Antonio Lavareda: modelos preditivos e cinco prognósticos eleitorais

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A expansão de plataformas como Polymarket e Kalshi exige um alerta. Grupos políticos ou econômicos podem realizar apostas coordenadas para alterar artificialmente as cotações e produzir a impressão de que determinado candidato avança ou se tornou favorito.

Como esses preços são reproduzidos pela imprensa e circulam nas redes sociais como probabilidades objetivas, a manipulação pode converter-se em instrumento de influência sobre eleitores, doadores, partidos e investidores. Essas plataformas transformam apostas em “probabilidades” continuamente atualizadas, mas não devem ser confundidas com modelos científicos de previsão.

Seus participantes não constituem amostras representativas, e as cotações podem refletir baixa liquidez, grandes apostadores, movimentos especulativos ou informações privilegiadas. A previsão eleitoral é uma das áreas relativamente novas e mais desafiadoras da Ciência Política.

Pesquisas de intenção de voto fotografam as preferências no momento em que são realizadas; modelos preditivos procuram antecipar o resultado a partir de relações sistemáticas entre condições econômicas, políticas e comportamento eleitoral. E é saudável que os analistas revisitem publicamente suas hipóteses e previsões passadas as eleições.

A premissa central é que as eleições não começam com a campanha oficial. O voto é um composto afetivo-cognitivo de avaliação prospectiva-retrospectiva.

Parte do resultado já está condicionado pela economia, pela popularidade e pelo desgaste do governo, pela candidatura à reeleição, pela força dos partidos e pelos sentimentos de satisfação ou insatisfação. Essa avaliação não é apenas econômica.

Popularidade presidencial, acontecimentos políticos, competência percebida e comparação entre candidatos são fundamentais. Além dos modelos quantitativos, há modelagens qualitativas como o das “13 Chaves”, de Allan Lichtman e Vladimir Keilis-Borok, um modelo estrutural e determinístico de classificação binária, fundamentado no reconhecimento de padrões históricos e orientado para prever a manutenção ou a derrota do partido incumbente.

Como assinala Lewis-Beck, um bom modelo deve apoiar-se numa teoria clara do comportamento eleitoral, utilizar informações disponíveis antes da eleição, empregar variáveis confiáveis, produzir resultados verificáveis e preservar a parcimônia. Um modelo não se torna necessariamente melhor por conter muitas variáveis.

A parcimônia é especialmente importante quando há poucas eleições disponíveis. Cada variável acrescentada consome informação estatística e aumenta o risco de reproduzir peculiaridades históricas em vez de associações duradouras.

Existe, portanto, uma tensão inevitável entre antecedência e precisão. Prognósticos formulados muitos meses antes são mais valiosos como previsão, mas carregam maior incerteza.

Estimativas feitas perto da votação tendem a ser mais precisas, porém antecipam menos. O exercício informativo é aquele que identifica tendências com antecedência suficiente e explicita a margem de incerteza.

Por isso, projeções devem ser apresentadas como probabilidades, não como certezas. Atribuir 65% de chance de vitória a um candidato significa que, sob condições semelhantes e segundo os parâmetros do modelo, ele venceria aproximadamente 65 em cada 100 situações comparáveis.

A derrota do favorito não invalida automaticamente a previsão: um resultado estimado em 35% está longe de ser impossível. O que é diferente das projeções assentadas no “likely voter” que designam os percentuais dos candidatos na véspera da votação, dentro das margens de erro.

Quando essas são ultrapassadas, como ocorreu com as anunciadas na véspera do 1º e do 2º turno da eleição presidencial brasileira, efetivamente se pode dizer que as previsões falharam em ambos os momentos. Os modelos estruturais concentram-se nos fundamentos anteriores à campanha: crescimento do PIB, inflação, desemprego, renda, aprovação do presidente, tempo do partido no poder e presença de um incumbente.

