Amigos de ouro

 

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Está comprovado: pessoas que envelhecem em comunidade vivem melhor. Envelhecer não é fácil pra ninguém, mas ter alguém envelhecendo com você é no mínimo mais divertido. A socialização vai muito além de só ter uma companhia. Compartilhar as dores de amar, de articular e da lombar deixam a vida mais fácil.

Minha mãe perdeu uma grande amiga recentemente. Três semanas antes ela, que sempre foi muito agregadora, reuniu as amigas da vida toda numa casa em Búzios. A viagem foi intitulada “Meninas de Ouro”. As meninas 70+ fizeram blusa, organizaram o bar, escolheram o menu e dividiram os quartos.

Na última hora, o DJ preparado pra tocar Barry White foi dispensado. “Não vale a pena minha filha, cada uma tá com uma dor específica”, disse mamãe conformada. “Uma está mancando, outra tem reumatismo, outra tá com problema de fêmur. O DJ vai ficar subaproveitado”.

Fazia tempo que eu não ria tanto com as histórias das “Meninas de Ouro”. E pelo visto elas também. Ao fim da viagem, depois de algumas caipirinhas, uma das “meninas” tropeçou, deixou Búzios de ambulância, e ainda pediu pra ser filmada. Três semanas depois uma delas morreu. E elas voltaram a se reunir no enterro. A cena daquelas amigas se abraçando juntas em volta do caixão me marcou profundamente. Assim como as gargalhadas ecoando no cemitério enquanto a amiga acidentada contava como tiraram ela pela janela.

A amizade é algo transformador. O fato de existir alguém que passe as mesmas coisas que você ou que te veja de fora, sem nenhum julgamento e só te dando a mão é uma verdadeira riqueza. Tenho grandes amigos de todos os tipos. Alguns há mais de trinta anos. São as testemunhas oculares da minha vida, as pessoas que me relembram quem eu sou naqueles momentos que a gente esquece da gente.

Amigos são nossos HD externos. A lembrança do nosso melhor. O espelho do nosso pior. A tranquilidade de poder ser quem a gente é. De não ter que ter prólogo, nem explicação. De ter a alegria como opção.

Na minha casa, amigos sempre foram coisa séria. Meus pais recebiam amigos todos os fins de semana pra um churrasco, o programa era sempre tão longo que alguns dormiam lá. Fui criada como nas aldeias: cheia de “tias” dando beijos molhados na gente e oferecendo comida. Talvez seja por isso que os amigos ocupem um lugar enorme na minha vida. Sempre dividi com maestria marido, filho, trabalho e amigos. O que nem sempre foi fácil de explicar para os namorados. Porque tem amigo que gera ciúme. Principalmente aquele que sabe tudo: sabe o que você disse, o que você não disse, o que você quis dizer e o que você deveria ter dito há três relacionamentos atrás.

E talvez também seja por isso que eu também tenha um sonho: acabar a vida numa casa só com amigos escolhidos. Mas ela não vai ser uma “Casa de Repouso”. Vai ser uma “Casa de Pouso”: para quem quiser pousar e partir. Na minha casa vai ter música, vinho, muitas conversas, enfermeiras com roupa colorida, comida boa e idas organizadas ao teatro. Vai ter remédio na hora certa e fofoca na hora errada. Quero envelhecer celebrando a alegria das pequenas coisas. Porque no fim sempre terá uma velha amiga pra dividir um copo de vinho, uma reclamação ou a dor de perder alguém que levou um pedaço da nossa história. E se dermos sorte, teremos saúde pra dançar e gargalhar no final com nossos meninos e meninas de ouro.