Por Amr Hdiefa (*) – Grandes acontecimentos ao longo da história contemporânea constituíram pontos de inflexão que delineiam os limites da hegemonia do império contemporâneo, em suas diversas formas de coerção e subjugação, inerentes ao conceito de poder nas ciências políticas.
Não pretendo recuar muito na história, pois o objeto destas linhas é a atual ordem mundial, construída a partir dos entendimentos estabelecidos após a Segunda Guerra Mundial. Essa ordem representou o resultado de uma longa sucessão de grandes guerras e crises violentas que atingiram os centros históricos de sua formação, até que se chegasse à possibilidade de administrar os conflitos entre as potências sem recorrer a uma nova guerra mundial, depois de o planeta ter experimentado duas vezes os seus horrores.
Apesar da crescente fragilidade de suas instituições e mecanismos, não podemos excluir essa ordem de qualquer análise ou perspectiva política simplesmente porque reconhecemos as injustiças que ela nos impõe. Sem ela, não estaríamos hoje lendo estas linhas por meio das tecnologias que nos cercam, e nossos pais, assim como nós, provavelmente já teríamos perecido há muito tempo.
Dessa ordem surgiram mecanismos destinados à administração das crises e dos conflitos mundiais, controlados fundamentalmente pelas relações de poder, influência e hegemonia. Essas relações atravessaram períodos de equilíbrio e sofreram sucessivas rupturas.
Entretanto, após cada ruptura, as forças que controlam os mecanismos internacionais não retornam à sua configuração anterior. Nos grandes momentos de inflexão, sofrem deformações estruturais às quais a ordem mundial procura se adaptar, tornando-se manca, mutilada, cega, surda, enlouquecida ou monstruosa.
Essas deformações se acumulam até que o sistema alcance um estágio em que seu próprio corpo já não seja capaz de suportar uma nova alteração, por menor que seja. O poder militar, a subjugação econômica e política e as intervenções nos assuntos internos dos Estados constituíram os principais instrumentos utilizados para preservar essa hegemonia.
No plano militar, os Estados Unidos mantiveram sua superioridade e, consequentemente, sua capacidade de subordinar o conjunto dos países do mundo capitalista, até sofrerem sua primeira grande derrota, no sentido literal da palavra, em 1975, quando as forças norte-vietnamitas conseguiram tomar Saigon, expulsar os militares estadunidenses e seus colaboradores locais do Vietnã do Sul e unificar o país.
Esse acontecimento revelou, pela primeira vez, os limites do poder militar dos Estados Unidos em suas guerras coloniais. Ao mesmo tempo, proporcionou um impulso mundial tanto aos seus adversários quanto aos aliados que, silenciosamente, desejavam libertar-se de sua dependência.
Com o colapso da União Soviética, esse impulso perdeu força. Em vez de procurar restabelecer o antigo equilíbrio, os Estados Unidos inclinaram-se intensamente na direção oposta, a ponto de seu movimento rumo à hegemonia unilateral superar o desequilíbrio anterior.
Passaram, assim, a exercer seu domínio de maneira excessiva em um mundo unipolar, nos planos militar, econômico e político. Desencadearam as guerras na Iugoslávia, a Segunda Guerra do Golfo e sucessivas tragédias no Oriente Médio, chegando à guerra contra o Afeganistão e, posteriormente, contra o Iraque, seguidas pela Primavera Árabe, pelas guerras na Síria, no Iêmen e no Sudão e, finalmente, pelas guerras em Gaza, no Líbano e no Irã.
Apesar da dimensão dos sacrifícios humanos ao longo desse período, a última ofensiva contra o Irã demonstrou que a capacidade de utilização efetiva do poder militar estadunidense atingiu um ponto crítico. Esse poder já não intimida os adversários como antes, tampouco representa uma garantia de segurança para os aliados iludidos nos momentos decisivos.
A importância estratégica da resistência iraniana ao colapso decorre, em primeiro lugar, e sem qualquer intenção de bajulação, da firmeza das forças iranianas comprometidas com a independência nacional. Essas forças desenvolveram seus métodos de defesa e construíram uma ampla e complexa rede social integrada à estrutura do regime político, tornando-o capaz de suportar tamanha pressão.
Essa experiência produzirá consequências para futuras manifestações de resistência à hegemonia política e militar dos Estados Unidos em diversos países e continentes. Em segundo lugar, a resistência do Irã resulta do acúmulo histórico das experiências dos povos do mundo e da região no enfrentamento dessa máquina global de guerra e destruição, desde o papel desempenhado pela União Soviética, passando pelos movimentos de libertação nacional e pelos Estados que os apoiaram, até as resistências populares no Iraque, no Afeganistão e no Iêmen.
Independentemente de nossas divergências com as ideologias dessas forças, não se pode exigir delas, diante das ameaças existenciais que enfrentam e das condições econômicas que conferiram importância histórica às suas ações, que sejam ideais em seu pensamento, em sua moralidade, em suas concepções jurídicas ou em suas relações sociais.
