Protestos e desequilíbrio fiscal desgastam Macron e animam oposição na França Antoine Martin/Bloomberg A política no Ocidente foi capturada pela polarização. O centro está encolhendo, quando não sumindo, na maioria dos países. Os extremos pouco se toleram, pouco se falam, pouco colaboram. Isso produz efeitos deletérios, sociais e econômicos, ao reduzir a confiança entre as pessoas, nos governos, nas instituições e ao estimular políticas de curto prazo e menos eficazes. Às vésperas das eleições brasileiras, é bom refletir sobre isso.
Primeiro é preciso definir polarização, que não é uma simples divergência. A política moderna no Ocidente já nasceu dividida, entre direita e esquerda. Para o pensador italiano Norberto Bobbio, o cerne dessa divisão é o conceito de igualdade. A esquerda dá maior importância à igualdade, tende a considerar que muitas desigualdades são produzidas pela organização social e, portanto, podem ser reduzidas pela ação política. A direita, sugere Bobbio, tende a considerar um conjunto maior de desigualdades como naturais, inevitáveis ou legítimas e até a valorizá-las. O centro transita num amplo espectro de posições intermediárias.
Ao longo da história, porém, direita, esquerda e centro conseguiram muitas vezes colaborar e se influenciar mutuamente. A direita aceitou demandas que nasceram em movimentos de esquerda, como a limitação da jornada de trabalho. A esquerda aceitou um papel maior da economia de mercado na geração de riqueza. Cada lado acabou forçando o outro a se aprimorar.
A polarização é justamente o aumento da distância entre os campos políticos e a degradação do modo como se relacionam. Eles se entrincheiram em suas posições e se tornam hostis um ao outro. As diferenças políticas passam a minar as relações sociais e a desencorajar a colaboração. O outro lado deixa de ser apenas um rival de quem eu discordo, mas que tem posições legítimas, para se tornar uma ameaça existencial. Cria-se um discurso de que é preciso salvar o país de uma ruína iminente. O que o adversário propõe é um desastre que, a qualquer custo, não pode acontecer. No limite, o rival se torna ilegítimo, o que é um primeiro passo para o autoritarismo.
Esse tipo de comportamento sempre existiu. O Ocidente já conheceu a polarização extrema, em momentos revolucionários e na ascensão do nazifascismo e do comunismo, no século 20. Mas, após a Segunda Guerra, a intolerância política ficou bastante restrita aos extremos e a ambientes autoritários. A recente onda de polarização exacerbou uma situação que era marginal na maioria dos países.
Essa polarização é detectada em pesquisas. O Political Risk Index, da consultoria Willis, a aponta em máximas históricas. Segundo o Edelman Trust Barometer, indicador que mede a confiança nas sociedades, a polarização já evolui para uma insularização — cerca de 70% dos entrevistados em 28 países mostram-se relutantes ou hesitantes em confiar em pessoas com valores, origens ou crenças políticas diferentes, refugiando-se em círculos de pessoas com ideias semelhantes.
A polarização é obviamente visível nas eleições. O Brasil está dividido entre lulismo e bolsonarismo. Na França, o centro, do presidente Emmanuel Macron, perde espaço para os extremos, à direita e à esquerda; o outrora poderoso Partido Socialista (centro-esquerda) definhou. Partidos tradicionais de centro-direita, como o Conservador (Reino Unido) e a CDU (Alemanha), tiveram nos últimos meses as piores votações da história. Nos EUA, o Partido Republicano foi tomado pelo trumpismo e uma parte dos democratas deu uma guinada à esquerda — o prefeito de Nova York se diz socialista.
Há muitas razões para isso, mas quero tratar aqui dos efeitos para a vida social e a economia.
A polarização tende a aumentar a violência política e a reduzir a participação cívica e eleitoral de cidadãos não polarizados. Tende ainda a afastar da política e do serviço público quem não vive na bolha.
Políticas públicas passam a ser cada vez mais pautadas por dogmas ideológicos, por vezes religiosos, e não por uma relação entre valores, razão, ciência e fatos. Problemas reais exigem soluções racionais e equilibradas, e não verdades absolutas.
A polarização induz ao perdão ou ao acobertamento de erros cometidos pelo lado ao qual se é simpático. Políticas equivocadas e corrupção, que deveriam ser punidas eleitoralmente, acabam sendo varridas para debaixo do tapete.
A polarização tende a contaminar as instituições e a minar a sua credibilidade. É o que está acontecendo agora no STF. Confiança é o cimento da sociedade e é fundamental para o crescimento econômico.
Ao dificultar ou impedir a colaboração entre os partidos, a polarização faz também com que propostas de um lado não sejam apreciadas nem melhoradas pelo outro lado. Com isso, a sociedade sai perdendo. Vários estudos mostram que a colaboração entre os partidos nos EUA está em níveis mínimos históricos.
Estudos identificam efeitos nocivos para a economia da polarização política, principalmente por ela tornar as regras mais imprevisíveis, por impedir ou dificultar decisões necessárias e por fazer a lealdade partidária pesar mais que os resultados.
Um estudo do Federal Reserve de Richmond (“Partisan Conflict in the U.S. and Potential Impacts on the Economy”), de 2023, sugere que a polarização política dificulta a tomada de decisões no Congresso. Isso gera incertezas quanto a políticas e regulações, que acabam fazendo com que as empresas adiem contratações e investimentos.
Já o estudo “Partisan Traps”, do National Bureau of Economic Research (NBER), dos EUA, mostra como reformas que seriam benéficas para a sociedade podem empacar ou serem abandonadas pela falta de disposição dos partidos em colaborar. Isso reforça a percepção de que política é uma disputa em que um lado precisa perder.
Uma série de estudos aponta para os riscos fiscais da polarização, que tende a elevar déficits e o endividamento público. A hostilidade entre os partidos aumenta os incentivos a gastar mais e no curto prazo, com medidas populistas, deixando a conta para governos futuros.
Um outro estudo muito interessante do NBER (“Political Polarization and Finance”) indica que a identidade partidária interfere nas decisões econômicas. Preferências políticas influenciam avaliações de risco (pessoal e de empresas), escolhas de parceiros e relações financeiras. E diz que há evidências de que a formação de grupos politicamente muito homogêneos traz custos econômicos.
Em seu livro “Como Ser um Estoico”, Massimo Pigliucci, professor do City College, de Nova York, fala sobre o pensamento crítico, quase como uma contraposição à polarização. “O estoicismo consiste em desenvolver ferramentas para lidar, da maneira mais eficaz possível, com os conflitos que surgem. Não exige perfeição nem oferece respostas específicas: essas são para os tolos, que imaginam um mundo em preto e branco, de bem contra o mal, no qual é sempre possível distinguir claramente os mocinhos dos bandidos. Esse não é o mundo em que vivemos, e fingir o contrário é bastante perigoso e nada sábio”.
A polarização é uma espécie de infantilização da política. Bastante perigosa e nada sábia, pois corrói o tecido social e prejudica a economia. Quando isso ocorre, a sociedade perde, independentemente de quem vença a eleição.
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