Anunciada por Trump, suspensão de programa nuclear é negada por Teerã; entenda sua importância existencial para o regime

 

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No mesmo dia em que anunciou a reabertura do Estreito de Ormuz, ainda longe da liberdade de navegação vista antes do início da guerra, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que um acordo com o Irã está muito perto, e que Teerã concordou com todas suas demandas sobre o programa nuclear. Termos amplos, ousados e que, caso implementados, seriam uma derrota colossal e existencial para a República Islâmica.

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Em entrevista à rede News Nation, o presidente disse que os iranianos “concordaram com tudo”, se referindo ao enriquecimento de urânio, e que não estava surpreso com a concessão. Ele repetiu a alegação à agência Bloomberg, acrescentando que a suspensão das atividades nucleares seria por prazo indeterminado. Esse é um dos objetivos apresentados por ele e seus aliados para a guerra.

No Truth Social, sua rede social que também serve como Diário Oficial, disse que iria “recuperar a poeira nuclear”, uma referência confusa aos 440 kg de urânio enriquecido a graus mais elevados, como 60%, em instalações iranianas. À agência Reuters, afirmou que a retirada ocorreria “em parceria com o Irã”, e que o material seria levado aos EUA. Para completar a “volta olímpica”, garantiu que não haverá qualquer tipo de contrapartida aos iranianos, negando uma informação divulgada nesta sexta-feira pelo portal Axios sobre um pagamento de US$ 20 bilhões para facilitar um consenso.

“ESSE É UM DIA GRANDIOSO E BRILHANTE PARA O MUNDO!”, bradou no Truth Social, acrescentando que novas conversas podem acontecer “em um ou dois dias” no Paquistão, país que atua como mediador.

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Pouco depois da maratona midiática trumpista, representantes de Teerã disse que não era bem assim. À agência Reuters, um membro do governo disse que “nenhum acordo foi obtido quanto aos detalhes de questões nucleares”. Ao mesmo tempo, expressou otimismo quanto a um acerto preliminar, de forma a "criar espaço para mais negociações sobre o levantamento das sanções contra o Irã e a garantia de indenização por danos de guerra".

— Em troca, o Irã fornecerá garantias à comunidade internacional sobre a natureza pacífica de seu programa nuclear — declarou o representante iraniano à Reuters. — [Qualquer outra] narrativa sobre as negociações em curso é uma deturpação da situação.

Esmail Baghaei, porta-voz da Chancelaria iraniana, negou a transferência do urânio enriquecido.

— Transferir urânio para os Estados Unidos não é uma opção. Assim como o solo iraniano é sagrado, o urânio enriquecido também o é — disse à agência Tasnim.

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No livro que define seu ethos empresarial e político, “A Arte da Negociação”, de 1987, Trump diz que "almeja muito alto e continua insistindo, insistindo e insistindo até conseguir o que quer". Ele já aplicou essa norma em seus dois mandatos,com alguns sucessos , mas ao anunciar a total submissão iraniana pode ter dado um passo ousado demais.

Desde o começo do século, quando surgiram evidências sobre planos para uma possível militarização do programa nuclear iraniano — que antecede a República Islâmica —, Teerã jamais cogitou abrir mão de seu direito a atividades atômicas. Uma fatwa (decreto religioso) emitida pelo antigo líder supremo, Ali Khamenei, vetava o uso e desenvolvimento de armas de destruição em massa. Mesmo quando o Irã se sentou à mesa e aceitou controles externos, como no acordo de 2015, o desmantelamento de centrífugas, reatores e instalações análogas nunca esteve em pauta.

— Na minha opinião, o programa nuclear do Irã é um meio para um fim: o país quer ser reconhecido como uma potência regional, acredita que o conhecimento nuclear traz prestígio e poder — disse, em 2003, o então chefe da Agência Internacional de Energia Atômica Mohamed el-Baradei.

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Dez anos depois, Hassan Rouhani, presidente que firmou o acordo de 2015, rasgado por Trump, escreveu no jornal Washington Post que o domínio do ciclo nuclear significava a diversificação “de nossos recursos energéticos” e a definição “de quem somos como nação iraniana”. Em 2022, Ebrahim Raisi, sucessor de Rouhani, disse que não recuaria “nem um iota nos direitos nucleares do povo iraniano”, ao mesmo tempo em que acelerava o enriquecimento de urânio. Em comum, os dois — assim como o establishment político — garantiam que o país não busca uma arma nuclear.

— O líder religioso de uma sociedade não pode mentir — disse o atual presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, se referindo à fatwa de Khamenei, dois dias antes do início da guerra. — Quando ele anuncia que não teremos armas nucleares, significa que não as teremos. Mesmo que eu quisesse, não posso, por causa das minhas crenças.

Antes da guerra, protestos ligados às condições de vida da população evoluíram para atos contra a República Islâmica, e a repressão deixou dezenas de milhares de mortos. No final de fevereiro, a ofensiva de americanos e israelenses impôs duros golpes às Forças Armadas e causou estragos bilionários à infraestrutura e à economia. A transição na cúpula do poder, motivada pelas mortes de lideranças como Ali Khamenei, tampouco afastou o ódio de boa parte dos iranianos ao sistema moldado pela Revolução Islâmica de 1979.

Neste cenário, abrir mão do programa nuclear, atendendo a todas as demandas de Trump, soaria como uma derrota existencial para o regime, colocando ganhos estratégicos, como o fechamento do Estreito de Ormuz, em xeque, e fortalecendo uma percepção de fragilidade. Afinal, como explicar que, quase cinco décadas depois da queda da monarquia pró-Ocidente, o "Grande Satã" venceu?

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No passado, muitas das alegações de Trump não se confirmaram. Seus recuos, ironizados na sigla Taco (algo como “Trump sempre amarela”) se acumularam na atual guerra, como na ameaça que fez contra toda a civilização iraniana, na semana passada. Pelas declarações de diplomatas envolvidos nas negociações, um acordo final mencionará o programa nuclear iraniano, mas em termos menos maximalistas do que desejam a Casa Branca, Israel ou o lobby anti-Irã em Washington. Um potencial desfecho já previsto na “Arte da Negociação” do republicano.

“Às vezes, me contento com menos do que buscava, mas, na maioria dos casos, acabo conseguindo o que quero.”