Astro da Holanda, Gullit questiona artilharia de Neymar e Memphis nas seleções: 'Quais gols você lembra?'
Ruud Gullit fala com a autoridade de quem já ocupou todos os lugares possíveis no futebol e com a leveza de quem aprendeu a enxergar o jogo para além deles. Ídolo precoce da Holanda, protagonista de um Milan que ajudou a redefinir o futebol no início dos anos 90, técnico por um período e, hoje, um dos analistas mais respeitados da Europa, ele atravessou gerações sem perder a capacidade de interpretar o jogo com clareza - e certa ironia.
Foi com esse olhar, ao mesmo tempo vivido e afiado, que recebeu o GLOBO no último domingo, em Madri, horas antes da cerimônia do Prêmio Laureus, do qual é embaixador. A conversa ganha uma camada especial para o público brasileiro: Gullit conviveu de perto com Carlo Ancelotti naquele Milan histórico. Dividiram não só o time, mas também o quarto. Entre memórias e análises, ele fala sobre o técnico que hoje comanda a seleção brasileira e projeta o que pode vir pela frente.
Carlo Ancelotti (centro) e Ruud Gullit à direita) quando jogavam no Milan
divulgação / milan
Mas não para aí. Ao abordar nomes como Neymar e Memphis Depay, maiores artilheiros da história de suas seleções, Gullit evita o conforto das homenagens e aponta o que ainda falta. Para ele, números não bastam: é preciso marcar nos momentos que ficam. Palavras de quem fez 18 gols com a camisa laranja, só um terço do que o corintiano já tem. Mas um deles foi na final da Euro de 1988, o único título grande de seu país.
Você já viu o futebol como jogador, treinador e hoje como analista. Quando olha para o jogo atual, o que mais mudou? E quais mudanças podem ser fundamentais nesta Copa?
Vejo uma valorização enorme de especialistas em bola parada, laterais e escanteios. Mas a principal diferença está no meio-campo. Hoje os jogadores são menores, mais ágeis, muito móveis. Não existem mais aqueles meio-campistas grandes, dominantes, como o Sócrates, do seu país, por exemplo. O perfil mudou completamente, e isso altera a dinâmica do jogo. Mas, taticamente, o futebol não mudou tanto quanto as pessoas pensam. Ninguém inventou nada completamente novo. Os sistemas são os mesmos, as ideias já existiam. O que mudou foi a intensidade.
E quem você vê como favoritos para a Copa?
França e Espanha. E claro, a Argentina também entra nessa conversa.
Como está o Brasil na sua visão?
O Brasil vive uma pequena queda no cenário mundial. Aquele futebol mais solto, mais artístico, já não é suficiente, porque hoje todo mundo corre e todo mundo defende. Se você só joga bonito, não ganha mais. A derrota para a Alemanha (7 a 1, em 2014) foi um alerta, e depois vieram jogos contra a Argentina (final da Copa América em 2021 e goleada nas Eliminatórias, em 2025) que mostraram isso de novo. Algo precisa mudar.
Não é o Ancelotti a mudança?
O Ancelotti pode fazer isso, sim, mas o Brasil precisa entender que não basta jogar bem. Tem que trabalhar duro. Tem que correr. Se você perde a bola, não pode ficar parado. Volta, se organiza e depois descansa. É simples. Não estou pedindo nada absurdo. Se o Brasil conseguir jogar com essa mentalidade coletiva, pode voltar a ser competitivo. Hoje não é favorito, está um degrau abaixo, e isso é uma pena, porque o futebol precisa de um Brasil forte.
Você foi colega de quarto do Ancelotti no Milan, quando jogadores. E disse que ele “faz os jogadores derreterem”. O que isso significa na prática?
Ele é um cara muito bom. A personalidade dele conquista as pessoas. Todo mundo gosta do Ancelotti, e isso faz diferença, porque você quer jogar por um treinador assim. Mas não é só isso. Ele é muito competente taticamente e, principalmente, sabe lidar com grandes jogadores, com personalidades fortes. É por isso que teve tanto sucesso.
Você acha que ele vai escolher lidar com a personalidade do Neymar ou vai deixá-lo fora?
O treinador está ali, mas quem decide é o jogador. Para ir a uma Copa do Mundo, você precisa estar bem fisicamente. Se Neymar estiver em forma, jogando bem, correndo e ajudando o time, não há problema nenhum. Eu adoro o Neymar, é um dos meus jogadores favoritos. O que aconteceu com ele foi muito duro. Eu também já vivi a experiência de voltar de lesão em um grande torneio, e não é fácil recuperar o ritmo. A questão é: ele vai ter paciência para isso? E o ambiente vai permitir? Depende muito mais dele do que do treinador.
