Aos 152 anos, Lamas reabre no Rio nesta quarta-feira; conheça a história do restaurante mais antigo da cidade

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Ele viu o Brasil Império, a República, governos e planos econômicos mudarem, fundação de times de futebol, transformações urbanas e sociais da cidade. Aos 152 anos, depois de resistir a um incêndio que consumiu praticamente toda a cozinha, o restaurante Lamas, o mais antigo do Rio, no Flamengo, finalmente reabre as portas, nesta quarta-feira.

Os quatro meses de espera não foram vividos sem saudade do público. Em um intervalo de 30 minutos, na hora do almoço de ontem, pelo menos três grupos chegaram até a porta perguntando se já estava aberto. “Quando abre?”, devolviam depois de ouvir que ainda estavam em reforma. Até ontem, ainda eram feitos os ajustes e intervenções finais no espaço, que está com a parte elétrica, pintura e uma cozinha inteira novinhas, além de um banheiro extra com acessibilidade.

Últimos ajustes. Reparos do restaurante Café Lamas ainda eram finalizados nesta segunda-feira Márcia Foletto/Agência O Globo — A gente também está na expectativa da reabertura. Pensando como vai ser, se vai dar tudo certo, o uso da cozinha nova, que é a alma da casa. Os funcionários estão todos empolgados — conta Claudia Rocha, uma das sócias do Lamas.

Ela contou que o processo demorou por conta da documentação exigida pelo seguro — dois meses só para resolver a papelada; outros dois foram mão na massa dos pedreiros. O foco do incêndio, que aconteceu em junho, foi numa fritadeira da cozinha. Três extintores foram usados para tentar controlar as chamas, mas sem sucesso. Foi preciso ligar para os bombeiros. Ninguém ficou ferido. Lamas Restaurante e Café pega fogo, no Rio Reprodução — Depois que os bares e restaurantes se uniram numa campanha para ajudar o Lamas, as coisas andaram mais rápido. O caso repercutiu — conta ela. O endereço do Flamengo é o segundo da história do lugar. Antes, funcionava em um sobrado no Largo do Machado, onde hoje é a Parmê. Em 1976, já com 102 anos, se mudou para a atual Rua Marquês de Abrantes 18, a 500 metros do velho Lamas, como restou conhecida pelo primeiro logradouro. Segundo Milton Brito, outro sócio do lugar, nada mudou. A chave para resiliência foi seguir a tradição. — A tradição você tem que manter diariamente com produtos de extrema qualidade, fartura e um atendimento bom. Isso é o básico que fez o Lamas ir se perpetuando. O cardápio é o mesmo, não mudamos ele e nem os ingredientes — enfatiza Milton.

Sócios do Lamas, Claudia Rocha e Milton Brito, comemoram a reabertura do restaurante no Flamengo: 'Expectativa', diz ela Márcia Foletto/Agência O Globo Como o menu, os pratos carro-chefe da casa seguem os mesmos há décadas: filé à Oswaldo Aranha, com alho frito por cima, filé à francesa – medalhão de filé mignon coberto com um refogado de cebola, presunto, ervilha e batata-palha – e o parmegiana. Eles custam R$ 180 e serve bem duas pessoas. Há outras opções mais em conta, como os pratos do dia, para uma pessoa, variando de R$ 42 (a linguiça frita à mineira) a R$ 170 (filé mignon à mineira).

Point dos ilustres Além de ilustres pessoas comuns ávidas por comida caseira e boemia carioca, o Lamas recebeu políticos, escritores, artistas, e personalidades de diferentes épocas. Passaram por lá o jurista Rui Barbosa, os escritores Machado de Assis e Monteiro Lobato, Cândido Portinari e até Carmen Miranda. O presidente Getúlio Vargas gostava de cumprir o ritual diário de tomar chá com torradas. Outros chefes de governo também visitaram o espaço foram Itamar Franco e Juscelino Kubitschek.

O presidente da época, Itamar Franco, em visita ao Lamas, onde Getúlio comia torradas e chá, em 1994 Márcia Foletto Tantos anos, encontros e tradição testemunharam fatos históricos que marcam a história da cidade. Foi numa mesa do “Velho Lamas” que nasceu, por exemplo, o Flamengo, em 1895, primeiro como Clube de Regatas.

— Um grupo de remadores brigou com o pessoal do Fluminense aqui na Rua Paissandu e veio pro Lamas tomar chope. Pegaram papel, caneta e começaram a rascunhar o que seria o Flamengo. Até hoje o time tem um xodó pelo Lamas — relembra Milton.

Seu Luiz Carlos Pinto, de 77 anos, há pelo menos 50 presta serviços para o local Márcia Foletto/Agência O Globo Funcionário mais antigo da casa, Luiz Carlos Pinto, de 77 anos, hoje trabalha como assistente administrativo, ou “faz tudo”, como ele prefere classificar. Começou ainda na década de 1970, quando trabalhava num escritório de contabilidade que prestava serviços ao restaurante, quando ainda era o Velho Lamas.

— Eu comecei a fazer alguns bicos para eles nos fins de semana, até me chamarem para trabalhar aqui — relembra Luiz, que disse estar animado com a reinauguração: — Vai ser bom. Já estava discutindo com seu Milton que a obra estava demorada.

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