Aquecimento acelerado e secas severas levam Amazônia ao limite do colapso

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Fonte da notícia: Metropoles Metropoles

A Amazônia já enfrenta um aquecimento de 2 °C a 3 °C, nível superior à média global, aproximando a floresta tropical do seu limite crítico de sobrevivência e ameaçando o equilíbrio do clima em todo o continente. O aumento contínuo da temperatura, somado ao desmatamento e a secas extremas, acelera a degradação do bioma e reduz a capacidade das árvores de transportar umidade para a atmosfera.

Caso esse cenário se consolide, mais de 70% da vegetação pode sofrer um processo irreversível de savanização nas próximas décadas, transformando a região em uma savana degradada e impactando diretamente o regime de chuvas na América do Sul e em outras partes do planeta. O avanço da devastação florestal coloca o bioma perto do chamado “ponto de não retorno”, momento em que a floresta perde a capacidade de se regenerar sozinha e passa a se autodegradar.

Na porção sul da Amazônia, a estação seca já dura entre quatro e cinco semanas a mais do que há quatro décadas, com queda de até 30% nas chuvas do período. Segundo o climatologista Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia (SPA) e membro da Academia Brasileira de Ciências, atingir esse limite traria consequências em escala global.

“Se nós degradarmos cada vez mais, com a transformação para essa savanização, nós vamos jogar mais de 200 bilhões de toneladas de gás carbônico, o principal gás do aquecimento global”, alerta. O climatologista explica que a perda da vegetação afeta o transporte de umidade para o centro-sul do Brasil e até para outros continentes: “Estudos mostram que até a redução da chuva na Amazônia gera uma onda atmosférica que chega lá no oeste dos Estados Unidos, na Califórnia, tornando partes do estado ainda mais secas”.

O impacto do calor excessivo e do estresse hídrico afeta diretamente a biologia das plantas. Enquanto árvores de raízes profundas conseguem buscar água no lençol freático durante a estiagem, a maioria das espécies da floresta possui raízes superficiais e não resiste à falta prolongada de umidade no solo.

Quando há escassez de água, bolhas de ar se formam nos vasos condutores do tronco, interrompendo a circulação de água e levando a árvore à morte por sede. Fernando Elias, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi e apoiado pelo Instituto Serrapilheira, explica como a mortalidade das plantas altera o papel ecológico da Amazônia no planeta.

“Quem absorve carbono da atmosfera são as árvores. Se elas morrem, esse serviço ecossistêmico é perdido.

Essas florestas que antes funcionavam como um sumidouro de carbono, agora, com as árvores mortas e em decomposição, passam a ser fonte de carbono”, pontua o pesquisador. A mortalidade de árvores abre clareiras e acúmulo de matéria seca no solo, tornando a floresta úmida vulnerável a queimadas incontroláveis.

Elias ressalta que o fogo se tornou o principal vetor de degradação da Amazônia, superando inclusive as áreas desmatadas. “Geralmente, as espécies evoluem para suportar um limite de temperatura, e se esse limite é superado, a mortalidade e extinção local são os principais efeitos observados”, afirma Elias, citando como exemplo a morte em massa de botos em lagos aquecidos do Amazonas em 2023.

Para conter o colapso, especialistas apontam que é urgente zerar o desmatamento, combater o fogo e promover a restauração florestal em larga escala. “Nós corremos o risco de, se o desmatamento não for totalmente zerado e não houver grande restauração florestal, atingir o ponto de não retorno lá por 2040”, alerta Nobre.

Ações coordenadas de conservação e transição energética são apontadas como o único caminho para garantir a resiliência do bioma.

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