As dimensões estratégicas e históricas da vitória Lula em 2026

As dimensões estratégicas e históricas da vitória Lula em 2026 - Foto
Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

Por Amr Hdiefa (*) – Grandes acontecimentos ao longo da história contemporânea constituíram pontos de inflexão que  delineiam os limites da hegemonia do império contemporâneo, em suas diversas formas de  coerção e subjugação, inerentes ao conceito de poder nas ciências políticas. 

Não pretendo recuar muito na história, pois o objeto destas linhas é a atual ordem mundial,  construída a partir dos entendimentos estabelecidos após a Segunda Guerra Mundial. Essa ordem  representou o resultado de uma longa sucessão de grandes guerras e crises violentas que  atingiram os centros históricos de sua formação, até que se chegasse à possibilidade de  administrar os conflitos entre as potências sem recorrer a uma nova guerra mundial, depois de o  planeta ter experimentado duas vezes os seus horrores. 

Apesar da crescente fragilidade de suas instituições e mecanismos, não podemos excluir essa  ordem de qualquer análise ou perspectiva política simplesmente porque reconhecemos as  injustiças que ela nos impõe. Sem ela, não estaríamos hoje lendo estas linhas por meio das  tecnologias que nos cercam, e nossos pais, assim como nós, provavelmente já teríamos perecido  há muito tempo. 

Dessa ordem surgiram mecanismos destinados à administração das crises e dos conflitos  mundiais, controlados fundamentalmente pelas relações de poder, influência e hegemonia. Essas  relações atravessaram períodos de equilíbrio e sofreram sucessivas rupturas. 

Entretanto, após cada ruptura, as forças que controlam os mecanismos internacionais não  retornam à sua configuração anterior. Nos grandes momentos de inflexão, sofrem deformações  estruturais às quais a ordem mundial procura se adaptar, tornando-se manca, mutilada, cega,  surda, enlouquecida ou monstruosa.

Essas deformações se acumulam até que o sistema alcance  um estágio em que seu próprio corpo já não seja capaz de suportar uma nova alteração, por  menor que seja.  O poder militar, a subjugação econômica e política e as intervenções nos assuntos internos dos  Estados constituíram os principais instrumentos utilizados para preservar essa hegemonia. 

No plano militar, os Estados Unidos mantiveram sua superioridade e, consequentemente, sua  capacidade de subordinar o conjunto dos países do mundo capitalista, até sofrerem sua primeira  grande derrota, no sentido literal da palavra, em 1975, quando as forças norte-vietnamitas  conseguiram tomar Saigon, expulsar os militares estadunidenses e seus colaboradores locais do  Vietnã do Sul e unificar o país.

Esse acontecimento revelou, pela primeira vez, os limites do poder militar dos Estados Unidos  em suas guerras coloniais. Ao mesmo tempo, proporcionou um impulso mundial tanto aos seus  adversários quanto aos aliados que, silenciosamente, desejavam libertar-se de sua dependência. 

Com o colapso da União Soviética, esse impulso perdeu força. Em vez de procurar restabelecer o  antigo equilíbrio, os Estados Unidos inclinaram-se intensamente na direção oposta, a ponto de  seu movimento rumo à hegemonia unilateral superar o desequilíbrio anterior.

Passaram, assim, a  exercer seu domínio de maneira excessiva em um mundo unipolar, nos planos militar,  econômico e político.  Desencadearam as guerras na Iugoslávia, a Segunda Guerra do Golfo e sucessivas tragédias no  Oriente Médio, chegando à guerra contra o Afeganistão e, posteriormente, contra o Iraque,  seguidas pela Primavera Árabe, pelas guerras na Síria, no Iêmen e no Sudão e, finalmente, pelas  guerras em Gaza, no Líbano e no Irã. 

Apesar da dimensão dos sacrifícios humanos ao longo desse período, a última ofensiva contra o  Irã demonstrou que a capacidade de utilização efetiva do poder militar estadunidense atingiu um  ponto crítico. Esse poder já não intimida os adversários como antes, tampouco representa uma  garantia de segurança para os aliados iludidos nos momentos decisivos. 

A importância estratégica da resistência iraniana ao colapso decorre, em primeiro lugar, e sem  qualquer intenção de bajulação, da firmeza das forças iranianas comprometidas com a  independência nacional. Essas forças desenvolveram seus métodos de defesa e construíram uma  ampla e complexa rede social integrada à estrutura do regime político, tornando-o capaz de  suportar tamanha pressão. 

Essa experiência produzirá consequências para futuras manifestações de resistência à hegemonia  política e militar dos Estados Unidos em diversos países e continentes.  Em segundo lugar, a resistência do Irã resulta do acúmulo histórico das experiências dos povos  do mundo e da região no enfrentamento dessa máquina global de guerra e destruição, desde o  papel desempenhado pela União Soviética, passando pelos movimentos de libertação nacional e  pelos Estados que os apoiaram, até as resistências populares no Iraque, no Afeganistão e no  Iêmen. 

Independentemente de nossas divergências com as ideologias dessas forças, não se pode exigir  delas, diante das ameaças existenciais que enfrentam e das condições econômicas que conferiram  importância histórica às suas ações, que sejam ideais em seu pensamento, em sua moralidade, em  suas concepções jurídicas ou em suas relações sociais.

