Aluguel consignado pode ampliar comprometimento da renda e risco de endividamento

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Fonte da notícia: Folha de Pernambuco Folha de Pernambuco

A aprovação pela Câmara dos Deputados do projeto que cria o chamado “aluguel consignado” coloca em discussão não apenas uma nova alternativa para facilitar o acesso à moradia, mas também a ampliação das modalidades de crédito e de compromissos que podem consumir diretamente parte da renda mensal.

Pela proposta aprovada, empregados privados, servidores públicos, aposentados e pensionistas poderão utilizar parte do salário ou benefício para garantir o pagamento do aluguel, com desconto de até 30% da remuneração. A medida ainda será analisada pelo Senado e, se aprovada, dependerá de sanção presidencial.

O mecanismo se soma a outras modalidades de crédito consignado já disponíveis aos trabalhadores, incluindo empréstimos tradicionais e o Crédito do Trabalhador. Para especialistas, o cenário reforça a necessidade de avaliar não apenas cada parcela individualmente, mas o comprometimento global da renda.

Para Reinaldo Domingos, PhD em Educação Financeira e presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin), o problema não está necessariamente na existência de novas modalidades de crédito, mas na falta de controle sobre o conjunto de compromissos assumidos.

“O grande risco não está em uma modalidade específica de consignado, mas na soma delas. O trabalhador pode olhar para cada parcela isoladamente e considerar que ela cabe no orçamento, mas, quando reúne empréstimos, aluguel, cartão de crédito e outras obrigações, percebe que uma parcela muito grande da renda já está comprometida. O que parece administrável individualmente pode se transformar em descontrole financeiro quando analisado em conjunto”, explica.

Salário A principal preocupação dos especialistas é que a facilidade de contratação produza uma falsa sensação de capacidade financeira. Como parte dos pagamentos é realizada automaticamente, o consumidor pode não perceber imediatamente o impacto acumulado das parcelas sobre sua renda disponível.

Pesquisa da Abefin em parceria com o Instituto Axxus de Pesquisas, ligado à Unicamp, reforça esse cenário. Entre trabalhadores que contrataram o Crédito do Trabalhador, 83% afirmaram não saber quanto pagam de juros na operação, enquanto 69% não avaliaram o impacto da contratação sobre o orçamento familiar. Além disso, 36% utilizaram o crédito para quitar outras dívidas.

Para Reinaldo, esses números mostram que o problema não é apenas o acesso ao crédito, mas a ausência de uma visão completa do orçamento. “Quando o trabalhador olha apenas para o valor da parcela, ele pode ter a impressão de que aquela dívida é barata ou que ainda existe espaço no orçamento. Mas o que importa é quanto da renda está sendo comprometido por todas as obrigações juntas e quanto efetivamente sobra para viver, enfrentar imprevistos, poupar e realizar projetos. Crédito não aumenta renda. Ele antecipa o uso de uma renda que ainda será recebida.”

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Na avaliação do especialista, o aluguel consignado exige atenção justamente porque a moradia é uma despesa recorrente e de longo prazo. “O aluguel não pode ser analisado apenas como mais uma parcela. É uma despesa permanente. Se ela for somada a empréstimos consignados, cartão de crédito, financiamento e outras dívidas, o trabalhador pode chegar a um nível de comprometimento em que qualquer imprevisto, como uma redução de renda ou uma despesa médica, provoca um desequilíbrio. A facilidade de contratação precisa vir acompanhada de planejamento.”

A discussão ganha ainda mais relevância diante da ampliação das alternativas de consignação. Quanto maior o número de obrigações vinculadas à remuneração, menor tende a ser a parcela da renda que o trabalhador pode administrar livremente.

O risco, segundo os especialistas, é a criação de um ciclo em que uma nova dívida seja utilizada para resolver uma dificuldade provocada por outra dívida. O próprio levantamento da Abefin mostra que mais de um terço dos entrevistados utilizou o Crédito do Trabalhador para quitar outros débitos.

“Se o trabalhador toma um crédito para substituir uma dívida mais cara, isso pode fazer sentido dentro de um planejamento. O problema é quando ele apenas troca uma dívida por outra sem corrigir a causa do desequilíbrio. Nesse caso, o consignado deixa de ser uma ferramenta financeira e passa a funcionar como uma extensão do problema”, afirma Reinaldo.

Ele ressalta que a análise deve considerar não apenas o valor mensal descontado, mas também o custo total da operação, o prazo e o impacto sobre os objetivos financeiros da família. “A pergunta não deve ser apenas ‘quanto cabe de parcela no meu salário?’. A pergunta correta é ‘quanto da minha renda já está comprometido, quanto essa operação vai me custar no total e o que vai deixar de caber no meu orçamento por causa dela?’. Essa mudança de perspectiva é fundamental para evitar o endividamento."

Educação financeira O aluguel consignado ainda depende da tramitação no Senado e de eventual sanção para entrar em vigor. Para os especialistas, independentemente do destino do projeto, a discussão revela uma questão mais ampla: o trabalhador está tendo acesso a cada vez mais formas de comprometer sua renda, mas nem sempre possui conhecimento suficiente para avaliar o impacto conjunto dessas decisões.

“Não precisamos demonizar o crédito consignado. Ele pode ser útil e, em determinadas situações, pode inclusive substituir uma dívida mais cara. O problema é contratar sem planejamento, sem conhecer o custo e sem considerar as outras obrigações já existentes. Educação financeira é justamente aprender a enxergar o conjunto e não apenas a parcela que aparece na tela ou no contracheque”, conclui Reinaldo Domingos.

Para Daniel Santos, o desafio passa a ser compartilhado entre trabalhadores e empresas. “A empresa não é responsável pelas escolhas financeiras do empregado, mas precisa reconhecer que o endividamento pode afetar o ambiente corporativo. Ao mesmo tempo em que aperfeiçoa seus processos de folha e acompanha corretamente os descontos, a organização pode contribuir para a conscientização dos colaboradores. Quanto maior a pressão financeira sobre o trabalhador, maior a possibilidade de reflexos no ambiente de trabalho.”  

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