Além de Flávio Bolsonaro, investigação da PF sobre lavagem de dinheiro atinge Cláudio Castro e Ramagem

Além de Flávio Bolsonaro, investigação da PF sobre lavagem de dinheiro atinge Cláudio Castro e Ramagem - Foto
Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O inquérito instaurado pela Polícia Federal para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado Willer Tomaz expandiu seu escopo para analisar também a conduta de outros dois nomes de relevância política do PL fluminense: o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro e o ex-deputado federal Alexandre Ramagem, informa a Folha de São Paulo.

Originada a partir de apurações sobre o mercado de apostas de quota fixa, as chamadas bets, a investigação alcançou a corte superior em razão da citação ao senador Flávio Bolsonaro, tendo o ministro Alexandre de Moraes designado por sorteio para a relatoria do processo no Supremo Tribunal Federal (STF).

O centro das apurações envolve operações ligadas a Willer Tomaz, profissional do direito que mantém relação pessoal com o parlamentar e que também figura como investigado em um inquérito distinto sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Willer detém o controle da Rede Loto, primeira operadora de apostas autorizada no território nacional, cujo aval de funcionamento foi concedido pela administração estadual do Rio de Janeiro em maio de 2023.

No material enviado ao STF solicitando a abertura dos procedimentos, a corporação policial detalha indícios de ilegalidade em um certame promovido pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro em 2022. O processo licitatório foi vencido pela empresa Pixs Cobrança, atualmente denominada RioPag. Documentos e registros de viagens recuperados pelos investigadores nos arquivos do advogado apontam vínculos de proximidade pessoal entre ele e o ex-governador Castro, que esteve à frente do Executivo fluminense de maio de 2021 a março de 2026.

Conforme a tese da Polícia Federal, Tomaz seria o proprietário de fato da Pixs/RioPag. A licitação ocorreu sob a gestão de Hazenclever Lopes na presidência da Loterj — nome indicado ao cargo por escolha do então governador e que já possuía ligações profissionais e proximidade prévia com o advogado.

O histórico da disputa mostra que a empresa associada a Tomaz propôs repassar 20% da sua receita à autarquia, frente aos 26% apresentados pela única concorrente do certame. Esta última acabou eliminada sob a justificativa de apresentar a taxa com duas casas decimais, contrariando a exigência editalícia de três casas. Sem competidores no pleito, a Pixs realizou negociações diretas com a entidade e reajustou sua proposta final para 26,455%.

Em relação a Alexandre Ramagem — que esteve à frente da Agência Brasileira de Inteligência durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) e teve seu mandato parlamentar cassado no último mês de dezembro após condenação no STF a 16 anos e um mês de reclusão por tentativa de golpe de Estado —, os investigadores identificaram pagamentos no total de R$ 270 mil, fracionados em três parcelas de R$ 90 mil.

Embora o ex-deputado, que se encontra nos Estados Unidos desde o ano passado, não figurasse como favorecido direto nas transferências bancárias, os valores foram creditados à empresa Torre Comunicação Estratégica. A Polícia Federal trabalha com a hipótese de que Ramagem era o destinatário final de tais recursos.

O desdobramento das buscas policiais também trouxe à tona movimentações financeiras no segmento de apostas e viagens internacionais. A empresa controlada por Willer Tomaz intermediou a aquisição de passagens e custeou deslocamentos aéreos de Flávio Bolsonaro para a Europa durante o ano de 2025, cobrindo despesas de caráter privado dos núcleos familiares de ambos. Adicionalmente, dados obtidos pela apuração revelaram que o senador manteve acesso operacional como usuário principal de uma conta bancária vinculada à empresa offshore Alcazar Holding, sediada no exterior e pertencente ao advogado, condição que permaneceu ativa até maio de 2025, quando sua remoção foi solicitada.

Por meio de nota oficial, a defesa de Willer Tomaz declarou que o advogado tomou conhecimento das apurações exclusivamente através dos meios de comunicação, não tendo obtido acesso prévio aos autos, o que já foi solicitado juridicamente. O texto assinala que a relação com a família do senador é estritamente de amizade e que seus patrimônios e participações societárias estão devidamente declarados aos órgãos fiscais. A nota questiona a divulgação de documentos sigilosos a poucos dias da votação em segundo turno e ressalta que a própria Polícia Federal não apontou qualquer ingerência direta do advogado na inabilitação da empresa concorrente na licitação da Loterj.

A assessoria do ex-governador Cláudio Castro confirmou a existência de amizade com Willer Tomaz desde 2020, mencionando atuação jurídica pontual do advogado em sua defesa pessoal sem a cobrança de honorários. A nota esclarece que, em viagens conjuntas, cada participante assumia seus próprios custos e de familiares. Castro afirmou desconhecer qualquer ligação de Tomaz com a Pixs/RioPag ou com o ex-presidente da Loterj, ressaltando que a indicação de Hazenclever decorreu de composição política com o PL e que a autarquia detém autonomia administrativa, sem participação do ex-governador nos atos licitatórios.

A empresa Torre Comunicação Estratégica informou ter prestado serviços de assessoria de imprensa, treinamento de mídia e planejamento estratégico para o escritório de advocacia de Willer Tomaz e Eugênio de Aragão, tendo como cliente final Alexandre Ramagem durante sua pré-candidatura à Prefeitura do Rio de Janeiro, com a devida emissão de notas fiscais relativas aos três pagamentos de R$ 90 mil.

A equipe da campanha de Flávio Bolsonaro não encaminhou posicionamento sobre as novas revelações, mantendo a manifestação prévia de que a relação entre o senador e o advogado resume-se à amizade. A defesa de Alexandre Ramagem e o ex-presidente da Loterj Hazenclever Lopes não apresentaram resposta aos contatos da Folha de São Paulo.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site Brasil 247