As lições de Asdrúbal, um monstrinho ridículo, mas sempre perigoso

 

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Monstros existem em qualquer lugar, podem ser mais assustadores ou um tanto ridículos, e quase sempre chegam de mansinho, assim como quem não quer nada, passando despercebidos até que começam a fazer suas malvadezas. O dado mais verdadeiro, porém, é: eles nunca, nunca morrem. No máximo envelhecem ou viram um borrãozinho no pé de página, suspirando pelo momento de voltar à ativa. São as lições sábias, e cada vez mais atuais, transformadas pela premiada escritora e ilustradora Elvira Vigna (1947-2017) na brilhante série de quatro livros sobre Asdrúbal, o Terrível, personagem-alegoria do sombrio período da ditadura militar, durante o qual as obras foram publicadas. Elas reencontram os leitores com novo projeto gráfico, que se mantém fiel à criação original da autora, e preservam o frescor das fábulas de todos os tempos, inclusive, e principalmente, o presente.

Elvira, definida como “ilustrautora” pela escritora Rosa Amanda Strausz em um dos dois posfácios que acompanham todas as obras (o outro é da editora Isabel Lopes Coelho), conta a vida do monstrinho amarelo que atormenta os bichos da Floresta Dum-Dum conjugando texto com desenhos de linhas simples e divertidas, que lembram a arte dos cartunistas do Pasquim (1969-1991), jornal alternativo de ferrenha oposição ao regime militar, que reunia nomes como Jaguar, Ziraldo e Henfil. Como eles, Elvira fez do deboche e do riso armas potentes de resistência.

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A série acompanha o monstro desde novinho até sua velhice decrépita, quando vai saindo de cena. O primeiro título, “A breve história de Asdrúbal, o Terrível”, foi publicado por uma grande editora (a José Olympio) em 1978, mas sua estreia – e também a estreia de Elvira na literatura, bem antes de dar à luz seus romances e contos consagrados pela crítica e pelos leitores, como “O que deu para fazer em matéria de história de amor” ou “Nada a dizer” - se deu em 1971 na Editora Bonde, em parceria com o Instituto Nacional do Livro (INL/MEC). Um dos períodos mais duros da ditadura iniciada em 1964, o que torna ainda mais significativo o fato de Elvira ter conseguido botar nas ruas, em singelos livros para crianças, uma paródia tão perfeita e devastadora do que se passava ao redor.

Nesse começo Asdrúbal é um monstrinho de “apenas” 700 anos. Ele gosta de cuspir em borboletas, jogar gatinhos no rio, destruir flores, roubar espuma das ondas. Quase sempre, contudo, suas malvadezas são frustradas e o tiro sai pela culatra, como a bela Borboleta Azul que fica ainda mais bonita com as asas limpas pela saliva, ou o gato que descobre poder respirar na água, causando inveja aos outros felinos. Ainda que a ruindade capenga do monstro não provocasse grandes tragédias, ele não estava sozinho para atormentar a floresta: era sempre cobrado a seguir o exemplo de sua grande família e fazer monstruosidades maiores.

Ilustração de "Asdrúbal, o Terrível", de Elvira Vigna

Divulgação

De maldade em maldade eles acabam alimentando o Grupo da Resistência, formado por mosquitinhos ligeiros que não apenas consertam as flores partidas, como também zumbem nos ouvidos dos monstros para atormentá-los. Ao final desse primeiro volume, totalmente acuados pela Resistência, Asdrúbal e sua família monstruosa pegam carona numa tempestade para tentar a sorte na Argentina. País que, lembrem-se, também vivia sob uma ditadura militar, só encerrada em 1983, pouco antes do Brasil.

Pequenos desenhos aparentemente aleatórios espalhados pelos cantinhos de algumas páginas piscam o olho para o leitor, debochando tanto de Asdrúbal como da própria autora. São frases como “Ridículo”, “Ele é o monstro mais incompetente que já vi", "Não poderiam ter arranjado um desenhista melhorzinho?”. Essas piscadelas estão mais presentes no primeiro livro, e vão se diluindo nos três seguintes. Sem perder o humor preciso, que flerta propositalmente com o nonsense, a narrativa textual vai ganhando volume e mais complexidade nos títulos posteriores, sempre mantendo a sintonia fina com as ilustrações. Dentro do todo, cada obra mostra sua própria cara.

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O segundo livro, “A verdadeira história de Asdrúbal, o Terrível”, de 1979, começa com rumores não confirmados do retorno do monstro, 290 anos depois de seu desaparecimento causado por uma briga com a Borboleta Azul. Depois de tanto tempo todo mundo acredita que ele não passa de uma lenda. Verdade que ele está meio míope, não é mais tão ligeiro (porque esperto ele nunca foi, como fica evidente nos textos), mas ainda assim ele volta sedento por fazer novas maldades. Neste volume, há bichos que desaparecem inexplicavemente sem deixar rastro, uns partem para o exílio, outros deixam registros de sua prisão. Tudo contado de forma lúdica, com muito humor, mas quem sabe sabe do que Elvira está falando.

