Análise: Alvo de operação, governo do Rio é apenas um dos tentáculos políticos da Refit

 

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A operação da Polícia Federal que atingiu o ex-governador Cláudio Castro (PL) e diferentes estruturas do Executivo do Rio, além do Judiciário, joga luz sobre alguns dos vários tentáculos que a refinaria Refit, do empresário Ricardo Magro, têm na política. A influência do magnata que vive nos Estados Unidos é antiga, perpassa diversos níveis de poder e não se limita ao estado.

Entre os alvos desta sexta-feira, está o ex-secretário de Fazenda Juliano Pasqual, sabidamente avalizado por Magro quando foi escolhido para o cargo. Ele é ligado à família do ministro aposentado do Tribunal de Contas da União (TCU) Aroldo Cedraz, que o empregou no gabinete quando era deputado federal. Tiago Cedraz, filho de Aroldo, é advogado e pessoa próxima ao dono da antiga Refinaria de Manguinhos.

Outro que passou por buscas da PF, Renan Saad, ocupou o cargo de procurador-geral do Estado durante parte da gestão Castro. Saad sucedeu Bruno Dubeux, trocado em 2023 porque, segundo interlocutores, não topou aprovar novas facilidades à refinaria, conhecida por ter o não pagamento de impostos como modus operandi.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), outra instituição na qual Magro mantém pontes, chegou a interditar a Refit em setembro do ano passado com base em irregularidades, mas a liberou um mês depois. O governo do Rio, via PGE, acionou a Justiça para defender a desinterdição.

Trajetória

A história de ingerência política do homem por trás da maior devedora de impostos do país não começou ontem. Magro adquiriu Manguinhos em 2008, mas antes atuava como advogado tributário e se imiscuía no ramo por meio da relação com distribuidoras de combustível. Entre os clientes na advocacia, estava Eduardo Cunha, que depois viraria presidente da Câmara dos Deputados.

Durante o curto governo da petista Benedita da Silva no Palácio Guanabara, em 2002, uma movimentação atribuída a Magro resultou no decreto que mudava a forma de cobrança de ICMS e facilitava esquemas de Manguinhos. O modelo foi renovado em 2005, sob Rosinha Garotinho, e viraria foco de embate entre a refinaria e Sérgio Cabral, que chegou a desapropriar a empresa em 2012.

Com Manguinhos enfrentando problemas financeiros, o Grupo Magro comprou a refinaria em 2008 por apenas R$ 7 milhões. Dali em diante, o empresário começaria a se tornar mais conhecido. Quem assumiu cargo de chefia no Conselho logo depois da aquisição foi o petista Marcelo Sereno, ligado ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que havia sido chefe de gabinete do governo Benedita — a mesma gestão que permitiu o regime especial de ICMS.

Em 2010, investigação da Polícia Civil colocaria políticos, sobretudo Cunha, no seio de uma suposta máfia de combustível no estado, da qual Magro seria peça central, que se concentrava em malabarismos fiscais junto com distribuidoras. O então deputado, cujo envolvimento fez o caso subir para o STF, foi grampeado em ligações de agosto de 2009. Nelas, prometia ajuda para resolver uma dificuldade que Magro vinha tendo com a Braskem.

Durante evento em Nova York no ano passado, Magro interagiu com o governador do Rio, secretários e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), tido hoje como seu principal interlocutor em Brasília. Partiu do parlamentar piauiense, agora enrolado com o caso Master, a emenda que buscava retirar as empresas de refino de combustível do projeto que combate devedores contumazes.

No Rio, o último projeto de perdão tributário a empresas foi aprovado em outubro de 2025 na Alerj. Entre opositores, ninguém chamava a proposta de “Refis”, nome oficial da medida. Ficou conhecida como “Lei Ricardo Magro”.

Com o cerco da PF a partir do ano passado, Magro deixou de ser um personagem das sombras e ganhou holofotes. Morador dos Estados Unidos, onde construiu uma vida de luxo, virou assunto até na Casa Branca, na conversa bilateral entre os presidentes Lula e Donald Trump.