Antissemitismo no Brasil cresce 150% em meio a conflitos internacionais, aponta levantamento
O número de casos de antissemitismo no Brasil aumentou 150% desde 2022 e se mantém em um patamar elevado, apontado como um “novo normal” por pesquisadores da Confederação Israelita do Brasil (Conib) em relatório divulgado na tarde desta segunda-feira. Ao todo, foram registradas cerca de mil ocorrências (989) em 2025. De acordo com os números, apesar da queda em relação ao pico de 2024, o cenário permanece crítico na série histórica. Os dados de percepção da sociedade ajudam a dimensionar o cenário: três em cada dez brasileiros dizem não se sentir totalmente à vontade para ter um amigo judeu.
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O levantamento mostra ainda um avanço não apenas quantitativo, mas também qualitativo, com aumento no tom e na intensidade das agressões no contexto de conflitos internacionais envolvendo Israel e os Estados Unidos (Faixa de Gaza, Irã e Líbano). A maior parte dos episódios ocorre no ambiente digital, que concentra 80% dos registros, de acordo com o relatório. Apenas nas redes sociais, foram identificados 115.970 conteúdos antissemitas ao longo de 2025, com alcance potencial estimado pelo Conib em 66 milhões de pessoas.
Dentro da comunidade judaica, os efeitos do antissemitismo são percebidos no cotidiano
Reprodução / TV TEM
Dentro da comunidade judaica, os efeitos são percebidos no cotidiano, aponta o levantamento realizado com 1.427 brasileiros. Entre outros dados, a pesquisa indica que 86% dos entrevistados consideram o antissemitismo um problema real no país, enquanto 22% afirmam já ter deixado de se identificar como judeus em alguma situação.
— As pessoas passam a ter medo de usar os seus símbolos religiosos e identitários, por medo de serem agredidas, por medo de serem destratadas, por medo de sofrerem algum tipo de violência, tanto simbólica no sentido verbal, quanto em sentido físico mesmo — explica a coordenadora de enfrentamento ao Antissemistismo da Conib, Anelise Fróes.
Anelise defende que não trata-se de vergonha, mas de um receio da comunidade judaica em sofrer ataques por usarem elementos “muito básicos”, como Kippah (solidéu usado na cabeça), mezuzá na porta (rolo de pergaminho) ou uma simples “correntinha no pescoço com uma estrela de Davi”.
‘Responsabilização coletiva’
O contexto do conflito entre Israel e Palestina em outubro de 2023, bem como o mais recente envolvendo o Irã são, segundo os pesquisadores, relevantes para a compreensão do atual cenário de antissemitismo no país.
— A relação com o sionismo ou com o não gostar ou não aceitar que Israel tenha direito à sua existência, são discussões muito densas, muito importantes e que acabam recaindo, sim, numa responsabilização coletiva de todos os judeus do mundo por ações do seu governo — defende a coordenadora, que conclui:
— Nenhum povo do mundo pode responder pelas ações dos seus governantes. As pessoas que moram em São Paulo, em Porto Alegre, os judeus e judias de Belo Horizonte, não podem ser responsabilizados, culpabilizados e cobrados por ações de um governo.
Segundo o diretor responsável pelo núcleo de enfrentamento ao antissemistismo da Conib, Rony Vainzof, o relatório anual da entidade considera a definição de antissemitismo da Aliança Internacional de Memória do Holocaustro (IHRA, na sigla em inglês), que define quais atos seriam consederados antissemitismo. Assim, de acordo com o diretor, é possível “separar o que seria liberdade de expressão e o que seria antissemitismo”.
Rony Vainzof na apresentação dos dados da Conib em São Paulo
Divulgação / Paula Conh Mor
Conteúdo antissemita
A presença do discurso de ódio nas redes sociais se tornou recorrente: metade dos entrevistados (50%) afirma se deparar com conteúdo antissemita diariamente ou quase todos os dias. Ao mesmo tempo, cresce a migração desse tipo de conteúdo para plataformas com menor moderação, como fóruns e aplicativos de mensagens. Em julho do ano passado, segundo a Conib, uma facção neonazista recrutou jovens pelo aplicativo Discord com o objetivo de atacar Sinagogas.
Metade dos entrevistados afirma se deparar com conteúdo antissemita diariamente ou quase todos os dias
Divulgação / CONIB
— Não podemos tratar a internet como terra de ninguém. É preciso que haja regulação e que haja algum tipo de controle efetivo dos discursos de ódio, do incitamento ao ódio, seja ele ódio racista contra pessoas negras, seja o antissemitismo contra judeus e judias no Brasil e em qualquer lugar — explica Anelise.
Para Vainzof, a atual polarização e a desinformação são apontadas como responsáveis pelo aumento dos discursos de ódio, que “de uma forma geral, se tornam virais”. O diretor da Conib ressaltou também o papel das redes sociais em acompanhar a evolução do antissemitismo:
— Acho que é um trabalho muito mais profundo em termos de transparência algorítmica e de cada vez mais as plataformas conseguirem declarar de forma transparente o quanto que elas estão combatendo a viralização do discurso de ódio. As plataformas não querem um ambiente hostil. Mas ao mesmo tempo, são esses conteúdos que mais viralizam — conclui Vainzof.
O ambiente educacional aparece como um dos principais focos de preocupação para 75% dos entrevistados. Instituições de ensino (escolas e universidades) foram apontadas como o espaço mais citado de manifestações antissemitas no relatório, com manifestações que vão de ofensas entre alunos a declarações de professores.
No mercado de trabalho, o problema também se manifesta. Entre profissionais judeus, um em cada quatro (25%) afirma já ter sofrido discriminação direta, enquanto mais da metade relata ter ouvido piadas ou comentários ofensivos no ambiente corporativo. Apesar disso, apenas uma parcela reduzida das empresas pesquisadas pela Conib possui políticas explícitas de combate ao preconceito.
Sobre a afirmação de que Israel trata os palestinos como os nazistas trataram os judeus, 42% dos entrevistados acham a crítica legítima, índice chega a 95% entre pessoas que se identificam com o espectro político à esquerda, de acordo com dados da StandWithUs em pesquisa realizada em fevereiro de 2026.
* Estagiário sob supervisão de Daniel Biasetto.
