AquaRio cria ‘submarino de Noé’ para salvar corais brasileiros ameaçados de extinção; veja imagens

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O Rio de Janeiro virou um porto seguro para os corais, os animais marinhos mais ameaçados do Brasil devido à elevação da temperatura dos mares. Eles ganharam no AquaRio, na Zona Portuária, não uma arca, mas uma espécie de “submarino de Noé”, para resgatar e reproduzir espécies brasileiras, num ambiente de alta tecnologia que simula as condições do Atlântico.

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O objetivo do novo Laboratório de Corais do Brasil é criar um banco de espécies para repovoar o litoral do país, caso sejam extintas na natureza, coisa que os cientistas consideram altamente provável. Algumas já foram drasticamente reduzidas e outras estão desaparecidas.

Em 2024, por exemplo, houve branqueamento (processo de adoecimento e morte) de 90% dos recifes em Tamandaré, na Bahia. E o motivo é que o coral não tolera excesso de calor.

Ele perde a cor e morre. — A iniciativa é inédita na América do Sul.

Já investigávamos como tratar corais doentes, porém, os sucessivos recordes de calor no mar e o El Niño aumentaram essa urgência. Vimos que era preciso montar uma operação de resgate e um grande laboratório para reproduzir corais.

Não há nada semelhante no continente; temos 70 profissionais dedicados ao projeto — afirma o diretor do AquaRio, o biólogo marinho Marcelo Szpilman. Trabalho delicado.

Pesquisador manuseia um coral recém- cortado para reprodução Marina Calderon

Dos recifes coralinos dependem a biodiversidade marinha e também pessoas. Calcula-se que 18 milhões de brasileiros se sustentam direta ou indiretamente de seus recursos.

Eles são a base da pesca artesanal e da indústria do turismo do litoral. A meta é reproduzir por ano milhares de “bebês”.

Os pesquisadores também buscam identificar corais mais resistentes ao calor e testam métodos para recuperar os que adoecem. Na Região dos Lagos: polícia prende três suspeitos de latrocínio de comerciante desaparecido em Cabo Frio

Os pesquisadores trabalham em clima de urgência. Estão em risco crítico de colapso 62% dos recifes do país, segundo a primeira avaliação da Lista Vermelha de Ecossistemas dedicada aos recifes de coral, realizada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e apresentada em outubro na Conferência da Biodiversidade (COP17).

A UICN estima ainda que 90% dos recifes de coral do mundo correm o risco de morrer nas próximas duas décadas. Primeiro banco genético de corais da América do Sul está sendo contstruíndo no AquaRio, no Rio de Janeiro

Marina Calderon Espécies nativas do Brasil já podem ter sido extintas e o super El Niño deste ano só agrava a situação — a previsão é de possível morte em massa nos próximos meses.

Os corais brasileiros têm sido castigados por intensas ondas de calor no mar em 2019, 2020 e 2024. Elas causaram estresse térmico severo, branqueamento e morte.

Em meados de 2026, no entanto, as temperaturas da superfície do mar atingiram novos recordes históricos. Corais são tropicais, mas até para eles o calor desta década é insuportável.

No Brasil, eles vivem bem entre 26°C e 27°C. Adaptaram-se a isso por milhares de anos.

Mas a água à temperatura de 30°C das ondas de calor marinhas lhes é potencialmente letal. Mapa mostra a distribuição dos recifes de corais no Brasil e cinco regiões com risco crítico de colapso; no estado do Rio, há colônias em Búzios, Arraial do Cabo e nas Ilhas Cagarras.

Arte O GLOBO Exemplares do Índico e do Pacífico

A seus hóspedes, a versão contemporânea da iniciativa bíblica de Noé oferece confortos como “amanhecer” e “anoitecer” no ritmo da natureza. O diretor-científico do AquaRio, Rafael Franco, explica que o laboratório dispõe de equipamentos capazes de fazer o nascer e o pôr do sol e da lua acontecerem em tempo real, no mesmo momento em que ocorrem no local onde um determinado coral foi coletado.

Isso é feito por meio de variações de radiação e temperatura. Os aquários do laboratório têm sensores e outros instrumentos para simular as condições de temperatura, luminosidade, salinidade, profundidade e acidez do mar.

O laboratório consegue até mesmo reproduzir os efeitos das fases da lua, que influenciam o ciclo de vida desses animais. Os corais-cérebro do Rio de Janeiro e da Bahia, por exemplo, desovam sincronizadamente duas horas antes da lua nova.

Laboratório de corais. Considerada muito rara, a espécie Millepora nitida é encontrada em Abrolhos, na Bahia

Marina Calderon Para estudos comparativos e de conservação, o laboratório do AquaRio tem ainda corais da região do Indo-Pacífico.

