Apesar da surpresa, cancelamento de leilão de LFTs é elogiado pelo mercado

Apesar da surpresa, cancelamento de leilão de LFTs é elogiado pelo mercado - Foto
Fonte da notícia: Globo Globo

O cancelamento do leilão de Letras Financeiras do Tesouro (LFTs) pelo Tesouro Nacional na terça-feira surpreendeu o mercado financeiro. Os títulos atrelados à Selic normalmente são demandados quando há um aumento das incertezas e, diante do forte estresse nos mercados, a decisão de suspender o leilão de títulos pós-fixados foi, à primeira vista, contraintuitiva.

No entanto, participantes do mercado consultados pelo Valor elogiaram a decisão do Tesouro Nacional. A primeira justificativa, de ordem operacional, é a de que, dado o estresse nos mercados de títulos prefixados e atrelados à inflação, o cancelamento abriu um horário para que o Tesouro realizasse o leilão de recompras de NTN-Bs na manhã de terça-feira.

Como outra razão, antes do aumento das tensões, os títulos já vinham sofrendo com uma demanda mais baixa, em meio às perspectivas de mudança de governo e de que os juros entrariam em uma trajetória de queda. Isso favoreceria outros tipos de papéis, como os prefixados e os indexados à inflação.

A perspectiva de maior emissão de prefixados pelo Tesouro, inclusive, gerou uma abertura do diferencial conhecido como “papel casado”, tornando a remuneração dessa operação mais atraente em relação à das LFTs. A operação “casada” consiste em comprar títulos prefixados e montar uma posição em juros futuros de vencimento equivalente que compense a exposição do papel às oscilações das taxas.

A combinação transforma, na prática, uma remuneração prefixada em uma remuneração que acompanha o CDI, acrescida ou reduzida de um prêmio. O mercado costuma chamar essa estrutura de “LFT sintética”.

Ao mesmo tempo, fundos de crédito vinham sofrendo com resgates e, para honrar os pedidos, gestores venderam LFTs no mercado secundário, gerando pressão adicional nas taxas. Esse cenário também já vinha afetando os leilões do Tesouro.

Dois dos últimos três leilões não registraram venda integral dos lotes, apesar das ofertas já reduzidas, de 500 mil e 750 mil títulos. Como comparação, as ofertas oscilaram entre 1 milhão e 1,25 milhão de títulos por semana nos meses de julho e agosto.

Nesse contexto de menor demanda por LFTs, uma colocação não integral das quantidades ofertadas poderia gerar ainda mais ruído em um mercado já bastante sensível. “Pode ter tido o temor de aumentar a tensão no mercado se realizasse o leilão e a demanda por LFT se mostrasse fraca”, aponta um participante.

Esse interlocutor lembra que, em março, quando o Tesouro também interveio no mercado e fez recompras de prefixados e NTN-Bs, o leilão de LFTs foi mantido. Outro profissional avalia que o cancelamento do leilão foi benéfico, à medida que retira uma venda grande de títulos por parte do Tesouro em um mercado já sem liquidez.

“Se ele faz um lote grande e não tem demanda, pode disparar um medo maior”, conclui. O cancelamento do leilão, assim, não necessariamente justifica a desconfiança de alguns agentes domésticos em relação às LFTs — uma hipótese levantada em posts em redes sociais nos últimos dias.

Embora a demanda viesse enfraquecida, a mudança de cenário pode voltar a favorecer os títulos atrelados à Selic. “Não vejo um problema para as LFTs.

O cenário mudou bastante e isso acaba favorecendo a emissão de LFT. A tendência é que a demanda volte, o mercado se estabilize e o Tesouro volte a emitir”, conclui outro participante.

Publicação Original Globo valor.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →