Ao exigir rendição incondicional, Trump quer transferir responsabilidade pelo fim da guerra ao Irã, dizem analistas
No sétimo dia da guerra lançada por EUA e Israel contra o Irã, que provocou impactos globais, o presidente americano, Donald Trump, condicionou novas negociações com Teerã à “rendição incondicional” do regime e à escolha de “uma liderança aceitável” para Washington. Em meio à pressão da Casa Branca, o dia foi de violentos ataques aéreos contra o Irã e o Líbano, onde os israelenses abriram uma nova frente de combate, e que tem na capital, Beirute, seu alvo principal.
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Na rede social Truth Social, Trump afirmou que “não haverá acordo com o Irã, a não ser com uma RENDIÇÃO INCONDICIONAL”, e que o diálogo também está condicionado "à escolha de um líder GRANDE e ACEITÁVEL”. Na véspera, o republicano disse que pretende participar do processo de escolha do novo comando do Irã, e chegou a vetar o nome de Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, líder supremo que morreu no sábado passado. Segundo autoridades locais, Mojtaba é o favorito para suceder o pai.
Horas depois, a porta-voz da Casa Branca tentou explicar a novilíngua trumpista.
— O que o presidente quer dizer é que, quando ele, como comandante-em-chefe das Forças Armadas dos EUA, determinar que o Irã não representa mais uma ameaça aos Estados Unidos da América e que os objetivos da Operação Fúria Épica foram plenamente alcançados, então o Irã estará essencialmente em uma posição de rendição incondicional, quer eles digam isso ou não — afirmou Karoline Leavitt à imprensa.
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Em junho passado, em meio à guerra de 12 dias entre Irã e Israel, Trump também exigiu a “rendição incondicional” de Teerã, no momento em que ainda considerava se juntar aos israelenses na guerra. O conflito terminou com bombardeios dos EUA contra instalações nucleares iranianas e um acordo que não envolveu uma capitulação. Na época, Khamenei disse que seu país jamais se renderia.
O contexto hoje é diferente. O Irã está sob bombardeios incessantes, que eliminaram a principal face do regime e causaram estragos cuja extensão é difícil de estimar. E Trump não parece preocupado em explicar ao mundo a motivação da guerra ou seus objetivos.
— Ele está transferindo a responsabilidade da continuação da guerra para o Irã. Isso é uma maneira dele falar com o público ocidental, com aliados dos EUA e com o público interno dele. Ou seja, se a guerra continuar não é nossa responsabilidade, porque nós estamos permitindo que a guerra acabe com a rendição incondicional — disse ao GLOBO Filipe Giuseppe Ribeiro, professor da Pós-Graduação de Política e Relações Internacionais da FESPSP. — E se o Irã não aceitar, a guerra tende a se prolongar, e veremos se os EUA realmente têm capacidade de exigir uma rendição condicional.
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Rendições incondicionais são raras na História moderna. Alemanha e Japão a aceitaram em seus acordos de capitulação ao final da Segunda Guerra Mundial. Em 2001, o Talibã ofereceu aos EUA uma rendição incondicional, recusada pelo então presidente George W. Bush. Vinte anos depois, a milícia retomou Cabul e exigiu que as autoridades apoiadas pelo Ocidente entregassem o poder sem condições prévias.
— A rendição incondicional normalmente acontece quando o país é completamente derrotado militarmente, E essa derrota militar completa normalmente pressupõe uma ocupação — disse ao GLOBO Paulo Filho, coronel da reserva do Exército e mestre em Ciências Militares. — Eu ficaria muito surpreso se houvesse uma rendição incondicional do Irã, porque ela pressupõe a mudança de regime. Pressupõe aceitar todas as condições americanas. E sem uma ocupação no terreno, acho muito difícil que isso aconteça.
Na segunda-feira, o governo americano disse que não descartava o envio de tropas ao Irã "se elas forem necessárias".
— O presidente Trump garante que nossos inimigos entendam que iremos tão longe quanto for necessário para promover os interesses americanos — disse o secretário de Defesa, Pete Hegseth. — Mas não é preciso colocar 200 mil pessoas lá e mantê-las por 20 anos.