Famosos pela exuberância das cores, estes são considerados ainda mais vulneráveis que os brasileiros. O esqueleto dos corais tem dureza que impressiona, mas eles são pura delicadeza.

Qualquer pequena alteração já causa estresse. É por isso que, a cada 15 dias, pesquisadores limpam cada um de seus corais.

— É como tirar carrapatos de cachorros. Nós os livramos de algas invasoras, diferentes das que vivem nos corais.

E para isso precisamos ter cuidado para não machucar as estruturas delicadas — conta Franco. Foco em espécies com esqueleto calcário

Os cientistas tentam reproduzir corais por meio de fertilização assistida e recorrem a técnicas como, por exemplo, montar enfermarias nas quais animais doentes ganham a companhia dos saudáveis. É mais que boa companhia.

A ideia por trás disso é que os corais saudáveis liberam substâncias que ajudam os doentes, pelo calor, a se recuperarem. Um objetivo dessa linha de estudo é identificar quais são esses remédios naturais, diz Franco.

O diretor salienta que duas espécies brasileiras de corais-de-fogo (Millepora braziliensis e Millepora laboreli) já podem ter sido extintas devido ao aquecimento do mar. Segundo ele, da M.

braziliensis, restavam 15 indivíduos; da M. laboreli, apenas dez.

Isso no último censo, antes dos branqueamentos, em 2018. Desde então, não foram mais encontrados.

Áreas monitoradas há três décadas se tornaram desertos de vida. Cientistas encontraram apenas esqueletos.

E todas as demais espécies estão ameaçadas. Peixes nadam entre corais em tanque do AquaRio, que mantém espécies para estudos de reprodução e conservação

Marina Calderon Expedições foram realizadas este ano para coletar espécimes, mas essas duas seguem desaparecidas, e o risco de que estejam extintas é real, acrescenta o biólogo Marcelo Szpilman.

O Brasil tem 41 espécies de corais, mas Franco explica que a ideia é trabalhar com as 16 espécies de corais com esqueleto calcário que constroem recifes, além de cinco de corais-de-fogo. O trabalho é realizado em uma ampla rede de parcerias, com mais de 30 instituições de pesquisa.

Um dos destaques é uma pesquisa com o coral-de-fogo chamado Millepora nitida, realizada em parceria com o Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD) Abrolhos e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Encontrado em Abrolhos, no sul da Bahia, o M.

nitida é muito raro e também o coral mais semelhante aos seus parentes desaparecidos. — Mas quase nada se sabe sobre ele.

Queremos aprender mais sobre sua tolerância ao calor e sobre sua reprodução — conta Franco. O programa de conservação do AquaRio está inserido no Procorais, do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

E o aquário propriamente dito faz parte da Coalizão Corais do Brasil, uma rede integrada por pesquisadores de universidades e organizações não governamentais. No fundo do mar, branco é a cor da morte

Branco é a cor da morte para os corais. Eles perdem o colorido quando, sob calor intenso, expulsam as algas zooxantelas com as quais vivem em simbiose.

São as algas que lhes dão cor e alimento. Sem elas, morrem.

Os corais suportam a água quente por alguns dias ou semanas, mas anos de sucessivas ondas de calor marinho ameaçam destruir o que a natureza levou milênios para construir. Um coral cresce, em média, um centímetro por ano.

Um grau Celsius parece pouco, mas é suficiente para “descontrolar” as algas. Elas passam a produzir substâncias tóxicas e a liberar água-oxigenada.

Agredidos, os corais as expulsam. Ainda mais vulneráveis.

Os corais da região do Indo-Pacífico são usados no AquaRio para estudos comparativos Marina Calderon

E sem suas companheiras de vida, eles ficam sem cor e comida. Seu tecido branco fica exposto.

Eles morrem se o branqueamento for intenso e prolongado. Sem as zooxantelas, algas invasoras cobrem seus esqueletos e destroem os recifes.

Até há pouco tempo, os corais brasileiros eram considerados mais resilientes. Isso porque algumas espécies locais produzem pigmentos e são capazes de se alimentar de zooplâncton, mas desde 2019 essa resistência parece coisa do passado.

Pelo mundo, a situação é tão crítica que pesquisadores tentam desde iniciativas de reprodução até tratamento de corais com coquetéis microbianos e micronutrientes. E há grupos que testam no Pacífico uma espécie de “canção de ninar” para larvas de corais.

Eles as estimulam instalando no fundo do mar microfones que reproduzem os sons de recifes saudáveis. Mas, como alertou um artigo recente na revista Nature, essas iniciativas só terão resultado se forem acompanhadas da redução de emissões de gases de efeito estufa, da poluição e da pesca descontrolada.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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