Permitem prognósticos com antecedência relativamente grande, embora captem de modo imperfeito crises, escândalos, erros estratégicos e choques externos. Os modelos conjunturais atribuem maior peso às informações próximas da eleição, como intenção de voto, rejeição, tendências de crescimento ou declínio, desempenho na campanha e transferências de votos.

Sua precisão tende a aumentar à medida que a votação se aproxima, mas seu valor antecipatório diminui. Nas últimas semanas, a previsão corre o risco de se tornar apenas uma leitura mais sofisticada das pesquisas.

Os modelos híbridos combinam fundamentos econômicos e políticos com a posição dos candidatos nas pesquisas e a dinâmica da disputa. Procuram aproveitar a antecedência dos modelos estruturais sem ignorar a campanha.

Em eleições presidenciais, oferecem uma perspectiva abrangente, pois reconhecem que o resultado decorre tanto das condições herdadas quanto da atuação dos candidatos. Qual dos três modelos se mostrou mais efetivo na eleição presidencial brasileira deste ano? Aspectos institucionais podem ajudar a prever dinâmicas de campanhas? Para responder essas questões trago aqui uma experiência concreta: o balanço de cinco prognósticos que publiquei em artigos na Folha de S.

Paulo cerca de um ano antes da eleição. 1.

“Três nomes alcançarão dois dígitos” Não se confirmou.

Aumentando a base eu me apoiara na constatação de que, nas treze eleições diretas após a Segunda Guerra, em 77% dos casos pelo menos três candidatos haviam obtido esse desempenho. E mesmo antes da formalização das candidaturas antecipei que a direita não competiria unificada, o que de fato ocorreu.

Augusto Cury chegou a pontuar 11% numa pesquisa Nexus-BTG do dia 31 de agosto, o que muito provavelmente impulsionaria seus percentuais, não fora no mesmo dia o noticiário ser praticamente sequestrado pela denúncia do ministro André Mendonça sobre as conversas entre Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes.

A partir dali, Cury recuou a cada pesquisa, com a disputa se bipolarizando irremediavelmente. 2.

“Chance reduzida de vitória em turno único” Confirmado.

Alguns pesquisadores insistiram até a véspera do primeiro turno na “grande possibilidade” de a eleição acabar naquele domingo. Mas na mesma série estendida eu detectara que em apenas 23% delas dois presidentes tinham ultrapassado a metade dos votos válidos: Eurico Dutra (recordista com 55%) e Fernando Henrique Cardoso nas duas vezes em que foi candidato (com 54% e 53%, respectivamente).

Sendo que conhecia bem as circunstâncias históricas pelas quais isso ocorreu na primeira eleição do pós-guerra e acompanhara de perto em ambas campanhas de FHC como isso fora possível. Num país continental e heterogêneo, mesmo Lula só tinha chegado perto dessa marca em 2006 e 2022.

3. “Quem ganhar no 1º turno terá cerca de 47% dos votos válidos”

Confirmado. Flávio Bolsonaro teve 47,03%.

Um exercício de mero frequentismo. Essa era a média histórica.

E cinco das seis eleições que havíamos tido neste século confirmavam o padrão com resultados bem próximos: Lula, 2022, 48,43%; Bolsonaro, 2018, 46,03%; Dilma, 2010, 46,90%; Lula, 2006, 48,61%; e Lula, 2002, 46,44%. 4.

“A eleição não será sobre segurança” Confirmado.

Esse prognóstico era de natureza qualitativa e causal baseado na análise institucional. Na última pesquisa Ipespe/ Abrapel, divulgada 48 horas antes da eleição, o tema era mencionado numa relação de treze itens por 6% do total da amostra como “o mais considerado na escolha do voto”.

Em quinta colocação. Mesmo entre eleitores de Flávio comparecia com apenas 10%, em terceira colocação.