Como ele vai lidar com a pressão tanto pela convocação quanto por deixar Neymar de fora? O país está dividido. Treinar no Brasil na Copa não é só futebol.
Isso é difícil para qualquer equipe. Não deveria ser assim, mas faz parte. A diferença é que Ancelotti é experiente o suficiente para se manter fora disso.
Falando da Holanda: Memphis Depay pode ser decisivo no Mundial?
Não sabemos. Ele está lesionado, assim como Neymar. A pergunta é a mesma: você leva um jogador que não está em forma? Ou que não vem jogando bem? Precisamos de um bom Memphis. Se ele estiver pronto, ótimo, queremos muito. Mas hoje é uma dúvida, e com Neymar acontece a mesma coisa.
Mas eles são os maiores artilheiros históricos da Holanda e do Brasil...
Mas não é sobre quantidade, é sobre momento. Quando você fala de Maradona ou Pelé, você lembra dos gols decisivos. Quero ver Memphis e Neymar fazendo gols em jogos que ficam na memória. É isso que transforma um jogador em um dos grandes. Se eu te perguntar agora quais são os gols mais importantes dele, quais gols você lembra? Talvez você hesite. E é isso que eles precisam construir. Não é uma crítica. É um caminho. Pensa no Bergkamp: você lembra de um gol incrível dele?
Sim, contra a Argentina, em 1998...
Exato. Mas o Van Basten, por exemplo, você lembra e ainda são gols que fizeram a Holanda ser campeã.
Na final da Euro em 1988. Você fez o outro...
É isso que define um legado. Zidane é outro exemplo. É isso que transforma um jogador em lenda.
Neymar e Memphis também carregam muito do que está fora de campo: redes sociais, imagem, música, amigos. É mais difícil ser lenda assim?
Se você joga bem, todo mundo aceita. Pode até achar estranho, discordar, mas aceita. O problema é quando isso vem sem desempenho. Se você escolhe esse estilo de vida, precisa entregar dentro de campo.
Memphis jogar no Brasil ajuda ou atrapalha?
A liga brasileira é boa, tem bons jogadores, mas isso não é o ponto principal. O que acontece é que, historicamente, os brasileiros, e muitos outros, querem jogar na Europa, porque é onde está o mais alto nível competitivo. Dito isso, o Brasil sempre vai ter talento. O futebol lá é diferente, mais técnico, influenciado pelo clima, pelo ritmo do jogo. Mas qualidade nunca falta. No caso do Memphis, é difícil avaliar com precisão porque nem sempre acompanhamos de perto o Campeonato Brasileiro. Mas, no fim, não é sobre onde ele joga, é sobre como ele joga. Se estiver em forma e rendendo bem, pode chegar forte à Copa.
Você tem sido uma voz ativa contra o racismo no futebol. Como vê o que aconteceu com Vinicius Júnior na Champions?
É horrível. Ele é um jogador fantástico, daqueles que você paga ingresso para ver. Pode ser provocador? Pode. Mas isso nunca justifica o que fazem com ele. E não está melhorando. Está piorando. Isso não é um problema do futebol, é um problema social. Muitas vezes ligado à situação econômica, à frustração das pessoas, que procuram alguém para culpar. E geralmente uma minoria. É ignorância.
Vinicius pode ser protagonista na Copa?
Pode, mas precisa de um time. Ele é um jogador incrível, faz coisas que impressionam. Eu vou ao estádio para vê-lo. Mas ninguém ganha sozinho. E tem um detalhe curioso: normalmente, as seleções só ganham a Copa quando têm um grande centroavante. O Brasil, muitas vezes, quando não teve esse jogador, não venceu.
Mas nunca tivemos um técnico estrangeiro. Se der certo com ele, pelo que você conheceu, vai ser por quê?
Porque ele é o tipo de treinador que todo jogador quer ter. Isso já é enorme. Ele fortalece o espírito de equipe, entende o grupo. Mas não existe garantia de título. Uma seleção é tão boa quanto seus jogadores, e hoje o Brasil tem bons jogadores, mas ainda precisa se tornar um grande time. E no futebol atual, não tem segredo: é trabalho duro. Quem não correr, fica para trás.
