de um desenvolvedor de software comprometido, embora posteriormente tenha apontado "pontos adicionais de violação". As empresas de inteligência em blockchain TRM Labs, Chainalysis e Elliptic indicaram que a Coreia do Norte provavelmente estava por trás do ataque.
Mas, além da engenharia social, existem ataques tecnologicamente mais sofisticados. Os hackers exploram vulnerabilidades na tecnologia que envolve uma blockchain — um registro digital de transações armazenado em uma ampla rede de computadores.
Isso inclui falhas de software que permitem contornar controles de segurança e fragilidades em etapas que conectam diferentes blockchains. Um método comum utilizado pelos hackers, por exemplo, é roubar chaves criptográficas que autorizam transações, permitindo transferir recursos das carteiras das corretoras.
Outro ponto vulnerável são as hot wallets, como são chamadas as carteiras digitais conectadas à internet e utilizadas para transações. Elas são mais suscetíveis a ataques cibernéticos do que as cold wallets, que mantêm offline as chaves que controlam as transações de criptomoedas.
As cold wallets já foram consideradas invencíveis por criminosos, mas também passaram a ser alvo de ataques, com invasores adulterando equipamentos associados a essas carteiras e falhas de software nos dispositivos expondo usuários a roubos. Qual é o papel da IA nos ataques a criptomoedas?
Os criminosos cibernéticos estão se tornando mais eficientes na identificação de vulnerabilidades em softwares e na elaboração rápida de estratégias de ataque. Segundo especialistas ouvidos pela Bloomberg, isso provavelmente reflete a ajuda de modelos de IA amplamente disponíveis.
À medida que a inteligência artificial se torna mais sofisticada, ela ganha cada vez mais capacidade de identificar vulnerabilidades graves de segurança cibernética. Isso reduziu a barreira de entrada para possíveis ladrões de criptomoedas e permitiu que invasores experientes encontrassem e explorassem brechas com mais rapidez.
A IA não é apenas uma ferramenta útil para hackers realizarem ataques sofisticados por meio da exploração de falhas em códigos. No caso da engenharia social, ela pode ajudar a produzir mensagens mais convincentes de phishing, falsificações de identidade e outros materiais utilizados para roubar credenciais ou obter acesso a sistemas.
Como acontecem os ataques a plataformas descentralizadas? No caso do ataque à Binance, a corretora é centralizada e atua como intermediária das transações.
Mas o universo das criptomoedas também conta com um ecossistema de finanças descentralizadas, ou DeFi (decentralized finance). Trata-se de uma rede de protocolos baseados em blockchain que utilizam códigos de execução automática, conhecidos como contratos inteligentes (smart contracts), para permitir que os usuários movimentem criptoativos sem depender de intermediários centralizados.
Nesse caso, hackers podem explorar falhas no código dos contratos inteligentes para manipular preços ou drenar ativos. Também podem atacar chaves privadas, pontes entre diferentes blockchains e a infraestrutura que envolve um protocolo.
É possível rastrear, congelar e recuperar os recursos roubados? Muitas vezes, é fácil rastrear criptomoedas.
As transações em blockchains públicas são registradas permanentemente, permitindo que investigadores acompanhem os recursos roubados enquanto os hackers os transferem entre carteiras, criptomoedas e, cada vez mais, diferentes blockchains. Mas rastrear o dinheiro não significa necessariamente que seja possível impedir sua movimentação.
O Bitcoin e o Ether, por exemplo, não têm um emissor central que possa simplesmente congelar a carteira de um invasor. Corretoras centralizadas podem bloquear ativos depositados em suas plataformas.
Já os emissores de algumas stablecoins — criptomoedas vinculadas a outro ativo, como o dólar americano — têm a capacidade de congelar tokens mantidos em endereços específicos. É o caso do USDT, da Tether, e do USDC, da Circle.
Mas o congelamento precisa ser feito rapidamente, já que os invasores podem tentar trocar ativos que podem ser congelados por outros que não podem e transferi-los entre diferentes blockchains. Congelar não significa recuperar.
A devolução dos ativos aos proprietários originais pode exigir a cooperação de corretoras ou emissores de tokens, além de processos judiciais e de aplicação da lei que podem ser demorados, informou a Bloomberg. Em alguns casos, os próprios hackers devolveram os ativos roubados, às vezes depois de negociar uma recompensa.
No caso da Binance, os recursos retirados incluíam Bitcoin, Ether, as stablecoins atreladas ao dólar USDT e USDC, além de uma variedade de tokens menores. É fácil transformar criptomoedas roubadas em dinheiro?
Transformar criptomoedas roubadas em dinheiro tradicional costuma ser a parte mais difícil, especialmente depois de um grande ataque que ganha repercussão. Isso acontece porque as transações em blockchain podem ser rastreadas e as corretoras regulamentadas conseguem identificar ou congelar depósitos suspeitos.
Mas os hackers não precisam necessariamente converter os recursos em dinheiro imediatamente. Criminosos usam cada vez mais criptomoedas roubadas como reserva de valor ou meio de pagamento, passando os recursos por diferentes serviços antes de tentar chegar a uma corretora, segundo a empresa de análise de blockchain Chainalysis.
Os hackers também podem dividir os ativos roubados entre inúmeras carteiras, transferi-los por diferentes blockchains ou enviá-los por meio de misturadores de criptomoedas (crypto mixers), que agrupam transações para dificultar o rastreamento do fluxo de recursos. Alguns também podem tentar converter os ativos em dinheiro por meio de corretoras ou outros intermediários.
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