Alphabet cai 13% e perde US$ 500 bi em valor de mercado, a maior de sua história, após 'modo IA' no Google derrubar resultados

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

As ações da Alphabet, controladora do Google, caíram mais de 13%, eliminando mais de US$ 500 bilhões em valor de mercado naquela que foi a maior perda de valor em um único pregão na história da empresa, depois que a companhia divulgou resultados decepcionantes nas áreas de buscas e publicidade, reforçando as preocupações dos investidores quanto à ameaça que a inteligência artificial representa para seu principal negócio.

A controladora do Google reportou receita de US$ 111,2 bilhões no terceiro trimestre, excluídos os repasses aos parceiros, ficando abaixo das projeções dos analistas. A receita publicitária proveniente das buscas e de outros canais — uma linha de negócios que responde por aproximadamente metade da receita total e é fundamental para financiar os enormes investimentos em inteligência artificial — também ficou aquém das previsões, registrando o menor ritmo de crescimento em cinco trimestres.

Os resultados e a reação das ações “mostram a margem de erro existente quando uma empresa de hiperescala, que está investindo centenas de bilhões de dólares na expansão da infraestrutura de IA, apresenta resultados decepcionantes em seu negócio principal”, afirmaram analistas do JPMorgan, entre eles Doug Anmuth, em uma nota.

As ações recuavam 12,68%, para US$ 281,07, eliminando US$ 520 bilhões do valor de mercado da Alphabet às 16h10 em Nova York. O desempenho da empresa contrastou de maneira particularmente acentuada com o de sua concorrente Microsoft, que divulgou um crescimento em seu negócio de computação em nuvem acima das expectativas de Wall Street, ao mesmo tempo que manteve os gastos sob controle.

O diretor de negócios, Philipp Schindler, afirmou em uma teleconferência com investidores realizada na noite de quarta-feira que a crescente popularidade do AI Mode, uma nova aba da Busca do Google, prejudicou os resultados da companhia. As consultas feitas por meio de IA apresentam “menor monetização”, disse Schindler, embora tenha ressaltado que a empresa está otimista e possui planos para inserir mais anúncios nessa área do mecanismo de busca.

Durante anos, os executivos do Google argumentaram que os chatbots e os recursos de inteligência artificial não reduziriam significativamente a participação de seu negócio de buscas. Os investidores, porém, têm demonstrado preocupação com o impacto sobre a principal fonte de geração de caixa da empresa, à medida que os consumidores passam a recorrer a alternativas concorrentes, como o ChatGPT, da OpenAI, o Claude e os próprios recursos de IA do Google.

A pressão sobre Sundar Pichai, diretor-presidente (CEO) da Alphabet, está aumentando para que ele justifique os mais de US$ 1 trilhão em pagamentos futuros que o Google terá de realizar para obter recursos como data centers, capacidade computacional e energia necessários para viabilizar suas ambições em inteligência artificial.

“Este trimestre parece representar um momento decisivo para a Alphabet: ou Pichai e sua equipe corrigem a maneira como a empresa monetiza a inteligência artificial, ou a gigante corre o risco de perder, em um futuro próximo, sua posição de liderança em vários de seus principais negócios”, afirmou Thomas Monteiro, analista sênior do Investing.com.

“Até que o Google demonstre que consegue cobrar pela IA da mesma forma que antes cobrava pela publicidade nas buscas”, disse ele, todas as projeções de investimentos em bens de capital divulgadas pela empresa passarão a “parecer menos uma demonstração de ambição e mais uma conta a pagar”.

A corrida do Google para construir infraestrutura de inteligência artificial, tanto para uso próprio quanto para seus clientes, fez com que seus investimentos em bens de capital disparassem para níveis recordes. A empresa está trabalhando para reformular produtos populares, como o mecanismo de busca, o YouTube e o Gmail, incorporando recursos de IA.

Esses esforços, contudo, ainda não geraram o tipo de receita que os investidores esperam ver para justificar todos esses gastos. A receita total do Google com serviços somou US$ 96,3 bilhões no terceiro trimestre, abaixo da estimativa de US$ 98,4 bilhões.