Trata-se de um princípio elementar das  ciências sociais e políticas.  Afinal, essa ação histórica ocorre em circunstâncias marcadas por transformações técnicas,  econômicas, tecnológicas e midiáticas profundamente complexas. 

No campo da hegemonia econômica e de seus mecanismos coercitivos, a resistência da economia  russa ao colapso, apesar dos pacotes de sanções econômicas sem precedentes históricos, tanto em  quantidade quanto em natureza, também evidenciou os limites do domínio econômico dos  Estados Unidos. 

Foi essa mesma limitação que levou ao fracasso da política de tarifas alfandegárias que Donald  Trump tentou impor aos países do mundo, especialmente diante da China, onde encontrou uma  resistência significativa.  Consequentemente, o Irã continua resistindo economicamente até hoje, graças ao conhecimento  dos limites da pressão econômica estadunidense e ao aproveitamento das experiências de outros  países no enfrentamento dessas medidas, ainda que em circunstâncias distintas. 

Quanto à intervenção nos assuntos internos dos Estados e à construção de países subordinados  por meio de lideranças fantoches, preparadas e implantadas pelos Estados Unidos em diversas  regiões do mundo, especialmente naquela que consideram seu quintal — a América Latina —, as  eleições brasileiras recentes revelaram limites históricos à possibilidade de utilização de seu  poder tecnológico, de seus recursos políticos e de seus instrumentos de inteligência para alterar a  orientação independentista das forças nacionais e progressistas brasileiras que se opõem à  dependência e à submissão. 

Não se pode subestimar o significado da vitória de Lula. Não se trata simplesmente de um  procedimento democrático no qual um candidato derrotou outro.

Trata-se de uma vitória  “democrática” da vontade de forças nacionais representadas por uma ampla classe trabalhadora  que, em um breve momento histórico, conseguiu unificar-se e interromper, ainda que  parcialmente, o avanço de uma poderosa corrente de extrema direita na América Latina,  organicamente vinculada aos interesses de setores das classes dominantes dos Estados Unidos. 

Toda ação provoca uma reação, e seus efeitos repercutirão sobre os governos de direita latino americanos, que deverão oscilar sob o impacto de suas crises econômicas no próximo período.  Nesse sentido, a permanência de uma classe trabalhadora brasileira ativa, organizada e presente  nas ruas contribuirá para que os países da América do Sul se libertem progressivamente da  condição de subordinação e dependência em relação aos Estados Unidos, a menos que  acontecimentos sangrentos, eventualmente provocados pelas classes dominantes antes de seu  colapso, interrompam esse processo. 

Portanto, a atual ordem mundial alcançou os limites de sua capacidade de exercer o poder  militar, econômico e político. A convergência e o aprofundamento dessas contradições poderão  conduzir, no futuro, ao esgotamento de sua validade histórica e ao surgimento de algo novo, a  menos que a irracionalidade desse sistema alcance o ponto de provocar sua própria destruição,  arrastando-nos consigo. 

Não afirmo, contudo, que esta seja a batalha final, nem que a nova ordem, cujos primeiros sinais  já se manifestam diante de nós, será necessariamente mais justa ou menos conflituosa. As potências que hoje pretendem ocupar o lugar dos Estados Unidos poderão disputar entre si,  amanhã, a hegemonia mundial, enquanto a base econômica e política dessas sociedades  continuar sendo o sistema capitalista. 

Os Estados Unidos são, nesse sentido, mais uma consequência dessa realidade do que  propriamente sua causa.  A estrutura capitalista, fundamentada na concorrência, no conflito, na ganância, na acumulação  de riqueza e capital e na busca pela hegemonia, ou ao menos pela preservação de suas posições  de poder, constitui a base material dos Estados que hoje lideram a defesa de uma ordem mundial  multipolar. 

Consequentemente, não podemos depositar confiança absoluta nessas potências como alternativa  radical ao imperialismo ocidental. Podemos, porém, aproveitar as contradições existentes neste  momento histórico e intensificar o trabalho entre aqueles que compartilham os mesmos  interesses de classe, utilizando esse impulso para aprofundar as conquistas sociais e econômicas  da classe trabalhadora brasileira. 

Quanto ao custo dessa resistência, mente quem procura minimizá-lo. No Vietnã, um em cada três  cidadãos foi morto até a libertação do país. 

No Oriente Médio, os problemas permanecem sem solução, e continuam ausentes alternativas  concretas e viáveis para os conflitos em Gaza, no Líbano, no Iêmen, na Síria e no Irã.  No Brasil, esse custo se expressa também na existência de aproximadamente 60 milhões de  cidadãos que votaram no candidato da extrema direita, que fugiu para junto de seus  empregadores nos Estados Unidos em razão de sua corrupção e de seu envolvimento em casos de  suborno e desvio de recursos públicos que chegam a centenas de milhões. 

Portanto, a disputa não terminou. É necessário aprofundar essa vitória política internamente, por  meio da ampliação das conquistas sociais, econômicas e políticas, e, no plano externo, mediante  a contenção do enorme avanço da direita na América Latina. 

Os Estados Unidos chegaram, assim, aos limites de seu poder militar, econômico e político.  Veremos os frutos desse processo nos próximos dias, apesar do elevado custo humano que ele  continuará impondo. (*) Doutor em Direito Internacional, Professor da Universidade Federal do Paraná

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →