Era dia 6 de outubro de 2026, dois dias depois do primeiro turno e um dia após a celebração do aniversário da Constituição de 1988. Naquele mesmo dia, um dos candidatos à Presidência da República falaria em “redemocratizar a Constituição”.
Dada minha euforia política e o receio que tomou conta de mim após o primeiro turno, optei por esperar o segundo e fazer uma aposta grandiosa: acreditar no povo brasileiro. O povo, movido por laços no campo da esquerda e da direita, rejeitou o bolsonarismo mais uma vez e optou pela democracia.
Em meados de 1978, Fernando Henrique Cardoso (MDB) era candidato ao Senado pelo estado de São Paulo. A ditadura civil-militar já apresentava grandiosas rachaduras, mas ainda controlava as agremiações partidárias por força do Ato Institucional nº 2, impondo a existência de apenas dois partidos: a ARENA e o Movimento Democrático Brasileiro.
Com a situação imposta pelo golpe iniciado em 1964, os democratas precisavam se articular da melhor forma possível para que os políticos de oposição alcançassem cargos estratégicos e impulsionassem a luta pela redemocratização do país. É nessa moldura factual que um clique fotográfico entraria para a moldura histórica.
Naquele ano, mesmo estando em campos ideológicos e intelectuais distintos, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva saíram juntos para panfletar em favor do primeiro. Evidente que o objetivo aqui não é equiparar os contextos históricos.
Deixemos o anacronismo para os tolos. O Brasil de 1978 vivia sob uma ditadura, enquanto o Brasil de 2026 possui uma ordem constitucional democrática, ainda que submetida a constantes tensões.
O que aproxima esses dois momentos não é a identidade de suas circunstâncias, mas a compreensão de que, diante de ameaças autoritárias, a construção de alianças democráticas se torna uma necessidade histórica. Nesse ponto, podemos aprender com as parcerias criadas para a derrubada da ditadura, que ficaram registradas em documentos como o “Manifesto da Frente Ampla” e a “Declaração de Lisboa”[1].
Os episódios de alianças entre campos ideologicamente distintos com o intuito de instaurar ou defender uma ordem democrática é visível ao longo da história. Uma das maiores referências de texto constitucional, a Constituição de Weimer, nasceu justamente de uma coalização entre católicos, liberais e social-democratas[2].
As divergências sobre como deveria ser o modo de vida no pós primeira guerra eram inúmeras. Entretanto, na tentativa de refundar as bases e estabelecer uma ordem republicana e democrática, a Constituição de Weimar abarcou os conflitos enfrentados e permitiu que outros indivíduos, além da classe dominante, tivessem espaço na disputa político-jurídica[3].
Outro exemplo curioso de aliança formada se passou na Bélgica dos anos 30. Antes de ser invadida pelo exército alemão em maio de 1940, os partidos belgas se viram diante de enormes dilemas para impedir a chegada do colaborador nazista Léon Degrelle e seu partido, REX, ao poder.
A possibilidade de Degrelle comandar os rumos do país era tão assustadora, que o Partido Católico e os socialistas se uniram em apoio ao primeiro-ministro em exercício Van Zeeland. A democracia não exige que pensemos da mesma forma, tampouco que abandonemos nossas convicções políticas.
Mas há momentos em que as diferenças precisam dar lugar a compromissos fundamentais, como a defesa da Constituição e das liberdades individuais. É nesse grande espírito de união que vimos uma das maiores viradas eleitorais da história brasileira.
Vi amigos saindo às ruas para conversar com os indecisos, distribuindo material de campanha e insistindo diariamente nas redes sociais sobre os riscos autoritários que o país poderia enfrentar. Milhões de Thiagos, Marianas, Thaíses, Joões, Josés e Marias com um único objetivo.
Vi pessoas oferecendo carona solidária. E o que dizer da terceira idade? Idosos sendo carregados nos braços com um único propósito: votar.
Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email Na noite do dia 25, lembrando de tudo o que vi nos últimos dias, cada mutirão para virar votos e cada esforço que presenciei, a imagem de FHC e Lula juntos me veio à memória.
Em um país que tem sido marcado diariamente pela polarização, foi possível encontrar um consenso entre forças distintas para rejeitar, ao menos na disputa pelo maior cargo do país, um candidato com histórico autoritário e criminoso. Mas não sejamos ingênuos.
A derrota de um candidato com pretensões e histórico de envolvimento em práticas autoritárias não significa o desaparecimento das ideias que o sustentam, haja vista o que aconteceu nessas mesmas eleições com relação a certos candidatos eleitos para o Congresso Nacional. O autoritarismo está em discursos e práticas que podem encontrar espaço até mesmo nas instituições democráticas.
E o mundo tem vivido esse pêndulo em diversos países. Por isso, a mobilização que testemunhamos não pode se limitar ao calendário eleitoral.
A defesa da democracia exige compromisso e vigilância. Além do resultado do pleito eleitoral, almejo que os laços criados entre todos nós que lutamos pela democracia, tanto no âmbito da esquerda quanto no da direita democrática, permaneçam.
Que os laços construídos não sejam desfeitos quando nossa luta envolver a defesa da Constituição de 1988. Que os eleitores estejam sempre prontos e mobilizados para negar as práticas autoritárias daqueles que querem subjugar as minorias.
E que todos nós, quando devidamente convocados a lutar pela democracia, panfletemos juntos mais uma vez, assim como FHC e Lula. Que aquela fotografia não permaneça apenas como um registro do passado, mas como um convite permanente ao futuro.
[1] CARDOSO, Célia Costa. Governo Castelo Branco, contragolpe e Frente Ampla nas memórias de militares e civis (Brasil: 1964-68). Revista Perseu: História, Memória e Política, v.
8, n. 11, p.
11-40, 2014. Disponível em: fpabramo.org.br.
Acesso em: 27 out. 2026.
[2] LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Tradução de Renato Aguiar.
1. ed.
Rio de Janeiro: Zahar, 2018. [3] BERCOVICI, Gilberto.
Introdução. In: BERCOVICI, Gilberto (coord.). Cem anos da Constituição de Weimar (1919-2019).
São Paulo: Quartier Latin, 2019. p.
15-20.
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