A eleição à Câmara dos Deputados neste ano teve uma série de derrotas de candidatos apoiados pelas principais igrejas evangélicas do país, como a Universal e a Assembleia de Deus de Madureira. Para analistas, o resultado sinaliza que políticos evangélicos que se aproximaram do bolsonarismo, com aval de suas igrejas, vêm perdendo espaço para bolsonaristas que também têm identidade religiosa, mas atuam sem a chancela de pastores ou bispos. Eleições: Campanha de Paes acusa Garotinho de 'manipular' eleição, muda de posição e pede ao TSE para manter seus votos Leia mais: Vai ter segundo turno? Por que Garotinho é decisivo? Quando haverá definição? Veja perguntas e respostas sobre impasse no Rio Somadas, a Universal e as Assembleias de Deus, que se dividem em diferentes ramos, emplacaram ao menos 40 deputados a cada eleição desde a última década, segundo relatórios do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) e do Instituto de Estudos da Religião (Iser). Dados deste ano, ainda não consolidados, indicam perda de força. A Universal viu metade dos seus 12 deputados que tentaram a reeleição, todos do Republicanos, fracassarem. Em São Paulo, os deputados Marcos Pereira e Maria Rosas se reelegeram com votações inferiores às de 2022, enquanto Milton Vieira e Vinicius Carvalho ficaram fora. Pereira, que é também o presidente nacional do Republicanos, caiu de 231 mil votos há quatro anos para 196 mil agora. Já a Assembleia de Deus de Madureira não conseguiu reeleger seus dois principais nomes: Otoni de Paula (PSD-RJ), ligado ao bispo Abner Ferreira no Rio, e Cezinha de Madureira (PL-SP), ex-presidente da bancada evangélica e ligado ao bispo Samuel Ferreira em São Paulo. Cezinha, que havia tido 143 mil votos quando se elegeu pelo PSD há quatro anos, migrou para o PL de Flávio Bolsonaro e caiu para 60 mil votos em 2026. Otoni fez o caminho inverso, rompendo com o bolsonarismo, e teve destino parecido: caiu de 158 mil votos para 19 mil. Outros deputados do ramo de Madureira, como Gilberto Nascimento (Podemos-SP) e Antonia Lúcia (MDB-AC), perderam a reeleição, assim como o deputado Silas Câmara (Republicanos-AM), da Assembleia de Deus de Belém. O cientista político Vinicius Valle, pesquisador do meio evangélico e autor de “Entre a religião e o lulismo”, avalia que essas quedas de desempenho ocorrem em paralelo a um avanço do bolsonarismo sobre espaços das igrejas. — Tradicionalmente, os políticos evangélicos ocupavam siglas do Centrão, e agora estão sendo engolidos. Um deputado como o Cezinha de Madureira, por exemplo, fazia parte de uma ala mais pragmática da bancada evangélica, que buscava pontes com o governo. Ele se aproximou do bolsonarismo às vésperas da eleição e não se elegeu — aponta Valle. Em outro caso sintomático, o Rio quebrou sua tradição de eleger um senador com identidade evangélica quando há duas cadeiras em disputa. Foi assim de 1994, com Benedita da Silva (PT), até 2018, com Arolde de Oliveira, passando por duas eleições de Marcelo Crivella (Republicanos) em 2002 e 2010. Neste ano, Benedita e Crivella foram superados por Carlos Jordy e Carlos Portinho, ambos do PL, que chegaram a receber apoio de pastores, mas sem se apresentarem como evangélicos. Em caráter reservado, um interlocutor de Crivella avalia que a conversão de políticos evangélicos “raiz” em linha auxiliar do bolsonarismo acabou alavancando, na prática, políticos bolsonaristas que tenham um pé nas igrejas. Entre os mais votados em São Paulo e Minas, por exemplo, há nomes como o deputado reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), ambos evangélicos, mas mais conhecidos por atuar na linha de frente do bolsonarismo nas redes sociais. Outro exemplo é a eleição de Deltan Dallagnol (Novo) ao Senado pelo Paraná. Membro de uma igreja batista, Deltan costuma exibir discurso religioso, como a camiseta com a frase “eis-me aqui”, uma referência bíblica, que vestia após a vitória, mas sua imagem está mais enraizada no antipetismo. Brigas internas Além da derrota de Crivella, a Universal do Rio viu outro candidato que apoiava ao Senado, Marcos Dias (Podemos), sair derrotado. A bancada de três deputados federais da igreja no Rio se reduziu a um, Luis Carlos Gomes, que é presidente do diretório estadual do Republicanos e controla a máquina partidária. Algumas disputas internas aprofundaram as dificuldades eleitorais. A própria Universal, em Goiás, retirou apoio ao deputado Jeferson Rodrigues (PSDB) e tentou eleger Ricardo Querino (Republicanos). Ambos ficaram sem vaga. Já a Igreja Quadrangular apoiou o pastor Flamarion Rolando (PSD) a deputado federal em Minas, e abandonou o deputado Stefano Aguiar (PSD). Nenhum deles se elegeu: somaram 50 mil votos, metade dos 98 mil que Aguiar obteve sozinho em 2022. Dos três deputados da Quadrangular, apenas Jefferson Campos (PL-SP) se reelegeu, com 96 mil votos, 40% a menos do que sua votação em 2022. Outra queda de desempenho veio na Igreja Internacional da Graça, do RR Soares, televangelista famoso nos anos 1990 ao lado de Edir Macedo, da Universal, e Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus. Em 2026, os dois filhos de Soares perderam suas tentativas de reeleição à Câmara, assim como Fran Bayer (Republicanos-RS), outra deputada ligada à igreja. Já Valdemiro, que fracassou no apoio a Eduardo Cunha (Republicanos) em Minas, teve sucesso na reeleição da filha dele, Dani Cunha (PL), no Rio.
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Ascensão de bolsonaristas evangélicos leva candidatos da Universal e da Assembleia de Deus a perderem votos e mandato
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O Globo
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