As vacinas surpreendem de novo: com efeitos colaterais benéficos

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Todo mundo conhece os efeitos colaterais das vacinas: em geral uma dor no braço, febre, moleza por um ou dois dias. Outros são menos conhecidos — e espetaculares. Começando pela gripe. Influenza é mais que tosse e febre. A infecção desencadeia um intenso estado inflamatório, ativa a coagulação e pode desestabilizar placas de aterosclerose; nos dias seguintes, o risco de infarto chega a aumentar seis vezes. Por isso a vacina também protege o coração: uma análise de seis ensaios clínicos randomizados, com 9 mil pacientes, registrou eventos cardiovasculares graves em 3,6% dos vacinados contra 5,4% dos controles. Entre quem havia sofrido recentemente uma síndrome coronariana aguda, a redução relativa chegou a 45%. O sarampo esconde um efeito muito nocivo: a amnésia imunológica. O vírus destrói parte das células que armazenam a memória imunológica, e quem adoece pode perder anticorpos que havia construído contra outros micróbios ao longo da vida. A imunossupressão pode durar meses, e estudos populacionais associam o sarampo a excesso de mortes por outras infecções por dois a três anos. Ao impedir a doença, a vacina preserva essa imunidade acumulada, com potencial de evitar dezenas de infecções.

O VSR é a principal causa de bronquiolite nos bebês. O vírus agride o epitélio respiratório, prejudica a eliminação de muco e inflama as vias aéreas, criando um ambiente perfeito para bactérias como o pneumococo. Quando vacinamos a gestante, seus anticorpos atravessam a placenta e protegem o bebê, com eficácia de 82% contra doença grave por VSR aos 90 dias de vida. Com isso, estudos mostram que houve redução importante (entre 23 e 46%) de pneumonias entre os bebês de mães vacinadas (um benefício secundário, ainda em confirmação). O vírus abre a porta; a bactéria aproveita. E a vacina ajuda a manter a porta fechada. O cérebro também se beneficia das vacinas. Há anos se observa menos demência entre vacinados contra herpes-zóster, mas restava a dúvida: era a vacina, ou quem se vacina simplesmente cuida mais da saúde? Em 2025, um estudo na Nature aproveitou uma regra do programa de vacinação do País de Gales que criou um experimento natural, comparando mais de 282 mil pessoas da mesma idade. Resultado: entre os vacinados, cerca de 20% menos casos de demência em sete anos. Isso pode estar relacionado a uma menor neuroinflamação ou a efeitos imunes mais amplos. E ainda uma descoberta surpreendente, que animou os pesquisadores: a tão atacada vacina de mRNA contra a Covid pode ajudar no tratamento de alguns tipos de câncer. Em 2025, pesquisadores estudaram pacientes em imunoterapia. No câncer de pulmão avançado, a sobrevida em três anos subiu de cerca de 31% para 56% entre os que receberam a vacina no início do tratamento; no melanoma metastático, de 44% para 68%. E a vacina não contém nenhum antígeno tumoral. A hipótese: o mRNA funciona como um alarme, estimula a produção de interferon e os linfócitos T, e torna o tumor mais visível aos medicamentos que estimulam o sistema imune a combater a doença. Esses estudos são observacionais, e os resultados não podem ser considerados definitivos. Ensaios randomizados já estão sendo desenhados, e darão a palavra final. De todo modo, apontam numa direção muito positiva. Afinal, uma infecção nunca acontece isolada. Ela interage outras bactérias, vasos, coração e outros órgãos. A inflamação resultante tem efeitos nocivos sistêmicos, inclusive no cérebro. Quando prevenimos a infecção, interrompemos extensas cadeias de dano. Efeitos colaterais positivos assim não são encontrados nos grupos antivacina — ali, boas notícias são sempre censuradas – e o efeito colateral da desinformação é o retorno de doenças graves, praticamente erradicadas do Brasil. Por isso é tão importante ajudar a reconstruir a confiança na vacinação.

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