Análise do New York Times sugere ataque preciso dos EUA a reservatórios de água no Irã, o que pode configurar crime de guerra

Análise do New York Times sugere ataque preciso dos EUA a reservatórios de água no Irã, o que pode configurar crime de guerra

Fonte: Bandeira



Ataques realizados na madrugada de quarta-feira destruíram o que parece ser uma instalação de abastecimento de água potável na costa sul do Irã, próxima ao Estreito de Ormuz, segundo uma análise do New York Times. Por volta do horário dos bombardeios, o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) informou em uma publicação na rede social X que havia conduzido ataques perto do estreito “com munições de precisão lançadas por caças da Força Aérea e da Marinha dos EUA”.

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A mídia estatal iraniana informou que os EUA atingiram estruturas de armazenamento de água, e uma autoridade local afirmou que o fornecimento foi interrompido para mais de 20 mil pessoas que vivem em uma cidade e em vilarejos próximos. As temperaturas na região ultrapassaram os 38°C nesta semana.

Uma imagem de satélite comercial registrada na manhã de 9 de junho mostra duas pequenas estruturas de abastecimento de água no vilarejo de Bemani. Ambas possuem tubulações azul-claro, típicas de sistemas de distribuição de água, assim como sua localização — em uma colina fora da área habitada. As construções correspondem à descrição dos dois reservatórios que, de acordo com Abdolhamid Hamzehpour, chefe da autoridade provincial de água, foram destruídos.

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Segundo Hamzehpour, os dois reservatórios de concreto tinham capacidade para armazenar 500 e 2.000 metros cúbicos de água, respectivamente, e abasteciam a cidade de Kuhestak e dez vilarejos do distrito de Bemani. Além dos tanques, equipamentos mecânicos do sistema de distribuição também ficaram completamente fora de operação após serem atingidos.

Vídeos divulgados na quarta-feira por veículos de imprensa iranianos, incluindo a mídia estatal e a autoridade provincial de água, mostram que o telhado da menor das construções desabou.

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A instalação maior ao lado continua de pé, mas imagens mostram um pequeno buraco de impacto no centro do telhado. O New York Times confirmou a autenticidade das imagens comparando os elementos visíveis ao redor com imagens de referência do local.

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Uma foto de fragmentos que, segundo a agência de notícias semioficial iraniana Tasnim, foram recuperados no local mostrou restos identificados por pesquisadores do Open Source Munitions Portal — um banco de dados de fragmentos de armamentos documentados em zonas de conflito — como pertencentes a uma bomba GBU-39.

A imagem, divulgada pela agência iraniana Mehr, mostra o telhado do reservatório de água potável desabado após ter sido fortemente danificado

Reprodução / X

Uma análise da CNN também apontou que os fragmentos divulgados pela agência semioficial iraniana Mehr parecem ser de uma bomba da série GBU-39, segundo especialistas em armamentos ouvidos pela emissora.

A GBU-39, uma pequena bomba planadora guiada de precisão da classe de 250 libras (cerca de 113 quilos), é compatível com os danos observados nas imagens do edifício atingido: um buraco limpo perfurando o telhado e danos limitados da explosão ao redor.

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As duas construções ficam fora do vilarejo, e não há outras infraestruturas nas proximidades imediatas. Atingir edifícios isolados e acertar o centro de um telhado são considerados fortes indícios de um ataque de precisão. Em mensagem de texto, um porta-voz do Comando Central afirmou estar ciente dos relatos de danos à instalação, mas não forneceu mais informações.

À CNN, o especialista em armamentos Trevor Ball afirmou que a localização isolada da instalação torna improvável uma falha de guiagem da munição.

— É possível que tenha havido um erro na escolha deste edifício como alvo específico, mas uma falha da munição é muito improvável — afirma.

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Não está claro se os EUA atingiram deliberadamente as instalações de água ou se sabiam o que havia nos edifícios.

Atacar intencionalmente infraestrutura civil pode constituir crime de guerra sob o direito internacional. As Convenções de Genebra também protegem instalações de abastecimento de água e outras estruturas indispensáveis à sobrevivência da população civil.

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Embora os EUA tenham afirmado que os ataques tiveram como alvo instalações militares, incluindo sistemas de defesa aérea e radares próximos ao Estreito de Ormuz, autoridades iranianas sustentam que estruturas civis de abastecimento de água foram atingidas diretamente.

Hamzehpour disse que caminhões-pipa móveis foram enviados para abastecer os moradores enquanto equipes construíam uma linha emergencial de distribuição que contornasse os reservatórios danificados. Segundo ele, essa alternativa provisória foi concluída em menos de 12 horas.

(Com New York Times)