O recém terminado mês de agosto tem duas cores de campanha: o dourado, da amamentação, e o verde, da Primeira Infância. A ligação faz sentido: a amamentação é um dos principais determinantes da boa saúde e do desenvolvimento no início da vida. O leite materno é um alimento perfeito, que protege e promove a saúde de mães e bebês em muitas dimensões, com benefícios que se estendem para o resto da vida. O Brasil é exemplo para o mundo. Em 4 décadas, progredimos de 4% de bebês de 6 meses mamando só no peito para 46% (59% dos atendidos no SUS), e nos tornamos referência global. Mas por que tantas brasileiras ainda sofrem para conseguir amamentar? Para encontrar respostas, é preciso procurar em torno da mulher, não apenas nela. A sabotagem do aleitamento pela indústria do leite tem um século de idade. Quando percebeu que poderia vender fórmula infantil não apenas a bebês órfãos, mas a todas as mães, lançou uma das campanhas de marketing mais cruéis e bem-sucedidas da história: convenceu milhões de mulheres (mamíferas) de que o alimento que produziam não era bom para seus filhos. O detalhe mais perverso foi a distribuição gratuita de mamadeiras e fórmulas nas maternidades. Apresentado à mamadeira, de sucção mais fácil, o bebê faz a “confusão de bico”: se atrapalha no seio, briga, larga — e a mãe entende que seu leite não é bom. Resultado, na pobreza dos anos 1970: as latas eram caras, o pó era diluído com mais água, muitas vezes suja. Estima-se que milhões de crianças tenham morrido de diarreia e desnutrição, o que levou a OMS a proibir, em 1981, a propaganda direta de fórmula. No Brasil, surgem o Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento (1981); a NBCAL, norma que restringe a propaganda (1988); a Iniciativa Hospital Amigo da Criança e a Semana Mundial do Aleitamento, em 1992. A influência da indústria, porém, se sofistica: em 2023, uma série de artigos da revista The Lancet acusou a indústria de seguir moldando crenças e práticas sobre alimentação infantil — especialmente entre profissionais de saúde, alguns dos quais ainda prescrevem o complemento na primeira dificuldade, quando a simples correção da mamada resolveria. A sabotagem também pode vir de casa, sem má intenção: a avó que dispara “dá logo a mamadeira” no primeiro choro, o parceiro exausto que sugere a fórmula para todos dormirem. A falta de informação contribui: nos primeiros dias o seio produz o colostro, amarelado e em pequena quantidade — mas suficiente, porque o volume do estômago do recém-nascido é o de uma azeitona. E se esvazia rapidamente, por isso o bebê acorda muitas vezes à noite. Daí a importância da livre demanda: amamentar sempre que ele der sinais, sem hora marcada. Essas são causas comuns de uma mamadeira desnecessária, e que prejudica o aleitamento. Além disso, amamentar não deve doer; dor persistente pode ser sinal de pega errada, que se corrige com orientação. Dor ou ferida persistente, ardência ou prurido pedem avaliação de um profissional de saúde. O fator mais importante é o apoio. É humanamente impossível que uma mulher amamente em livre demanda e ainda cuide da casa, da comida, das visitas. O papel do parceiro e da família não é palpitar, mas assumir as tarefas e garantir que ela durma, coma, respire. E o apoio se estende para fora de casa: em caso de dificuldades, o Brasil tem a maior rede de bancos de leite humano do mundo, com apoio gratuito à lactante, e já formou milhares de consultoras de amamentação. Promover a amamentação é uma responsabilidade de toda a sociedade, da família ao Ministério da Saúde. Em meio ao turbilhão do puerpério, a mãe não pode ser deixada sozinha. Ela precisa de boa orientação, rede de apoio e suporte profissional. Os incríveis benefícios valem o esforço.
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Amamentar é um ato coletivo: apoio, orientação e informação são indispensáveis para alcançar os benefícios do leite materno
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O Globo
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