Astronauta alemão defende investimentos em pesquisas no espaço para enfrentar problemas reais da Terra

 

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O astronauta alemão, Alexander Gerst, de 49 anos, já esteve duas vezes no comando de missões espaciais a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), que orbita a Terra a 400 quilômetros de distância. Por sua experiência, o nome de Gerst desponta como um dos candidatos a participar da missão Artemis IV, prevista para 2028, quando a Nasa, a agência espacial americana, planeja retomar os pousos na Lua e estabelecer por lá uma infraestrutura de pesquisa, inclusive com laboratórios. Com a missão Artemis III, realizada em abril, as viagens espaciais voltaram a atrair a atenção do mundo.

O alemão, que faz parte da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) foi uma das estrelas da Hannover Messe, a maior feira da indústria do mundo, e contou a uma plateia lotada de interessados nos enigmas do espaço sideral como o investimento nesse segmento da indústria também é importante para enfrentar problemas reais vividos na Terra, entre eles as mudanças climáticas ou a busca de novos tratamentos para doenças como o câncer.

Gerst também falou da sensação de fragilidade do planeta quando ele é visto do espaço.

— É como uma pequena bolinha de gude azul suspensa na escuridão do espaço. Me dá arrepios —descreveu ele, que passou quase 12 meses na ISS durante as missões "Blue Dot" e "Horizons", em 2014 e 2018, respectivamente.

Elas foram lançadas do Cosmódromo de Baikonur, localizado no Cazaquistão, utilizando foguetes russos do tipo Soyuz, amplamente usados para levar tripulações à estação espacial.

Alexander Gerst durante missão no espaço

Divulgação

Gerst, que também é um estudioso de fragmentos de corpos celestes (como asteroides ou cometas), disse que esses meteoritos representam uma ameaça real para a Terra — ampliando ainda mais a percepção de fragilidade do planeta.

Ele citou a cratera formada com a queda do meteorito de Nördlinger Ries, que tem 25 quilômetros de diâmetro. O choque com a cidade alemã aconteceu há cerca de 15 milhões de anos, numa velocidade de 70.000 km/h. O impacto do meteorito de 1,5 km de diâmetro destruiu a vida num raio de mais de 100 km e alterou drasticamente a paisagem da Baviera.

— O risco é real, mas não sabemos quando isso vai acontecer. Por isso, é preciso pesquisar os meteoritos para podermos detectá-los— alertou.

Para ilustrar sua preocupação com as mudanças climáticas, Gerst levou para a Hannover Messe fotos dos supertufões Vongfong, tiradas por ele mesmo do espaço , que deixou dois mortos na costa do Japão, em 2014, e do Trami, de 2018, que provocou a morte de cem pessoas nas Filipinas.

Para o astronauta alemão, o investimento em pesquisas sobre as mudanças climáticas é crucial neste momento. Desde 2018, dezenas de supertufões atingiram o sudeste asiático, a China e outras regiões do planeta, com maior intensidade e muito mais frequência.

— Eles são lindos, mas também preocupantes porque você sabe que as pessoas estão em sofrimento. Por isso, é preciso investir no estudo do clima— defendeu ele.

Para que a humanidade se conscientize da fragilidade da Terra, e especialmente os políticos, Gerst sugeriu que alguns políticos “dessem uma olhada no planeta lá de cima”. Sua avaliação é de que o mundo mudou muito desde o início das viagens à estação espacial, mas não necessariamente para melhor.

Por isso, defende que o trabalho de pesquisa e exploração do espaço com objetivos científicos seja feito de forma comunitária entre os países:

— A cooperação entre diferentes nações ainda não funciona tão bem porque cada país está em um nível diferente. Mas é preciso ter em mente que nosso trabalho é importante para toda a humanidade — afirmou.

A própria estação espacial (ISS) foi um esforço entre países como Estados Unidos, Rússia, além da Europa, Japão e Canadá, o que ajudou a reduzir tensões históricas, principalmente entre Rússia e EUA, após a Guerra Fria. Mas a ISS será desativada até 2030 e desintegrada ao reingressar na atmosfera terrestre em 2031.

Até que a nova estação Gateway seja concluída, iniciativa privada e governos isoladamente (como EUA, China e Índia) têm ganhado protagonismo na exploração do espaço sideral.

Sobre suas pesquisas envolvendo microgravidade (ambiente com ausência de peso) feitas durante as viagens especiais, Gerst disse que é melhor estudar um tumor cancerígeno na ausência de gravidade do que em uma Placa de Petri, recipiente de vidro utilizado em laboratórios para o cultivo, isolamento e observação de microrganismos (bactérias, fungos) e culturas celulares.

Segundo ele, há uma melhor compreensão das doenças no ambiente espacial, possibilitando a busca de tratamentos inovadores.

Em relação a novas matérias-primas existentes no universo, como o hélio-3, um isótopo raro de hélio, rico em potencial energético para reatores de fusão nuclear limpa e existente na Lua, Gerst ainda tem dúvidas sobre a exploração .

— Sou cético. Seria preciso encontrar muita coisa extraordinária para que valesse a pena— observou.

Gerst participou ainda na Hannover Messe de um painel de discussões com Dorothee Bär, ministra federal de Pesquisa, Tecnologia e Espaço da Alemanha. O país teve participação crucial na missão Artemis III: o módulo de serviço da cápsula Orion foi fabricado pela Airbus, em Bremen.

Além disso, a nova estação espacial Gateway está sendo desenvolvida em conjunto entre a Esa, a Nasa e países como Japão e Canadá. Nessa parceria, ficou acertado que três astronautas europeus participarão da Artemis. Além de Gerst, também está na disputa Matthias Maurer, de 55 anos, o último astronauta alemão a estar na ISS, em 2021.