Voz suave, pausas para respirar e escuta atenta (às perguntas e ao fluxo de consciência que gera respostas) mostram uma Anitta bem diferente das que entrevistei em 2016, 2017, 2018, 2022 e 2023. A agenda segue frenética — temos exatos 34 minutos de conversa no deslocamento da cantora até o estúdio onde gravará um comercial ainda mantido em segredo —, mas a regência é outra: calma, serena. “Equilibrivm” puro, como o álbum da turnê que terminou sábado passado, em Salvador, depois de hipnotizar Porto Alegre, São Paulo, Fortaleza e Niterói. “Aprendi a respirar e a desacelerar para não adoecer”, diz Anitta. “Não dá para viver com bengalas como bebida e remédios”, emenda a cantora de 33 anos, em sintonia com o prefácio que assina em “Musculatura da alma”, livro da terapeuta integrativa Max Tovar, sua guru na busca por propósito, saúde mental e conexão com o que faz bem. Na jornada de autoconhecimento da artista, não seria exagero dizer que a malandra de Honório Gurgel “saiu do armário” do candomblé, fez da fé um manifesto musical contra a intolerância religiosa e mostrou que facetas opostas de Anitta e Larissa (seu nome de batismo) podem conviver em harmonia, tal qual o sagrado e o profano, a paz e o agito.Nas últimas semanas, além de rodar o país e os principais programas de TV com “Equilibrivm II”, vestiu a skin de head de criatividade de uma marca de cerveja, experimentou uma “constelação familiar com cavalos” e selou o carnaval 2027 com a Grande Rio, escola de Duque de Caxias que este fim de semana anuncia a cantora como rainha de bateria. No posto mais cobiçado da agremiação — depois de Virgínia e Paolla Oliveira —, Anitta diz não temer comparações. “Se todo mundo gostar, a gente vai continuando. Se não, agradeço com amor, carinho e passo o bastão.” Melhor do que a coroação, só mesmo ser a primeira rainha da história a assinar o samba do próprio desfile. “O enredo parece feito sob medida para o álbum”, diz a autora de um dos sambas da disputa, cuja final está marcada para o dia 20 de setembro. A seguir, os melhores trechos da entrevista. Por que estrear na Grande Rio como rainha de bateria e não na mocidade, onde já desfilou? Levo esse cargo com muito respeito. Carnaval, para muita gente, é auê. Pra mim, simboliza a vida de muitas pessoas. Fui convidada pela Mocidade e por outras escolas, mas temos que olhar o que a comunidade quer. O enredo não tinha tanto a ver comigo e é uma escola mais tradicional. O convite para a Grande Rio veio pelo David Brazil, um grande amigo, com quem passo o Natal, e o samba falará de fé e ancestralidade. É um resgate da nossa cultura que parece feito sob medida para o meu álbum. A escola também está acostumada com celebridades e respeita nossa agenda. Espero que a comunidade se sinta representada. É verdade que você participará da disputa do samba-enredo deles, como compositora? Sim, eu compus um samba. Já tinha feito isso uma vez há uns dois anos, com o mesmo time, para a Unidos da Tijuca. E deu supercerto: fomos escolhidos, e levamos o Estandarte de Ouro. Seria incrível ser rainha de bateria com o meu samba, mas temos que ver o que vai se desenvolver melhor ao vivo. Não tenho apego (risos). Biquíni Pedro Lourenço, headpiece Veno, luvas Atelier Isarel Valentin, vestido Eduardo Caires e sapatos Kwiui Calçados André Nicolau Como é suceder a Paolla Oliveira e a Virgínia? comparações a incomodam? Paolla é minha amiga e está superfeliz. Obviamente, perguntei se haviam convidado ela antes, porque esse lugar é dela. É uma rainha espetacular! Ela me deu dicas e falou que estava à disposição, caso eu precisasse. Mas não acredito nessa coisa de substituição. As pessoas falam porque dá bafafá. Se existisse energia de briga, eu não faria parte. Como será conciliar a agenda com a escola e os Ensaios da Anitta? Estou preparadíssima, o carnaval é minha época favorita do ano! Já conversamos a respeito dos calendários, está tudo certo. Estou ansiosa para rodar o Brasil com meus Ensaios (o primeiro é dia 9 de janeiro, em Belém, e o último, dia 31, em São Paulo) e defender a Grande Rio na Avenida será inesquecível. Você sempre foi estrategista, com um propósito claro para cada trabalho. Imaginou que “EquilibriVm” faria todo esse barulho? Sim, porque era um desejo. Outro dia vi