Análise: 'A parada de Sete de Setembro e o calcanhar de Aquiles de Lula', escreve Felipe Nunes, diretor da Quaest

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Hélio Garcia, ex-governador de Minas Gerais, costumava dizer que “eleição só começa depois da parada de Sete de Setembro”. A frase, que atravessou décadas da política mineira, parece especialmente adequada para este Sete de Setembro. Há meses ouvimos que a eleição presidencial de 2026 ainda não começou. Pois bem: se a frase de Garcia ainda estiver certa, chegou a hora de começar pra valer.

Quaest: pesquisa mostra Lula e Flávio Bolsonaro empatados no 2º turno Leia mais: oito em cada dez eleitores dizem que líder religioso 'não influencia' voto para presidente, aponta Quaest Faltando menos de 30 dias para o 1º turno, a disputa continua calcificada e acirrada. A nova pesquisa Quaest publicada nesta segunda-feira mostra Lula ainda na liderança do primeiro turno, com 36%, contra 29% de Flávio Bolsonaro. Augusto Cury aparece com 8%, os demais candidatos somam 9%, enquanto 10% permanecem indecisos e 8% dizem que não votarão em ninguém. A vantagem de sete pontos no primeiro turno, no entanto, esconde o dado politicamente mais importante da rodada: na simulação mais provável de segundo turno, Lula e Flávio aparecem rigorosamente empatados, com 41% para cada um.

Não é um empate circunstancial. Ele aparece em praticamente todas as dimensões que ajudam a medir a força dos dois candidatos. Lula tem hoje potencial de voto de 44% e rejeição de 53%. Flávio Bolsonaro, potencial de 40% e rejeição de 55%. As diferenças estão dentro da margem de erro.

Até o medo, sentimento que tem organizado boa parte da polarização brasileira nos últimos anos, chegou ao equilíbrio: 43% dizem temer mais a volta da família Bolsonaro ao poder e os mesmos 43% temem mais a continuidade de Lula.

Essa simetria talvez seja a melhor definição do estágio atual da eleição. Lula e o bolsonarismo continuam representando os dois polos dominantes da política brasileira. Cada um dispõe de uma base extremamente fiel, cada um provoca enorme resistência do outro lado e ambos encontram grande dificuldade para atravessar a fronteira que separa os convertidos dos eleitores que decidirão a eleição. É justamente por isso que a avaliação do governo se torna tão importante. Corrupção e defesa da democracia são temas que pesam mais na decisão do voto para presidente, aponta Quaest Veja também: Aprovação do governo Lula vai a 43% e desaprovação chega a 50% em meio à crise do STF Campanhas importam. Candidatos importam. Debates, erros, acontecimentos inesperados e estratégias de comunicação também importam. Mas a literatura sobre comportamento eleitoral mostra há décadas que eleições presidenciais possuem fundamentos. Entre eles estão a situação da economia, a percepção sobre o rumo do país e, principalmente quando o presidente disputa a reeleição, a avaliação de seu governo. Nesse aspecto, Lula entra na reta decisiva da campanha com um problema relevante. Hoje, 50% desaprovam seu trabalho e 43% aprovam. Na avaliação mais estrita do governo, 38% o consideram ruim ou péssimo, diante de 34% que o classificam como ótimo ou bom; outros 25% avaliam a administração como regular. O dado chama atenção não apenas pelo nível, mas pela direção. Desde julho, a aprovação caiu de 48% para 43%, enquanto a desaprovação passou de 47% para 50%. E a deterioração ocorre em segmentos importantes para a disputa: no Nordeste, a desaprovação subiu de 29% para 35%; no Sudeste, de 50% para 56%. Entre os homens, foi de 50% para 57%; entre os jovens, de 46% para 55%.

É aqui que a comparação histórica se torna particularmente reveladora. Quando colocamos os governos brasileiros lado a lado, aproximadamente no mesmo momento do calendário eleitoral, Lula chega a setembro de 2026 com uma NET de avaliação — positiva menos negativa — de -4 pontos pela medida atual de ótimo/bom contra ruim/péssimo e, usando a série comparativa apresentada no gráfico, em terreno claramente negativo. É uma situação muito diferente daquela encontrada pelos presidentes que tiveram maior facilidade para se reeleger ou eleger seus sucessores. No mesmo estágio da corrida, Lula em 2010 caminhava para terminar o período eleitoral com uma avaliação líquida extraordinariamente positiva, perto de 80 pontos, e conseguiu transferir força suficiente para eleger Dilma Rousseff. Em 2006, quando buscava a própria reeleição, sua NET estava fortemente positiva. Fernando Henrique Cardoso também chegou positivo à eleição de 1998 e conquistou um segundo mandato. Itamar Franco terminou seu governo com saldo favorável e viu Fernando Henrique vencer a eleição de 1994. No sentido inverso, presidentes com avaliação líquida negativa tiveram muito mais dificuldade em construir continuidade eleitoral. Fernando Henrique terminou seu segundo mandato no campo negativo e não elegeu sucessor. Dilma Rousseff, já no ciclo que desembocaria no governo Temer, atingiu níveis dramaticamente negativos. Jair Bolsonaro chegou ao final da campanha de 2022 com saldo ligeiramente negativo e tornou-se o primeiro presidente desde a instituição da reeleição a perder tentando conquistar um segundo mandato. História não é destino, e nenhuma dessas eleições pode ser simplesmente reproduzida em 2026. Mas o padrão merece atenção: aprovação presidencial funciona como uma espécie de vento estrutural da eleição. Um governo bem avaliado oferece ao candidato governista impulso para ampliar sua coalizão. Um governo mal avaliado obriga o incumbente a fazer campanha contra a própria experiência de parte dos eleitores. Esse pode ser o verdadeiro calcanhar de Aquiles de Lula. O presidente não enfrenta hoje um problema de ausência de base. Pelo contrário. A pesquisa mostra uma coalizão lulista ainda impressionantemente sólida. No segundo turno, 96% dos lulistas e 89% dos eleitores de esquerda votam nele. Do outro lado, 98% dos bolsonaristas e 86% dos eleitores de direita escolhem Flávio. Entre os independentes, ninguém consegue construir vantagem decisiva. Há, portanto, pisos eleitorais muito resistentes dos dois lados. A pesquisa estima que Lula dispõe de uma base que oscila aproximadamente entre 29% e 33%, enquanto a família Bolsonaro parte de um núcleo em torno de 24%. Fora desses dois campos, 20% dizem preferir a vitória de um candidato outsider e 17%, de um candidato moderado. É nesse contingente menos ideológico e menos fiel que a eleição provavelmente será decidida. E é justamente nesse terreno que a economia e a avaliação do governo se encontram. O problema econômico percebido pelo eleitor não parece ser apenas renda. É poder de compra. Embora 64% dos entrevistados reconheçam algum aumento de renda no último ano, somente 10% dizem que sua renda cresceu mais que o custo de vida. Essa diferença produz consequências eleitorais muito fortes: entre os que perceberam ganho real de renda, Lula domina amplamente; entre os que sentiram os preços avançarem mais que a renda ou não perceberam melhora nos rendimentos, Flávio leva vantagem expressiva. Outro sinal aparece no endividamento. O período de deterioração da aprovação presidencial coincide com uma volta do crescimento da parcela que declara ter muitas dívidas. Ao mesmo tempo, políticas criadas justamente para responder a esse mal-estar começam a perder capacidade de produzir dividendos políticos: o novo Desenrola, que chegou a ser considerado uma boa ideia por 50% dos brasileiros, caiu para 43%. É importante perceber o tamanho do desafio. Lula não precisa necessariamente transformar desaprovação em aprovação para vencer. Em eleições polarizadas, é possível conquistar votos de pessoas que não avaliam bem um governo, desde que a alternativa provoque rejeição ainda maior. A eleição de 2026 contém exatamente esse componente: Lula pode se beneficiar do medo dos Bolsonaro da mesma maneira que Flávio pode se beneficiar da fadiga com Lula. Mas depender exclusivamente desse mecanismo torna a reeleição mais arriscada. Enquanto a aprovação do governo estiver abaixo da desaprovação, a campanha de Lula precisará convencer uma parcela dos eleitores a votar nele apesar de sua avaliação do governo. Flávio, inversamente, pode transformar cada eleitor insatisfeito numa oportunidade de voto sem necessariamente precisar convencê-lo de que representa um projeto melhor — basta persuadi-lo de que representa a mudança. Palavra que anda em falta nas campanhas... Essa é uma assimetria importante para quem ocupa o Palácio do Planalto. A boa notícia para Lula é que ainda há tempo. A má notícia é exatamente a mesma. Até outubro, campanhas podem mudar percepções, acontecimentos podem reorganizar prioridades e a própria economia pode alterar o humor do eleitor. Mas, a partir deste Sete de setembro, o calendário começa a correr rapidamente. Hélio Garcia talvez estivesse certo: a eleição começa depois da parada. E Lula chega à largada ainda na frente. Só que, pela primeira vez, olhando para o retrovisor e vendo Flávio Bolsonaro exatamente à mesma altura quando a estrada se estreita para dois. *Felipe Nunes é diretor da Quaest e professor da Escola de Economia da FGV

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