Essa talvez tenha sido a previsão mais contraintuitiva e arriscada. Desde o início de 2025, pesquisas da Quaest identificavam a ascensão da segurança/violência ao primeiro lugar das preocupações dos brasileiros.

Verdade que isso não aparecia em todos os institutos, mas a partir de abril daquele ano a maior parte da mídia passou a repetir que esse seria o tema potencialmente decisivo da eleição do ano seguinte. Em novembro de 2025, quando escrevi o artigo com a previsão, essa interpretação era onipresente.

Tecnicamente, porém, a pesquisa perguntava pelo “maior problema/preocupação” dos brasileiros. Dizer que esse deveria ser o tema central da eleição foi uma interpretação de pesquisadores e analistas.

Não era uma resposta direta dos entrevistados. Meu raciocínio em direção oposta foi respaldado por duas convicções.

A primeira delas, um olhar institucionalista, recomendava atentar para nosso modelo estrutural federativo. Ao contrário de quase todos os outros países latino-americanos que dispõem de forças policiais nacionais, o Brasil, até a aprovação da PEC da segurança, por disposição constitucional fragmentava sua atuação nessa área entre 27 corporações estaduais.

O que inevitavelmente dilui a percepção de responsabilidade e reconfigura o seu peso no processo eleitoral. A segunda é proveniente da experiência de ter comandado várias eleições para governos estaduais nas quais aprendi o quanto esse tema frequentemente assumia centralidade nas campanhas, desviando o foco da nacionalização da pauta.

Ou seja, eu pude concluir que a segurança, embora relevante, seria insuficiente para organizar e decidir a disputa presidencial. 5.

“72% de chance de reeleição” Confirmado.

Essa projeção foi fruto de um modelo parcimonioso, que extraiu das eleições anteriores um punhado de variáveis políticas — desempenho do partido no poder, aprovação do governo, liderança nas pesquisas, rejeição do vitorioso — e de variáveis econômicas, como PIB, desemprego, inflação, Selic, juros reais e expectativa sobre a economia.

Nas duas dimensões foram incluídos como se vê dados estruturais e dados conjunturais. E utilizadas projeções do mercado para o ano da eleição.

Os sinais macroeconômicos como dito no texto eram relativamente benignos e com base numa regressão logística bayesiana, muito sensível à curta série histórica, chegamos no modelo híbrido à projeção anunciada (72%). O quadro econômico e eventos políticos disruptivos seriam capazes de alterá-la, como de fato ocorreu, com os escândalos posteriores do Master e do STF tomando o palco no primeiro turno da eleição e virando a favorabilidade para o oponente.

Viriam as três semanas da campanha no segundo turno. E, numa atualização que só rodamos depois da eleição adicionando os dados da última pesquisa Quaest — que trouxe Flávio com apenas um ponto à frente, bem abaixo da vantagem inicial, a aprovação do governo finalmente suplantando a desaprovação por dois pontos, e o desafiante com rejeição três pontos maior que o presidente —, o saldo era novamente positivo para Lula.

A projeção estrutural era de 56% de chance, a conjuntural era um “toss up” (51%), e o modelo híbrido o apontava como ligeiro favorito, aproximando-se de 54% de chance numa disputa aberta. Os fatores macroeconômicos, decisivos para a previsão publicada um ano antes, continuavam a oferecer o suporte sobre o qual o incumbente conseguiu articular uma inédita mobilização dos eleitores e assegurar a vitória.

Por fim, examinando-se retrospectivamente nossa reduzida série histórica de dez eleições presidenciais e adotando-se como “acerto” a indicação de probabilidade superior a 50% para o ocorrido, os nossos modelos estrutural e conjuntural/pesquisa se mostram exitosos cada um em nove delas.

Ao passo que o modelo híbrido logrou acertar a previsão em todas. *Antonio Lavareda é cientista político e sociólogo.

Ipespe/UFPE/IDP. Presidente de honra da Abrapel

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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