Após desgaste com Master, Flávio acelera anúncio de plano de governo e aposta em pauta da segurança

 

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Depois de passar os últimos dias tentando conter os danos provocados pela crise envolvendo Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) decidiu acelerar a divulgação de partes do seu plano de governo numa tentativa de recolocar a pré-campanha presidencial em movimento e reduzir o espaço ocupado pelo caso Master no debate político. A primeira frente escolhida pelo entorno bolsonarista será a segurança pública, com a defesa da redução da maioridade penal e do endurecimento da legislação criminal.

A mudança de estratégia ganhou força justamente no momento em que aliados passaram a perceber maior cautela de empresários e investidores que vinham acompanhando a construção da candidatura do senador. Nesta quarta-feira, Flávio desembarcou em São Paulo para uma agenda desenhada para dialogar diretamente com setores do mercado financeiro e do empresariado em meio à turbulência provocada pelas revelações sobre sua relação com Vorcaro.

Ao longo do dia, o senador participa de um almoço reservado com gestores, banqueiros e executivos ligados à Faria Lima. À noite, se reúne com empresários dos setores de turismo, hotelaria, aviação, resorts e eventos num jantar organizado por interlocutores próximos ao PL.

Nos bastidores da campanha, a avaliação é que Flávio precisa parar de responder apenas sobre Daniel Vorcaro e voltar a produzir agenda política própria. A aposta é que a antecipação de propostas ajude o senador a retomar a iniciativa política após dias dominados por explicações sobre mensagens, áudios e encontros envolvendo o ex-dono do Banco Master.

A área da segurança pública foi escolhida para abrir esse movimento justamente por ser considerada uma das pautas de maior apelo entre eleitores conservadores e um dos poucos temas capazes de reorganizar rapidamente a base bolsonarista em torno da candidatura de Flávio.

Nos próximos dias, o senador deve reforçar publicamente a defesa da redução da maioridade penal para 16 anos, tema que voltou ao centro do debate político após a retomada da PEC na Câmara. Integrantes do entorno bolsonarista avaliam que a proposta possui forte apoio popular e pode ajudar o senador a recuperar espaço num momento em que pesquisas internas já apontam desgaste na imagem do presidenciável. Ontem, durante reunião no PL, Flávio disse a aliados que perdeu quatro pontos nos trackings.

A pré-campanha também trabalha em propostas voltadas ao endurecimento penal, revisão de benefícios para presos e fortalecimento da atuação policial. A ideia é reconstruir uma agenda de confronto direto com o governo Lula (PT) em temas de segurança e comportamento, área em que aliados avaliam que o bolsonarismo ainda mantém forte capacidade de mobilização.

Tentativa de acalmar o mercado

Diante da fragilização de Flávio, há uma preocupação em reconvencer o mercado a apoiar o projeto. Dentro do PL, cresceu nos últimos dias a ala que defende que Flávio anuncie rapidamente um nome forte para coordenar ou simbolizar a formulação econômica da candidatura — uma espécie de “Paulo Guedes” da campanha presidencial.

A avaliação de aliados é que o caso Vorcaro produziu ruído justamente em setores empresariais e do mercado financeiro que vinham sendo trabalhados pelo entorno do senador nos últimos meses. Por isso, interlocutores passaram a defender que a campanha apresente rapidamente nomes capazes de transmitir previsibilidade econômica e organização técnica.

Hoje, um dos nomes que mais circulam nas conversas internas é o da economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal no governo Jair Bolsonaro. Embora aliados ressaltem que não há definição formal, Daniella aparece entre interlocutores bolsonaristas como um nome com capacidade de dialogar simultaneamente com o mercado financeiro e com setores do eleitorado identificados com a agenda liberal da gestão Bolsonaro.

Até poucas semanas atrás, o entorno de Flávio defendia deixar propostas mais detalhadas e os nomes das equipes técnicas para perto da oficialização da candidatura, justamente para evitar desgaste antecipado e ataques da oposição. Com a crise, porém, a avaliação passou a ser outra.

Na terça-feira, durante participação na Marcha dos Prefeitos, Flávio já ensaiou esse novo movimento ao defender mudanças na legislação trabalhista, criticar o modelo atual da CLT e afirmar que a oposição apresentará uma proposta alternativa ao debate sobre o fim da escala 6x1.

A área econômica também deve entrar na nova ofensiva política da campanha. Integrantes da pré-campanha discutem propostas de revisão da reforma tributária aprovada no governo Lula, além de críticas ao modelo de execução orçamentária do governo federal.