Casa de Maradona, onde astro do futebol viveu na infância, se torna refeitório popular
Diego estaria contente, dizem seus fãs. Mais do que um museu de glórias esportivas, a casa onde nasceu se tornou um centro de ajuda para os moradores de Fiorito, que recebem roupas ou um prato de comida quente no mesmo pátio de terra onde o camisa 10 argentino viveu uma infância de privações.
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No bairro de casas precárias na periferia de Buenos Aires — algumas eternamente em construção —, dezenas de murais reproduzem momentos da vida de Diego Maradona, morto em 2020 vítima de uma parada cardiorrespiratória.
Nesta terça-feira (14), começará um novo julgamento contra os profissionais de saúde que deveriam cuidar dele.
Atormentados por suas próprias urgências, os moradores vão e voltam para "a casa de Diego" com recipientes para levar um pouco da comida feita por voluntários. Ao fundo, toca cumbia, a música que Maradona gostava.
— Diego diria que há muita fome e que é preciso ajudar, há muitas necessidades, demais — diz à AFP Diego Gavilán, um dos que se aproximam para receber comida.
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Jorge Duran/AFP
Gavilán coleta papelão ou recupera metais para sobreviver, mas isso já não basta. Ele está desempregado.
— Comecei a frequentar os refeitórios a partir da mudança de governo. Começou a haver mais pobreza, é preciso sair para catar papelão. Agora abriram as exportações, então pagam menos pelos metais, pelo papelão. Não dá para chegar ao fim do mês e há muitas necessidades — conta.
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Embora as estatísticas mostrem uma queda da pobreza principalmente porque a inflação caiu para um terço desde que o ultraliberal Javier Milei assumiu o poder em 2023, a economia familiar está em crise, endividada e inadimplente, segundo relatórios do Banco Central.
A abertura da economia e o colapso do consumo resultaram no fechamento de 22 mil empresas em dois anos de governo, a uma média de 30 por dia, segundo relatórios oficiais. A política de motosserra de Milei reduziu subsídios e elevou tarifas em mais de 500%.
O trabalho se precarizou, com forte crescimento de motoristas de aplicativo e entregadores de plataformas.
A economia popular impulsionada pelos trabalhadores independentes em tarefas informais — construção, carpintaria, serviços domésticos — é a mais atingida.
— (Nesse contexto) Vir pedir ajuda aqui, na casa do Diego, é algo especial. Ele passou tanta fome aqui quando era menino e é especial que as pessoas do bairro recebam um prato de comida — consola-se Gavilán.
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Honrar Diego
Fiorito, a menos de uma hora do Obelisco, é um bairro de ruas de terra e necessidade.
— Aqui é preciso procurar refeitórios todos os dias, porque as pessoas, quer dizer, o catador já não cata mais, o gari já não varre mais. Então as pessoas passam fome — diz à AFP María Torres, cozinheira do refeitório.
O voluntário Alejandro prepara carne para um ensopado para vizinhos necessitados no quintal da casa de infância do astro do futebol Diego Maradona, agora transformada em um refeitório comunitário, em Villa Fiorito, Buenos Aires, Argentina
Tomas Cuesta / AFP
Nesse centro de ajuda não há mesas nem cozinha. Um fogão a lenha serve de caldeirão e uma árvore caída de assento coletivo. O orgulho de estar na casa natal de Maradona dissipa qualquer carência.
— Eu cresci em um bairro privado: privado de água, privado de asfalto, privado de tudo — costumava dizer um irônico Maradona sobre Fiorito.
— É algo incrível no bairro, vir à casa de Diego buscar um prato de comida, quem imaginaria? Ninguém — disse Torres.
— Eu acredito que o cara [Maradona] está muito contente porque é algo no lugar onde ele nasceu.
'Barriga cheia'
O padre Leonardo Torres é um dos idealizadores do sopão comunitário.
Ele lembra uma das mil histórias que Maradona contava sobre sua infância, quando sua mãe, Dalma 'Tota' Franco, deixava de comer para poder alimentá-lo.
— Diego diz em um vídeo que a mãe dizia que estava com dor de barriga para que ele pudesse comer, não é? Nós queremos que muitas 'Totas' e muitos 'Diegos' vão embora de barriga cheia — disse.
Rosa, mãe de vários filhos e desempregada, é uma das que recebem ajuda em um lugar cuja história não lhe é indiferente.
— Diego, para os argentinos, é uma paixão, é um ídolo — resume.