um vídeo dizendo que minha carreira é um ato político em diversos aspectos. E ela é, não em termos de “votar em fulano ou beltrano”, mas no sentido de movimentar o comportamento da sociedade. Ter orgulho da própria fé e da favela, lutar contra o preconceito, a intolerância, o machismo e a misoginia. Minha meta era tocar o coração das pessoas, fazer uma revolução. Fiquei realizada ao ver que entenderam a mensagem. Isso é bastante significativo e me emociona. Esse trabalho nasceu em um momento em que estava fisicamente esgotada. quando percebeu que não queria mais viver assim? A gente normaliza coisas. Tomar remédios, uma cervejinha para “desproblematizar”. Claro que eu bebo, tomo um remédio de vez em quando, mas é esporádico e não uma bengala. Usava muitas bengalas no meu dia a dia, não era normal. Também estava mal de saúde, e percebi que precisava respirar, desacelerar. Só que o corpo não vai desacelerar nunca se a mente não fizer isso primeiro. Headpiece Walério Araújo, top Rolling, hotpants Joulik, pulseiras Yar e óculos Kozze André Nicolau Sua relação com a terapeuta Max Tovar ajudou? Foi na mesma época em que fez o santo? Não. Fiz o santo (processo de iniciação espiritual nas religiões de matriz afro-brasileira) há sete anos, e minha relação com a Max tem pouco mais de quatro. São práticas com lugares e propósitos diferentes. A Max e a equipe dela fazem trabalhos de terapias intensivas, para que você mesma as coloque em prática, exercite a busca do que te faz bem. Hoje consigo me analisar, buscar meu caminho, ser minha própria guru. Estamos às vésperas das eleições. É importante que uma artista do seu tamanho se posicione politicamente? A gente tem que observar a sociedade, o comportamento. E se posicionar de acordo com isso. Me apedrejaram (em 2022) por não falar nada, mas eu estava recolhida, fazendo o santo. Esse ano, meu posicionamento é: informe-se, estude, leia sobre a História do Brasil, pesquise e vote com suas próprias ideias. Acho equivocado ficar falando (sobre o voto). Não é secreto? Antes, em outros momentos políticos, isso se fez necessário. Agora, minha posição política está muito clara para todo mundo. Você costuma dizer que o macumbeiro precisa “sair do armário”. Sofreu para se assumir? Nunca tive medo de me posicionar e vi as consequências: os seguidores que perdi, o ódio que veio. Mas também tenho muita fé e algo futurista na forma de pensar. Há coisas que falo para meus amigos, minha equipe, e que acontecem anos depois. Sinto como se tivesse vivido no futuro. Como imagina a Anitta de 50 anos? Espero estar bem mais desapegada com a aparência, com as plásticas. Nós, mulheres, fomos treinadas a nos preocuparmos com isso. Profissionalmente, quero estar onde me deixe feliz, tranquila, sem pressão. Muita gente perguntou: “Por que inventou isso agora, de ser rainha de bateria?”. Mas minha família me via, desde criança, imitando a Luma de Oliveira, a Luiza Brunet. Sempre quis isso, era um sonho. Onde termina a Anitta e começa a Larissa? Graças a muito trabalho interno, consegui unificar esses dois lados. Não tenho mais essa separação que me prejudicava tanto e me deixava louca, era horrível. Uma depende da outra, uma criou a outra. Sou uma pessoa só. Ao lado do mestre de bateria Fafá, Anita usa biquíni Teswim, vestido IKI Beads, headpiece Delfim Atelier e sandálias Vi Ferraço André Nicolau Vi que as duas estiveram recentemente no interior do rio fazendo uma dinâmica de constelação familiar com cavalos. Como é isso? É maravilhoso. Não indico para todo mundo porque traz questões (familiares) profundas. Para mim, funciona, dá muito certo (o contato com os bichos), mas é preciso conversar com quem concorda e com quem não, antes de tomar essa decisão. E o ator Danilo Mesquita, é namoro ou amizade? Escolho não responder a essa pergunta, porque tenho projetos importantes para falar. Quando estiver com menos coisas, eu falo. Chama a atenção, né? A gente se mantém na crista.
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Anitta revela bastidores do convite para ser rainha de bateria da Grande Rio e avisa: 'Se gostarem, continuo. Se não, agradeço e passo o bastão'
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O Globo
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