O Círio de Nazaré, uma das maiores e mais tradicionais procissões religiosas do Brasil, que aconteceu no dia 11 deste mês em Belém, teve uma presença ilustre: Jung Kook, um dos sete integrantes do grupo pop sul-coreano BTS. Não era de carne e osso, claro, mas um totem de papelão, com o exato 1,77m do cantor.
Fez toda a caminhada, de cerca de 4km, de “braços dados” com a administradora Aline Cardoso, de 41 anos. BTS no Brasil: Ministério Público de SP pede informações para Live Nation e prefeitura sobre mapa de shows
Qual o segredo do BTS? Pesquisadores e biógrafo falam sobre os 10 anos de sucesso A paraense estava ali com seu ídolo para agradecer ter conseguido comprar ingressos para os três dias de shows da turnê “Arirang” por São Paulo, na quarta-feira, na sexta e no sábado, no estádio Morumbis.
Na promessa, além de carregar o Jung Kook de papel no meio de uma multidão de mais de dois milhões de pessoas, ela precisava dar o boneco para a primeira fã que o reconhecesse. Uma menina de 16 anos, aos prantos, nos arredores da Basílica Santuário de Nazaré, foi a agraciada.
— Nós costumamos dizer que quem tem limite é cartão de crédito e município. O Army, não — diz Aline.
Aline Cardoso (de roxo) no Cìrio de Nazáre 2026 Arquivo pessoal
Army (exército, em inglês) é como são conhecidos os fãs do grupo, que debutou na Coreia do Sul em 2013, quando o k-pop ainda era um fenômeno majoritariamente local, no máximo expandido para Japão e China. Até aquele momento, o grande hit em coreano que tocou até rachar havia sido “Gangnan style”, do cantor Psy, em 2012.
Os jovens RM, Suga, J-Hope, Jimin, Jin, V e Jung Kook mudaram esse cenário a partir de uma estratégia inovadora, promovida pela empresa BIGHIT(hoje HYBE, a criadora do BTS) de ocupação das redes sociais (o sucesso de Psy já havia provado que o potencial do YouTube em globalizar uma canção) para conexão com o público.
Assim —e com canções com mensagens de amor-próprio e aceitação , empacotadas em superproduções visuais —, o BTS se firmou como um dos grupos de música pop mais importantes deste século e um paradigma da expansão da música não-inglesa (confira números na página 2). Com força suficiente para não inscrever nenhuma música no Grammy 2027, num boicote a recém-criada categoria de Melhor Performance de Música Pop Asiática.
“Esperamos que a música possa ser ouvida e amada por si só, em vez de ser dividida por regiões ou idiomas”, disseram. —Eles enxergaram o potencial das redes sociais na era da mídia tradicional.
Não apenas as utilizaram, mas foram além, criando conteúdos e ações de divulgação sob medida — disse Myeongseok Kang, autor do livro biográfico “Beyond The Story: Uma história dos 10 anos de BTS ” (da Galera Record, com tradução de Luara França). Todas as idades
Com isso, construíram um batalhão mesmo, organizado e hierarquizado. Aqui no país um dos grandes regimentos é o BTS Brasil On, conhecido como BBO.
Com quase 500 mil seguidores no Instagram e 140 mil no X, o fã-clube é dirigido por um grupo de 20 membros, responsáveis por ações digitais e presenciais, compartilhamento de notícias e tudo mais que o Army consuma. Na função de diretora-geral está a analista de marketing de São Paulo, Aline Geralducci, de 29 anos, que se apaixonou pelo grupo em 2019 depois de assistir a um clipe, pesquisar mais e mudar as ideias preconcebidas de que era apenas “meninos bonitos que faziam sucesso”.
—Fiquei muito surpresa com o trabalho deles, com as mensagens por trás das músicas. Não é um grupo para agradar menina — diz Aline.
Até mesmo porque nem só adolescente curte o k-pop da banda. No Instagram do BBO, por exemplo, 35,8% dos seguidores têm entre 25 e 34 anos — o maior grupo.
A professora recifense Hélida Arruda está além: tem 61 e já está na contagem regressiva para, com um grupo de 65 pessoas, aterrissar em São Paulo e curtir dois dias de show. Investiu nesta viagem cerca de R$ 6 mil.
— Só quero estar lá. Com a vida que eu tenho, vai ser uma grande vitória.