Trata-se de um princípio elementar das ciências sociais e políticas. Afinal, essa ação histórica ocorre em circunstâncias marcadas por transformações técnicas, econômicas, tecnológicas e midiáticas profundamente complexas.
No campo da hegemonia econômica e de seus mecanismos coercitivos, a resistência da economia russa ao colapso, apesar dos pacotes de sanções econômicas sem precedentes históricos, tanto em quantidade quanto em natureza, também evidenciou os limites do domínio econômico dos Estados Unidos.
Foi essa mesma limitação que levou ao fracasso da política de tarifas alfandegárias que Donald Trump tentou impor aos países do mundo, especialmente diante da China, onde encontrou uma resistência significativa. Consequentemente, o Irã continua resistindo economicamente até hoje, graças ao conhecimento dos limites da pressão econômica estadunidense e ao aproveitamento das experiências de outros países no enfrentamento dessas medidas, ainda que em circunstâncias distintas.
Quanto à intervenção nos assuntos internos dos Estados e à construção de países subordinados por meio de lideranças fantoches, preparadas e implantadas pelos Estados Unidos em diversas regiões do mundo, especialmente naquela que consideram seu quintal — a América Latina —, as eleições brasileiras recentes revelaram limites históricos à possibilidade de utilização de seu poder tecnológico, de seus recursos políticos e de seus instrumentos de inteligência para alterar a orientação independentista das forças nacionais e progressistas brasileiras que se opõem à dependência e à submissão.
Não se pode subestimar o significado da vitória de Lula. Não se trata simplesmente de um procedimento democrático no qual um candidato derrotou outro.
Trata-se de uma vitória “democrática” da vontade de forças nacionais representadas por uma ampla classe trabalhadora que, em um breve momento histórico, conseguiu unificar-se e interromper, ainda que parcialmente, o avanço de uma poderosa corrente de extrema direita na América Latina, organicamente vinculada aos interesses de setores das classes dominantes dos Estados Unidos.
Toda ação provoca uma reação, e seus efeitos repercutirão sobre os governos de direita latino americanos, que deverão oscilar sob o impacto de suas crises econômicas no próximo período. Nesse sentido, a permanência de uma classe trabalhadora brasileira ativa, organizada e presente nas ruas contribuirá para que os países da América do Sul se libertem progressivamente da condição de subordinação e dependência em relação aos Estados Unidos, a menos que acontecimentos sangrentos, eventualmente provocados pelas classes dominantes antes de seu colapso, interrompam esse processo.
Portanto, a atual ordem mundial alcançou os limites de sua capacidade de exercer o poder militar, econômico e político. A convergência e o aprofundamento dessas contradições poderão conduzir, no futuro, ao esgotamento de sua validade histórica e ao surgimento de algo novo, a menos que a irracionalidade desse sistema alcance o ponto de provocar sua própria destruição, arrastando-nos consigo.
Não afirmo, contudo, que esta seja a batalha final, nem que a nova ordem, cujos primeiros sinais já se manifestam diante de nós, será necessariamente mais justa ou menos conflituosa. As potências que hoje pretendem ocupar o lugar dos Estados Unidos poderão disputar entre si, amanhã, a hegemonia mundial, enquanto a base econômica e política dessas sociedades continuar sendo o sistema capitalista.
Os Estados Unidos são, nesse sentido, mais uma consequência dessa realidade do que propriamente sua causa. A estrutura capitalista, fundamentada na concorrência, no conflito, na ganância, na acumulação de riqueza e capital e na busca pela hegemonia, ou ao menos pela preservação de suas posições de poder, constitui a base material dos Estados que hoje lideram a defesa de uma ordem mundial multipolar.
Consequentemente, não podemos depositar confiança absoluta nessas potências como alternativa radical ao imperialismo ocidental. Podemos, porém, aproveitar as contradições existentes neste momento histórico e intensificar o trabalho entre aqueles que compartilham os mesmos interesses de classe, utilizando esse impulso para aprofundar as conquistas sociais e econômicas da classe trabalhadora brasileira.
Quanto ao custo dessa resistência, mente quem procura minimizá-lo. No Vietnã, um em cada três cidadãos foi morto até a libertação do país.
No Oriente Médio, os problemas permanecem sem solução, e continuam ausentes alternativas concretas e viáveis para os conflitos em Gaza, no Líbano, no Iêmen, na Síria e no Irã. No Brasil, esse custo se expressa também na existência de aproximadamente 60 milhões de cidadãos que votaram no candidato da extrema direita, que fugiu para junto de seus empregadores nos Estados Unidos em razão de sua corrupção e de seu envolvimento em casos de suborno e desvio de recursos públicos que chegam a centenas de milhões.
Portanto, a disputa não terminou. É necessário aprofundar essa vitória política internamente, por meio da ampliação das conquistas sociais, econômicas e políticas, e, no plano externo, mediante a contenção do enorme avanço da direita na América Latina.
Os Estados Unidos chegaram, assim, aos limites de seu poder militar, econômico e político. Veremos os frutos desse processo nos próximos dias, apesar do elevado custo humano que ele continuará impondo. (*) Doutor em Direito Internacional, Professor da Universidade Federal do Paraná
Brasil 247