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A exigência de uma capitulação não foi o único recado de Trump nesta sexta-feira. Em entrevista à rede CNN, ele insistiu que a mudança no comando repetirá a fórmula da Venezuela, onde o presidente Nicolás Maduro foi preso em uma intervenção relâmpago, em janeiro, e os chavistas passaram a seguir as ordens de Washington. Ao ser questionado se desejava ver um Irã democrático, disse que não é sua prioridade.
— Não, estou dizendo que precisa haver um líder que seja justo e imparcial. Que faça um ótimo trabalho. Que trate bem os Estados Unidos e Israel, e que trate bem os outros países do Oriente Médio, todos eles são nossos parceiros — afirmou o americano. — Não ligo se for um líder religioso. Lido com muitos líderes religiosos e eles são fantásticos.
Para Giuseppe Ribeiro, a declaração confirma a "mudança da narrativa geopolítica dos Estados Unidos”.
— Eles estão parando de dizer que levam a democracia, porque obviamente quando olhamos para exemplos passados, você percebe que não foi isso que aconteceu em nenhum lugar que eles interviram. Então isso começou a perder sentido — opina. — Por isso, começaram a usar principalmente uma narrativa civilizatória. A civilização contra a barbárie, o bem contra o mal.
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Nesta sexta-feira, Israel ampliou os ataques aéreos contra Teerã e Beirute, nova frente da guerra aberta após ações do grupo Hezbollah, aliado do Irã. Militares israelenses dizem ter atingido o centro de comando emergencial de guerra dos iranianos e o palácio presidencial. Mísseis destruíram um centro esportivo nos subúrbios da capital, e caíram perto da Praça Azadi, onde fica um dos símbolos do país, uma torre construída pelo xá Reza Pahlevi nos anos 1970. De acordo com o Crescente Vermelho iraniano, 1.330 pessoas morreram desde o início da guerra.
Houve bombardeios em Shiraz, Isfahã, Qom e Kermanshah, no norte do Irã, uma área que pode se tornar um dos pontos centrais da guerra. De acordo com a agência Reuters, israelenses e americanos incrementaram a ofensiva na área para facilitar uma incursão de milícias curdas iranianas baseadas no Iraque. Washington está em contato com esses grupos armados, mas autoridades curdas iraquianas, cujo apoio é crucial para um ataque terrestre, estão reticentes.
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Em Beirute, onde centenas de milhares de pessoas receberam ordens israelenses para sair de casa, Israel afirmou ter atingido centros de comando do Hezbollah. Houve registro de ataques no leste libanês, onde residências foram destruídas. De acordo com o Ministério da Saúde, mais de 200 pessoas morreram desde o início da ofensiva, que combina ataques aéreos a uma invasão terrestre.
Os mísseis iranianos continuaram a cair em Tel Aviv e na região central do país, mas sem relatos de danos ou vítimas. No Golfo, Arábia Saudita, Catar e Kuwait relataram ataques, e o governo catari classificou como “ato flagrante de agressão” o bombardeio contra uma instalação que abriga militares de sua Marinha no Bahrein. A base de al-Udeid, no Catar e usada por forças americanas, foi alvejada, mas sem causar vítimas.
Base de al-Udeid, no Catar, após ataque iraniano
MAHMUD HAMS / AFP
Na Casa Branca, Leavitt deu um novo prazo para a guerra, “entre quatro a seis semanas”, similar ao apresentado por Trump anteriormente. Mas deixou evidente uma preocupação do governo: o risco de ver os estoques de munições, mísseis e sistemas de defesa aérea caírem a níveis perigosos caso o conflito se estenda por mais tempo. Na sexta, Trump se reuniu com representantes do complexo industrial-militar dos EUA e pediu que aumentem suas produções.
“As Forças Armadas dos EUA têm munições, armamentos e estoques de armas mais do que suficientes para continuar demolindo o regime iraniano e alcançar os objetivos da Operação Fúria Épica”, disse Leavitt em comunicado. “No entanto, o presidente Trump sempre esteve intensamente focado em fortalecer nossas Forças Armadas, e é por isso que esta reunião com empresas de defesa foi agendada semanas atrás.”
