Análise: Derrota judicial em voto pelo correio é mera pedra no caminho de amplo esforço de Trump para controlar eleições legislativas

Análise: Derrota judicial em voto pelo correio é mera pedra no caminho de amplo esforço de Trump para controlar eleições legislativas - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Rejeitada pela Suprema Corte na segunda-feira, a tentativa do presidente americano, Donald Trump, de fazer com que o Serviço Postal dos Estados Unidos inspecionasse os votos enviados pelo correio foi apenas uma parte de um esforço mais amplo que envolve todo o poder do governo federal para assumir maior controle das eleições de meio de mandato, em novembro. A decisão desferiu um duro golpe contra o presidente, que há muito alega, sem provas, que a fraude é generalizada na votação por correio, mas sua batalha está longe de terminar.

Contexto: Suprema Corte dos EUA rejeita restrições de Trump ao voto por correio Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Alguns dias antes da decisão da Suprema Corte, o Departamento de Justiça enviou cartas ameaçadoras a pelo menos 30 autoridades eleitorais de alto escalão em todo o país, intensificando a luta para obter acesso a dados privados de eleitores.

Trump, por sua vez, argumenta que está tentando garantir a integridade da votação, mas suas alegações de fraude generalizada no sistema eleitoral foram investigadas e desmentidas repetidamente, e os críticos dizem que suas ações semeiam dúvidas desnecessariamente sobre o resultado da votação.

As novas regras, se passassem pela Suprema Corte, exigiriam que os estados enviassem listas de eleitores ao Serviço Postal para aprovação antes de poderem distribuir as cédulas de votação pelo correio. Antes da decisão, dois juízes de instâncias inferiores já haviam determinado que as mudanças propostas pelo presidente eram ilegais e não deveriam ser impostas tão perto das eleições legislativas. A decisão é a mais recente de uma série de derrotas judiciais para Trump, que já disse querer "assumir o controle" e nacionalizar as eleições. Outras tentativas do republicano de pressionar os estados em relação ao processo eleitoral já enfrentaram reveses legais. 'Presente generoso': Empresário russo vinculado ao Kremlin pagou por festa do filho mais velho de Trump nas Bahamas — Isso está longe de terminar — disse Benjamin Hovland, que foi afastado da Comissão de Assistência Eleitoral pelo governo Trump este ano, acrescentando que a decisão da Suprema Corte mitigou o “impacto no mundo real”. — O que estamos vendo é o uso do aparato governamental, de agências federais e do dinheiro dos contribuintes para promover uma narrativa que só mina a confiança em nossa democracia. 'Erros, atrasos e confusão' O Departamento de Justiça já processou 30 estados por listas de eleitores não editadas, que incluem informações pessoais, como números de carteira de motorista e números do Seguro Social. Eles perderam 23 desses casos. As decisões sobre os demais ainda estão pendentes. De acordo com especialistas, as ações federais, assim como as diversas decisões judiciais, causaram alarme entre as autoridades eleitorais locais e os eleitores.

Só neste mês, os principais responsáveis por eleições em sete estados controlados pelos republicanos apresentaram um parecer à Suprema Corte, argumentando que, a menos de dois meses do pleito, já era tarde demais para promover mudanças significativas no processo eleitoral. “Tentar implementar a regra agora quase certamente levará a erros, atrasos e confusão tanto para os eleitores quanto para os funcionários eleitorais”, afirmou o documento. Alguns estados, incluindo Carolina do Norte, Delaware e Alabama, já haviam enviado seus boletins de voto pelo correio, mesmo antes de a Suprema Corte emitir a decisão. Pressão e ameaças Mas a questão com o Serviço Postal não foi a única fonte de confusão e de atrito na coordenação entre autoridades eleitorais locais e o governo federal. O governo também pediu à Suprema Corte que intervenha em um processo separado, para liberar seu plano de criar listas de cidadãos por meio do cruzamento de dados de diversas agências, incluindo o Departamento de Segurança Interna e a Administração da Previdência Social. Um tribunal de instância inferior bloqueou, no entanto, o uso dessa ferramenta, que, segundo autoridades, é necessária para verificar a cidadania de eleitores, entre outras finalidades. Em julho, Markwayne Mullin, secretário de Segurança Interna, ameaçou autoridades eleitorais em um discurso, afirmando que elas poderiam ser presas caso não cumprissem as exigências do governo Trump para alterar as políticas eleitorais. Autoridades do Departamento de Justiça também analisaram a possibilidade de apresentar acusações criminais contra funcionários eleitorais estaduais ou locais, caso o governo concluísse que eles não haviam protegido adequadamente seus sistemas de informática. Leia também: EUA admitem, pela primeira vez, terem armas no espaço A Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA), que está subordinada ao Departamento de Segurança Interna, exige que os estados mudem a forma como conduzem as eleições, sob pena de perderem dezenas de milhões em fundos federais destinados à prevenção do terrorismo. Trump, desde o início do mandato, também desmantelou a infraestrutura de segurança eleitoral do governo. Especialistas alertam que seus cortes em agências encarregadas de coordenar a segurança eleitoral com os governos estaduais podem reduzir a visibilidade de campanhas de influência estrangeira e ataques cibernéticos. A desconfiança dos eleitores, portanto, no processo eleitoral está crescendo às vésperas das eleições de novembro. Uma pesquisa da Associated Press, do NORC Center for Public Affairs Research e da USAFacts mostrou que apenas 34% dos adultos americanos confiam “muito” ou “bastante” nas certificações governamentais dos resultados eleitorais, uma queda em relação aos 40% registrados em 2024. Kimball Brace, presidente da Election Data Services, uma organização que trabalha com governos locais na preparação para eleições, disse que não esperava que a decisão da Suprema Corte impedisse o esforço mais amplo de Trump de prosseguir com suas queixas eleitorais. — Não prevejo que as pessoas do lado republicano não queiram continuar e defender seu ponto de vista o máximo possível — disse Brace. — Eles não querem lidar com essa pressão louca que diversos interesses e indivíduos têm exercido sobre a administração eleitoral.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo