Alerj não deve salvar Thiago Rangel e nem planeja analisar prisão
Preso nessa terça-feira (5), pela Polícia Federal, por envolvimento com fraudes na Secretaria de Educação do RJ, o deputado estadual, Thiago Rangel, não conta, nos bastidores, com o mesmo prestígio que salvou vários de seus pares presos nos últimos anos. Político de primeiro mandato, com poucos votos e único representante do Avante na Casa, Thiago Rangel, na avaliação de deputados ouvidos pela coluna, não deverá ser solto pela Alerj.
Em dezembro, o então presidente da Casa, Rodrigo Bacellar (União), foi solto após receber 42 votos favoráveis contra 21. Dessa vez, a avaliação é a de que não há clima para votar a soltura em um cenário de indefinição política, já que o destino do estado está nas mãos do Supremo Tribunal Federal, que dará a palavra final sobre uma eleição direta ou indireta diante da vacância que levou o desembargador Ricardo Couto ao poder. Além disso, há o temor de novas operações da PF contra outros parlamentares — e ninguém quer se indispor com autoridades policiais, sobretudo às vésperas das eleições.
Thiago Rangel foi eleito vereador em Campos dos Goytacazes, em 2020. Era aliado do prefeito Wladimir Garotinho e fazia oposição à família Bacellar, que controlava a Câmara daquela cidade. Uma vez no Rio, eleito com 31 mil votos, em 2022, o parlamentar se aproximou do então presidente da Alerj e se consolidou como um típico deputado do baixo clero: longe dos holofotes e debates mais importantes, focado apenas na manutenção de sua influência local.
Na investigação que levou Thiago Rangel à prisão, a PF faz uma radiografia da distribuição de cargos no Rio de Janeiro. A análise parte de uma planilha encontrada com o ex-chefe de gabinete de Bacellar, Rui Bulhões, também preso ontem, que continha, de forma sistematizada, a relação de deputados estaduais acompanhada de campos denominados “o que tem” e “o que está pedindo”. O documento é de 2023, mas é um resumo de como Bacellar operava nos bastidores para distribuir cargos públicos.
Thiago Rangel possuía a indicação da Superintendência Regional de Campos dos Goytacazes do Instituto de Pesos e Medidas (IPEM/RJ), mas expandiu sua atuação à medida que Bacellar avançou dentro do governo Cláudio Castro. Quando o presidente da Alerj emplaca a indicação de Roberta Barroso para a Secretaria de Educação, em março de 2023, Rangel consegue um espaço para indicar nomes para a Diretoria Regional de Educação Noroeste, área responsável por 13 municípios, 57 escolas e cerca de 3,2 mil servidores.
Thiago Rangel indicou Júcia Gomes de Souza Figueiredo, que se torna diretora do posto e, segundo a PF, é ela quem viabiliza “as fraudes e o desvio de recursos públicos”. Em uma mensagem interceptada e anexada aos autos, em que o deputado trata de possíveis desvios em obras de escolas, ele diz a Júcia:
“Continua aí do jeito que você tem que estar, tá ok? Tudo que acontecer dentro da regional eu quero saber. Já avisei ao Marcelo agora aqui, eu não tenho que dar satisfação a ninguém. Porque o deputado sou eu, a indicação é minha e quem manda sou eu.”
Para a PF, “a declaração evidencia que a nomeação de Júcia para o referido cargo decorreu de indicação direta do parlamentar, o qual reafirma exercer controle hierárquico e poder decisório sobre suas ações. Assim, resta demonstrada a ingerência do deputado nas tratativas e na condução administrativa dos envolvidos”.
Em nota, a defesa do deputado se disse surpresa. "O parlamentar nega a prática de qualquer ilícito e prestará todos os esclarecimentos necessários nos autos da investigação. Neste momento, a defesa está se inteirando dos fatos para entender as medidas determinadas, reafirmando sua plena confiança no devido processo legal. Por fim, alertamos que qualquer conclusão antecipada, antes do acesso integral ao processo, é indevida."
