Arquivos Epstein e crimes recentes no Brasil. O que podemos fazer para impedir exploração sexual infantil?
A cada novo escândalo envolvendo abuso sexual infantil ou crimes cometidos por pessoas socialmente respeitadas, um movimento se repete: cresce o choque, a indignação pública e, quase imediatamente, as buscas no Google por termos como “educação sexual”, “como proteger crianças” e “sinais de abuso”. A repercussão dos arquivos de Jeffrey Epstein e a recente prisão de um piloto por abuso sexual reforçam esse padrão e expõem uma falha recorrente na forma como a sociedade lida com o tema.
Para Mariana Ruske, Pedagoga e Fundadora da Senses Montessori School, o problema não está na surpresa, mas no atraso da conversa. “Esses casos chocam porque são, de fato, crimes monstruosos. Mas, eles também revelam algo que insistimos em ignorar: o abuso não é exceção distante. Ele se esconde atrás de prestígio, reputação e carisma. Por isso, esperar o escândalo estourar para falar de proteção é sempre tarde demais.”
Segundo Mariana, a reação imediata, buscar informação apenas depois que o crime vira manchete mostra como a educação sexual ainda é tratada como tabu, e não como estratégia preventiva.
“Educação sexual não é sexualização precoce. É ensinar desde cedo limites corporais, consentimento, respeito e a reconhecer situações de risco. É isso que protege crianças, não o silêncio.”
Ela explica que abusadores se aproveitam justamente da falta de vocabulário e de segurança emocional das crianças para impor medo e segredo. “Crianças pequenas muitas vezes não conseguem nem nomear o que aconteceu. Quando têm educação sexual básica, conseguem dizer ‘ele tocou minha parte íntima’ e pedir ajuda. Isso muda tudo.”
No ambiente digital, o risco se amplia. Redes sociais, jogos online e aplicativos de mensagens encurtam o caminho entre crianças e aliciadores. Para a pedagoga, o erro está em transferir responsabilidade para a tecnologia, quando o ponto central é a ausência de mediação adulta.
“O cérebro humano só amadurece plenamente por volta dos 25 anos. Não é razoável esperar que crianças e adolescentes façam sozinhos avaliações de risco. Limitar telas, acompanhar conteúdos e adiar redes sociais não é autoritarismo, é proteção baseada em ciência.”
Além da família, a escola ocupa um papel estratégico nessa rede de proteção. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que a maioria dos casos de estupro de vulnerável acontece em ambientes considerados confiáveis e envolve pessoas próximas da vítima.
“A escola muitas vezes é o único espaço onde a criança pode ser vista e ouvida. Professores percebem mudanças de comportamento, queda de rendimento, regressões e sinais emocionais que indicam sofrimento. Pela lei, qualquer suspeita deve ser notificada. O silêncio institucional também expõe.”
Do ponto de vista neurocientífico, Mariana alerta que o impacto do abuso sexual infantil é profundo e duradouro. Alterações em estruturas cerebrais ligadas à memória e ao medo aumentam o risco de depressão, transtorno de estresse pós-traumático e dificuldades emocionais ao longo da vida.
“Quando um escândalo vem à tona, todos querem saber como isso foi possível. A pergunta mais importante, porém, é outra: o que estamos fazendo antes para impedir que aconteça? Educação sexual, diálogo e redes reais de proteção não evitam todas as violências, mas são a única barreira comprovadamente eficaz.”
Sobre a especialista
Mariana Ruske é pedagoga há 12 anos, especializada no método Montessori e fundadora da Senses Montessori School, referência em bilinguismo e educação Montessori no Brasil.