A receita publicitária do YouTube, de US$ 11,2 bilhões, também ficou abaixo das projeções. Enquanto isso, as apostas do Google em inteligência artificial estão ficando ainda mais caras.

Ao final do terceiro trimestre, os compromissos futuros da empresa para adquirir recursos como capacidade computacional e energia totalizavam US$ 924 bilhões. Obrigações futuras, como contratos de arrendamento de data centers cujos prazos ainda não haviam começado, atingiram US$ 152 bilhões, elevando o total de compromissos futuros da companhia para bem mais de US$ 1 trilhão.

Pelo segundo trimestre consecutivo, a empresa registrou fluxo de caixa livre negativo, algo que, até então, nunca havia ocorrido desde sua abertura de capital. “A busca ainda gera a maior parte do caixa da Alphabet, e dois trimestres consecutivos de fluxo de caixa livre negativo mostram que, neste momento, a equação financeira da IA simplesmente não está funcionando”, afirmou Anders Bylund, analista de tecnologia colaborador do Motley Fool.

Em julho, a Alphabet informou que seus investimentos em bens de capital poderiam chegar a US$ 205 bilhões neste ano, mais que o dobro do valor gasto no ano passado. A inteligência artificial exige enormes quantidades de capacidade computacional, e o Google está correndo para construir data centers a fim de atender à demanda por IA de consumidores, empresas e de seus próprios funcionários.

Os investimentos acionários da Alphabet também pressionaram o resultado final da companhia. Essas participações geraram um prejuízo de US$ 8,7 bilhões, em grande parte devido à posição da Alphabet na SpaceX.

O resultado representa uma reversão acentuada em relação aos ganhos registrados um ano antes e ao resultado extraordinário positivo do segundo trimestre, impulsionado principalmente pela SpaceX e por um investimento em uma empresa de capital fechado que, posteriormente, a Bloomberg identificou como sendo a Anthropic.

O lucro líquido por ação da Alphabet no terceiro trimestre foi de US$ 2,12, ficando muito abaixo da estimativa de US$ 2,99 de Wall Street. Um ponto positivo no relatório foi o Google Cloud, considerado um indicador-chave da demanda pelos produtos de IA e serviços de hospedagem da empresa.

A divisão registrou vendas de US$ 30,7 bilhões e lucro de US$ 11,1 bilhões, superando as estimativas dos analistas, que apontavam para uma receita de US$ 29,1 bilhões e lucro de US$ 9,8 bilhões. Entre os maiores clientes da unidade estão startups como a Anthropic, que competem com o Google na corrida pela IA.

Nos últimos anos, o Google vem trabalhando para reinventar seu mecanismo de busca para a era da IA, tentando manter os consumidores acostumados a confiar em suas respostas, mesmo com os chatbots da OpenAI e da Anthropic se tornando cada vez mais populares. A empresa agora fornece respostas geradas por IA para muitas pesquisas, uma mudança que teve grandes implicações para as empresas que tradicionalmente dependiam do gigante das buscas para obter tráfego e receita publicitária.

O Google tem se empenhado especialmente em construir uma vantagem competitiva ao gerar respostas mais personalizadas às perguntas, aproveitando anos de informações sobre seus usuários. Nos últimos meses, porém, a empresa ficou para trás da Anthropic e da OpenAI no desenvolvimento de ferramentas de programação baseadas em IA.

O Google lançou recentemente o Gemini 4, que, segundo a empresa, se destaca em áreas como programação e segurança cibernética, embora alguns funcionários temam que a empresa ainda não tenha alcançado totalmente o nível dos concorrentes. Poucas horas antes da teleconferência sobre os resultados financeiros, o Google anunciou mais um novo modelo de IA conhecido como Carbon, uma resposta em potencial às críticas que pediam que a empresa acelerasse o ritmo do desenvolvimento de IA.

“Temos mais modelos chegando em breve”, disse Pichai aos analistas durante a teleconferência, “incluindo versões mais eficientes para ajudar os desenvolvedores a otimizar a velocidade e os custos e a implantar em nossos bilhões de usuários”.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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