Asdrúbal some outra vez após a Grande Batalha, junto com a Borboleta Azul Neto. A floresta começa a voltar à “normalidade”. Mas o medo da cor amarela faz com que margaridas, rosas e sóis da mesma cor sejam proibidos. “A Floresta Dum-Dum, sem sol nem flor, com seus bichos mais conhecidos defuntos ou entregues a ocupações rotineiras, já começava a ter o aspecto que tem hoje, embora com uma diferença: ninguém sabia, ninguém percebia que as transformações atingiam a floresta toda, de ponta a ponta.”

Ilustração da série de livros "Asdrúbal, o Terrível", de Elvira Vigna

Divulgação

O terceiro volume, “Asdrúbal no museu”, de 1980, é o que o título entrega. O monstro amarelo agora é uma Peça Rara em exposição, junto com alguns outros objetos e seres já ultrapassados. Meio acomodado, ele não pensa tanto em monstruosidades, mas mantém seus rugidos horríveis exigidos pela burocracia do emprego, no qual ele também já não era muito bem-visto. Lembremos, novamente, o que se passava no Brasil na época: um ano antes, fora iniciada a chamada anistia “ampla, geral e irrestrita”, marco final da ditadura militar que se encerraria oficialmente em 1985. O livro termina com a fuga de Asdrúbal do museu, que nos traços de Elvira ganha as formas do... Congresso Nacional.

No último volume da série, “O triste fim de Asdrúbal, o Terrível”, de 1983, o monstro amarelo está mais para lá do que para cá. Ele tenta sobreviver em meio à população disfarçado como uma pessoa comum, e muda inclusive de nome, passando a se chamar Vasconcelos. Começa a escrever sua autobiografia e, nesse caminho, descobre que não é fácil esconder sua identidade monstruosa, nem dele mesmo. O fato é que Asdrúbal tropeça em sua própria natureza e encerra sua existência dentro do livro. "Um acento agudo fez corte grave no seu coração. Uma circunflexão malfeita acentuou o trêfego relâmpago transatlântico enquanto sua única metáfora fazia caretas de verdadeira metástase.” Ué, mas a autora não disse que monstros nunca morrem? Pois é, o que se aparentemente se sabe é que Asdrúbal, o Terrível, virou uma manchinha amarela num pé de página. Mas sua fiel escudeira, a barata cascuda (e todo monstro tem uma de estimação, é outro ensinamento importante), toma para si a tarefa de zelar pelo legado asdrubaliano.

Ilustração da série de livros "Asdrúbal, o Terrível", de Elvira Vigna

Divulgação

Com camadas e camadas de História, muitas entrelinhas e elaborações linguísticas – no último volume Elvira leva ao ápice sua mestria para brincar com palavras e frases, criando expressões divertidíssimas –, pode parecer uma série inalcançável pelos pequenos. De fato, são livros mais adequados a crianças que já têm um certo domínio e compreensão da leitura, porém é fácil entender direitinho a mensagem fundamental, seja lá qual for a idade: cuidado com os monstros, mesmo os mais patéticos e em forma de gema de ovo esborrachada, porque eles sempre estarão à espreita e à espera de uma oportunidade para ressurgir.

Como alerta Elvira: “Pois o que mais custa a entrar na cabeça das pessoas, em casos de aparecimento de Asdrúbal, é justamente essa sua aparência comum, cotidiana. Asdrúbal, ao aparecer, vem de mansinho, junto e dentro das coisas de todo dia. Não se vê”. Lição , embalada em literatura de primeira, a ser compartilhada entre pais e filhos, ainda mais em tempos de monstros de carne, osso e níveis de malvadeza diversos dando as caras ao redor do mundo.

Capas dos livros da série "Asdrúbal, o Terrível", de Elvira Vigna

Divulgação

Serviço:

A breve história de Asdrúbal, o Terrível. Texto e ilustrações: Elvira Vigna. Posfácio: Isabel Lopes Coelho e Rosa Amanda Strausz. Editora: FTD. Páginas: 96. Preço: R$ 75.

A verdadeira história de Asdrúbal, o Terrível. Texto e ilustrações: Elvira Vigna. Posfácio: Isabel Lopes Coelho e Rosa Amanda Strausz. Editora: FTD. Páginas: 120. Preço: R$ 75.

Asdrúbal no museu. Texto e ilustrações: Elvira Vigna. Posfácio: Isabel Lopes Coelho e Rosa Amanda Strausz. Editora: FTD. Páginas: 112. Preço: R$ 75.

O triste fim de Asdrúbal, o Terrível. Texto e ilustrações: Elvira Vigna. Posfácio: Isabel Lopes Coelho e Rosa Amanda Strausz. Editora: FTD. Páginas: 64. Preço: R$ 70.