Durante anos, Francisca Vieira manteve alguns projetos na gaveta. À frente da Natural Cotton Color, empresa paraibana especializada em algodão colorido orgânico, ela queria levar a matéria-prima para segmentos como moda fitness e praia, nos quais a elasticidade é essencial.
Havia, porém, uma contradição que considerava difícil de contornar: combinar um algodão orgânico, que já nasce colorido e dispensa tingimento químico, com um elastano produzido a partir de matéria-prima não renovável. “Saímos procurando vários elastanos.
Encontramos um na Alemanha e, quando fomos olhar, terminava na matéria-prima não renovável. Colocamos os projetos de elastano na gaveta”, conta Francisca.
A solução começou a aparecer neste ano, a partir de uma parceria entre a Natural Cotton Color, a malharia paraibana Texpar e a The LYCRA Company. O resultado são duas novas malhas que combinam o algodão colorido orgânico cultivado no interior da Paraíba, fio que possui 70% de conteúdo bioderivado proveniente do milho.
Algodão colorido da Natural Cotton Color Divulgação
A inovação abre caminho para que o algodão paraibano seja empregado em categorias nas quais antes encontrava limitações técnicas, como roupas fitness e moda praia. A estratégia tem uma ambição adicional: transformar essas categorias em uma maneira de aumentar a demanda pelo algodão cultivado por agricultores familiares no sertão paraibano.
“A gente precisa de um produto que dê escala. O fitness é um produto e a moda praia dá escala para o algodão”, afirma Francisca.
Do milho ao sertão da Paraíba O desenvolvimento do fio renovável é resultado de anos de pesquisa da The LYCRA Company para substituir parte dos insumos de origem fóssil utilizados na fabricação do elastano.
A companhia escolheu o milho como matéria-prima e passou a trabalhar com produtores do estado americano de Iowa. Segundo Maria Luiza Amaro, líder de Marcas e Varejo para a América Latina da The LYCRA Company, um dos desafios era conseguir substituir parte da matéria-prima sem alterar o desempenho do produto.
Francisca Vieira, CEO da Natural Cotton Color Divulgação
O resultado foi um fio com 70% de conteúdo bioderivado e, segundo dados da companhia, uma pegada de carbono até 44% menor do que a do elastano convencional. “Chegamos aos 70% depois que conseguimos trazer um fio que tivesse a mesma performance LYCRA do original”, diz Amaro.
O encontro com o algodão paraibano aconteceu por meio da Texpar. Em uma visita à malharia, há cerca de quatro meses, a executiva conheceu o projeto do algodão colorido e sua cadeia de fornecedores.
A matéria-prima possui certificação orgânica e selo GOTS (Global Organic Textile Standard). Como as fibras já nascem em tons de marrom e bege, elas não precisam passar pelo processo convencional de tingimento, permitindo a confecção uma economia de até 87,5% de água.
Para aprimorar a qualidade das malhas produzidas, a Texpar também investiu cerca de R$ 10 milhões em uma rama industrial, equipamento utilizado no acabamento e estabilização dos tecidos. Maria Luiza Amaro, líder de Marcas e Varejo para a América Latina da Lycra
Divulgação Por trás das novas malhas está uma cadeia que conecta pesquisa, agricultura familiar, indústria têxtil e moda.
O algodão é fornecido pela Itacoop, cooperativa que reúne 90 agricultores familiares de Ingá e outros 11 municípios paraibanos. São atualmente 450 hectares de área produtiva, além de uma usina de descaroçamento e estruturas de armazenamento avaliadas em cerca de R$ 6 milhões.
Desse total, R$ 1,2 milhão veio de empresas privadas participantes do projeto, entre elas Natural Cotton Color, Texpar, Cataguases e Dalila Têxtil. Francisca, filha de produtor de algodão, diz que uma preocupação construída ao longo dos anos foi evitar que os agricultores assumissem o risco de produzir sem ter comprador ao final da safra.
“Muitas vezes algumas marcas chegavam com a promessa de comprar uma safra. Passava um tempo, a marca sumia, não comprava.
E o que se fazia com a família que dedicou tempo e terra?”, diz Amaro. De um produto engavetado à vitrine internacional
As primeiras aplicações comerciais das novas malhas serão apresentadas internacionalmente. Amostras foram levadas à Première Vision Paris, realizada entre 1º e 3 de setembro, enquanto peças desenvolvidas com os tecidos serão apresentadas durante a Semana de Moda de Milão, entre 22 e 28 de setembro.
A ida à Itália faz parte de uma estratégia mais ampla para transformar a exposição internacional em demanda comercial. Francisca afirma que levou cerca de uma década insistindo na internacionalização do algodão colorido.
“Foram dez anos insistindo e persistindo para levar esse produto para o mundo”, diz. Para Amaro, a inovação só fecha seu ciclo quando consegue chegar ao mercado e gerar negócios para os diferentes participantes da cadeia.
“O projeto é construído com pilares de marketing, comunicação e venda. Meu papel é ligar estilistas, marcas e magazines a quem está produzindo o tecido, a malha e o elástico com as nossas tecnologias”, afirma.
“Se não reverberar em venda, a história fica pela metade.” Mais Lidas
Epoca Negócios