Após Ciro Nogueira ser alvo de investigação do Master, integrantes do Centrão afirmam esperar novos desdobramentos do caso
A operação da Polícia Federal que cumpriu buscas em endereços do senador Ciro Nogueira (PP-PI), nesta quinta-feira, abriu uma nova fase das investigações relacionadas ao Banco Master, que pela primeira vez teve um político como alvo da ação. A avaliação entre dirigentes partidários e parlamentares é que haverá desdobramentos da apuração e possíveis impactos sobre outros nomes do meio político.
Um dirigente do Centrão afirmou que “não houve surpresa” com a ação da PF, diante da proximidade entre Ciro e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Outro aliado afirmou que há a percepção de que “vem mais pela frente”. Ao comentar o impacto da investigação sobre a classe política, um parlamentar resumiu: “Cada um sabe o que fez ou deixou de fazer”.
A operação ocorreu dois dias após a defesa de Vorcaro apresentar uma proposta de delação premiada à PF e à Procuradoria-Geral da República. A expectativa entre autoridades é que o ex-banqueiro dê detalhes sobre sua relação com políticos e funcionários públicos de Brasília.
Integrantes da executiva nacional do PP relataram, em caráter reservado, que já esperavam uma ofensiva contra o presidente da legenda porque a investigação já vinha avançando havia meses. Três interlocutores afirmam, porém, que o timing da operação chamou atenção dentro do partido e passou a ser associado, nos bastidores, à derrota de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) na semana passada. Embora Ciro tenha anunciado voto favorável ao então indicado do governo, aliados afirmam que o senador acabou incluído, junto com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), entre os nomes apontados como articuladores da derrota.
Entre correligionários de Ciro também há preocupação com os efeitos eleitorais do caso. O senador é candidato à reeleição no Piauí e precisa ter êxito na disputa para manter o foro privilegiado.
Na cúpula do União Brasil, o clima também é de cautela. Um integrante da direção nacional da sigla afirmou que as mensagens apreendidas pela investigação “são muito comprometedoras”. Outro aliado do presidente nacional do partido, Antonio Rueda, admitiu temer que o dirigente seja o próximo na mira da PF, embora pondere que, por não ter foro privilegiado, uma eventual operação seria mais simples do ponto de vista processual. Procurado, Rueda não se manifestou.
O desconforto no União Brasil ocorre porque Rueda também é citado em mensagens de Vorcaro. Em nota divulgada no mês passado, o dirigente admitiu ter prestado serviços advocatícios ao Banco Master por meio do escritório Rueda & Rueda.
No Senado, as reações públicas foram cautelosas. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) defendeu que autoridades e parlamentares também estejam sujeitos a investigações.
— Defendo que todos podem e devem ser investigados — afirmou Vieira.
O senador Cleitinho (Republicanos-MG) adotou linha semelhante e disse que ninguém está acima da lei. Para ele, Ciro deve esclarecer as denúncias apontadas pela investigação.
A nova fase da Operação Compliance Zero foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Na decisão, Mendonça afirma que investigadores apontam Ciro como suposto “destinatário central” de vantagens indevidas pagas por pessoas ligadas ao banco.
Entre os elementos citados pela Polícia Federal está uma emenda apresentada por Ciro em 2024 para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), proposta apelidada nos bastidores do Senado de “emenda Master”. O FGC garante parte dos investimentos em caso de quebra de uma instituição financeira. Hoje, a cobertura é limitada a R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição. A proposta de Ciro elevava esse limite para R$ 1 milhão.
A ampliação da garantia era vista como relevante para o Banco Master porque a instituição tinha nos CDBs uma de suas principais formas de captação. Com uma cobertura maior do FGC, investidores teriam mais proteção para aplicar valores elevados nesses papéis, o que poderia facilitar a atração de recursos para o banco.
Segundo a PF, mensagens apreendidas indicam que o texto da emenda foi elaborado dentro do Banco Master e encaminhado ao senador. Em uma das conversas citadas na investigação, Daniel Vorcaro comemora a apresentação da proposta afirmando: “Saiu exatamente como mandei”. A emenda não chegou a ser aprovada.
Relator da PEC que trata da autonomia financeira do Banco Central, o senador Plínio Valério (PSDB-AM) afirmou que não acatou a emenda de Ciro e disse não ver crime no simples fato de um parlamentar protocolar uma sugestão legislativa recebida de terceiros. Para ele, a operação deve estar baseada em outros elementos da investigação, e não apenas na apresentação da proposta.
— Eu não acatei a emenda. Ele apresentou uma emenda como muitos senadores fizeram. Não vejo crime nisso e nem motivo para essa operação. Deve ter outros motivos, mas por apresentar uma emenda, não — declarou Plínio.
A PEC relatada por Plínio busca dar ao Banco Central um orçamento próprio, para garantir previsibilidade de investimentos e reduzir a dependência da União. A emenda de Ciro, por outro lado, tratava de expandir a possibilidade de ressarcimento de investimentos pelo FGC.
