Pedro Bial: à frente de Curry e diante de Kobe, Oscar nunca entrou para brincar

 

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A primeira vez que vi Oscar, ele estava do outro lado da quadra, era o adversário. O mais indesejado adversário, dois metros e cinco de altura e cinco metros de ferocidade, caprichava na cara feia. Oscar, na seleção paulista, eu, na carioca. Tínhamos 18 anos, ele ainda era pivô. À época, 1976, os jogadores da altura dele eram mondrongos — com a exceção do brilhante Marquinhos Abdalla Leite —, serviam como postes, para rebotes e jogadas no garrafão. Só oito anos depois, a regra da cesta de três pontos, detrás da linha de seis metros e 75 centímetros, seria adotada pela Fiba. Oscar vinha se preparando aquele tempo todo.

Dizer que estava se preparando é eufemismo. Oscar Schmidt era um obsessivo, ele não repetia dezenas de vezes o treino de arremessos de longa distância. Não, não, nem centenas. Chutava as bolas aos milhares. Visualizem: uma quadra vazia, já é noite, o eco da bola quicando é a única companhia daquele gigante solitário, arremessando, buscando a bola de volta, arremessando de novo, buscando a bola, e de novo, e de novo, numa espiral sem cronômetro nem testemunha. Ele disse e é verdade: "Não existe mão santa, existe mão treinada". Força de vontade tamanha, dedicação extremada, desenvolveu uma agilidade rara para homens de tal estatura.

Mais que preparado, Oscar estava pronto quando a regra dos três pontos passou a valer, em 1984. Despreparados estavam os americanos, que levaram uma surra brasileira na final do Pan de 1987 — jogo a que assisti aos prantos. Genial, o técnico Ary Vidal tinha compreendido o novo recurso que tinha em quadra. Os americanos, não. Mesmo quando o Brasil abriu no placar, os adversários seguiam crentes de que iriam virar na hora que quisessem, nos contra-ataques. Ficaram na poeira. Para cada dois pontos que recuperavam, iam lá Oscar e Marcel! e marcavam mais três — a matemática jogava com a gente.

Oscar foi tão veloz que chegou ao futuro antes do basquete mundial. Stephen Curry só o alcançou agora há pouco.

Fenômeno da linha dos três Stephen Curry trilhou caminho de Oscar em arremessos de longe

Alex Bierens de Haan / Getty Images via AFP

Tive a alegria de encontrar Oscar em mais de um evento esportivo. Pudemos conviver de forma mais próxima, no dia a dia da Olimpíada de Pequim-2008, que ele comentou na Globo. E eu vi uma das maiores estrelas daqueles jogos tremer ao encontrar Oscar. Astro na China, era menino na Itália, quando o pai dele, Joe Bryant, jogou na mesma liga em que Oscar atuava. Kobe nunca esqueceu o jogo de Oscar, foi seu modelo para os arremessos de longe. Repórter, propus que batessem uma bolinha, Kobe e Oscar, para minha matéria. Kobe topou, Oscar, não. E explicou: nunca mais tinha entrado em quadra. Do basquete, só guardava as glórias e sequelas — não conseguia assistir a um longa-metragem sem sentir dores.

E bater bolinha? Nem pensar, ele nunca entrou para brincar.

Encontro do Oscar com Kobe Bryant

Eliária Andrade / Agência o Globo