Hélida Arruda, de 61 anos: fã do BTS Arquivo pessoal
Muito da trajetória de Hélida foi dedicada a uma filha atípica, que precisava de cuidado integral, sem poder sair de casa. Há quatro anos, a moça, na casa dos 30, morreu, e a professora se viu com um tempo inédito.
O conforto que encontrou nas letras e na comunidade de fãs não só do BTS, mas também das séries asiáticas (outra commodity cultural forte da chamada Hallyu, o fenômeno de exportação global da cultura coreana), a ajudou a criar uma rede de amizade e sociabilidade. — Logo quando minha filha se foi, passei a cantar “o que que vou fazer com essa tal liberdade” — diz ela, deixando o k-pop e partindo papara o pagode do Só pra contrariar.
—Agora estou me permitindo e ousando mais — diz Hélida. Para o Army, toda e qualquer aparição do BTS é um acontecimento, mas a turnê de “Arirang” tem um componente ainda mais emocionante.
É o retorno do BTS após um hiato de quatro anos. Os rapazes pararam suas atividades em grupo para prestar o serviço militar obrigatório da Coreia do Sul, que não poupa ninguém, nem astro global.
O primeiro a se alistar foi o mais velho, Jin, e meses depois outros foram fazendo o mesmo. A pausa não diminui o moral da tropa.
Trouxe até mais soldados. Caso do fotógrafo do Rio Douglas Mateus, de 37 anos, que estará no Morumbis na quarta-feira com 200 freebies.
Mais um nome para o glossário: são os presentinhos que a turma confecciona para trocar entre si. Ele prepara kits com bottons, photocards e polaroids, uma trabalheira e tanto para quem, há bem pouco tempo, preferia não ser “fã de ninguém”.
Douglas Mateus, fã do BTS Arquivo pessoal
BTS no Brasil: Ministério Público de SP pede informações para Live Nation e prefeitura sobre mapa de shows —Minha dificuldade de me assumir fã era pelo combo de idade e gênero — diz ele, que produz conteúdo na internet para diminuir o estigma de adultos em fandons.
—Desde sempre somos ensinados a nos preocupar com aparência, com o que os outros vão pensar e “ser responsável”. A quebra desses padrões permite ser feliz.
É com essa energia lá no alto que ele tenta não pensar muito nas alterações para a da turnê na América do Sul — e que está levando o Army latino à loucura. As tretas: nas apresentações do Hemisfério Norte, o palco 360° tinha 12 telões, além de quatro passarelas imensas para aproximar o septeto do público.
Na América do Sul, a estrutura tem apenas quatro telões, e a organizadora Live Nation confirma que em São Paulo também será assim. E mais: a planta do show publicada no Diário Oficial do Município tem duas áreas perto do palco, Pit 1 e Pit 2, que não aparecem no mapa de venda da Ticketmaster.
— É um descaso absurdo — diz a arquiteta paulistana Juliana de Oliveira, 29 anos, parte da diretoria do B Army Acadêmicas, um grupo de estudos multidisciplinares baseados na atuação do BTS. —Nós somos fãs, mas também fazemos um papel crítico e estamos felizes que todo mundo entendeu que ser fã não é aceitar tudo que se recebe.
A grita tem sido tão grande que a promotoria de Justiça do Consumidor do Ministério Público de São Paulo, alertada pelos fãs, instaurou um procedimento para apurar as histórias. Sobre os setores, a produtora Live Nation explicou, em nota, que não haverá PIT.
“Ressaltamos que o único mapa de assentos válido é aquele publicado oficialmente no site da Ticketmaster Brasil. Incentivamos o público a consultar exclusivamente os canais oficiais”, diz a empresa.
Procurada, a prefeitura de São Paulo não respondeu. Army que é army é assim: não passa a mão na cabeça de quem quer que seja.
— Nós nos sentimos no direito, inclusive, de cobrar o próprio BTS para que se posicione frente a causas necessárias. O fandom amadureceu junto com o grupo — diz Juliana.
Este amadurecimento e preocupação coloca o Army do BTS numa trincheira para além do direito do consumidor. A atuação política costuma ser global — um comício de Trump, em 2020, ficou esvaziado graças a uma atividade de boicote orquestrada pela turma.
Por aqui, tem trabalhado, neste ano, no incentivo ao voto e em causas progressistas. — O BTS traz questões sociais, criticam desigualdade e meritocracia e o Army tem um posicionamento que condizem com as mensagens deles — Aline Geralducci.
O Globo