Usado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para apontar “fortes indícios” de irregularidades na atuação do colega de Corte André Mendonça, um relatório de inteligência da Polícia Federal reúne acusações e hipóteses que vão de uma tentativa de atingir o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a uma suposta interferência na corporação e nas negociações de acordos de colaboração premiada. O documento, que não é assinado, também compara o tratamento dado por Mendonça a diferentes políticos investigados e relata manifestações de desconfiança em relação ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Parte das conclusões, porém, vem acompanhada de ressalvas no próprio relatório. Moraes usou o material em uma decisão enviada ao presidente do STF, Edson Fachin, na última quinta-feira, em meio à escalada da crise com Mendonça. O despacho foi uma reação à divulgação de mensagens trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e Moraes, tornadas públicas por decisão de Mendonça dois dias antes. Após o documento vir à tona, Mendonça enviou a aliados e líderes religiosos um vídeo em que agradece as mensagens de “apoio, orações e carinho” recebidas nos últimos dias. A gravação circulou entre apoiadores nesta sexta-feira e foi compartilhada por políticos de direita. Veja os principais pontos: Alcolumbre como possível alvo Um dos trechos levanta a hipótese de que uma investigação sobre o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, poderia ser usada como caminho para chegar a Davi Alcolumbre, do mesmo partido. O texto recupera o histórico de atritos entre Alcolumbre e Mendonça desde 2021, quando o senador presidia a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e levou mais de quatro meses para marcar a sabatina do então indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro ao Supremo. Em um tópico intitulado “Hipótese de estratégia de recomposição de forças no Tribunal”, o relatório afirma que Alcolumbre “constitui provável alvo estratégico” e relaciona essa possibilidade à influência do presidente do Senado sobre futuras indicações ao STF. A análise, contudo, apresenta explicações alternativas para os fatos e atribui grau baixo de confiança à hipótese de uma “convergência ideológica sem coordenação estratégica”, considerada “difícil de afastar”. Prazos diferentes para políticos investigados O relatório compara o tempo levado por Mendonça para analisar pedidos da PF envolvendo diferentes políticos. Uma medida relacionada ao senador Jaques Wagner (PT-BA) levou nove dias entre a representação policial e a decisão do ministro. No caso de Ciro Nogueira (PP-PI), foram 29 dias. Já uma medida envolvendo o ex-governador do Rio Cláudio Castro levou 75 dias. A partir dos dados, o texto afirma que a “dispersão é expressiva” e “sugere correlação entre tempo de apreciação e perfil do investigado”. Ressalva, porém, que a série é “pequena e não controlada” e que fatores como complexidade das medidas, recesso e tempo de vista à PGR podem explicar as diferenças. Por isso, atribui grau de confiança baixo à comparação, diante de uma amostra “reduzida e seletiva, com variáveis de confusão não controladas”. Participação em tratativas de delação O documento também questiona a atuação de Mendonça em negociações de colaboração premiada relacionadas às operações Sem Desconto, sobre as fraudes no INSS, e Compliance Zero, sobre o Banco Master. O texto afirma que o ministro apresenta “comportamento participativo nas tratativas de colaboração premiada” e relata que teria perguntado, em reuniões, sobre o estágio das negociações e “os elementos que estariam sendo trazidos pelos pretensos colaboradores”. Na avaliação do relatório, essa atuação poderia avançar sobre uma etapa que cabe às autoridades responsáveis pela negociação dos acordos. O documento cita ainda uma audiência concedida a um advogado de investigado interessado em colaborar, mas ressalva que “a concessão de audiência a advogado não é, em si, vedada”. Atritos com Andrei e Gonet Outro trecho relata manifestações atribuídas a Mendonça sobre o diretor-geral da Polícia Federal e o procurador-geral da República. Segundo o relatório, o ministro teria afirmado que Andrei Rodrigues mantém “proximidade inadequada com o Presidente da República” e que, por isso, “não seria possível confiar nele”, além de mencionar a possibilidade de afastá-lo. Em relação a Gonet, Mendonça teria apontado uma proximidade com Gilmar Mendes que o tornaria “indigno de confiança” e cogitado arrolá-lo como testemunha em processos derivados das operações. O documento ressalva que essas informações dependem integralmente de relatos não reduzidos a termo. Acusações de interferência na PF O relatório reúne ainda críticas à forma como Mendonça passou a supervisionar as investigações do INSS e do Banco Master. Entre elas estão determinações para que mudanças nas equipes fossem previamente comunicadas ao gabinete, acesso direto ao material bruto das operações e interferências no fluxo interno de análise da corporação. Em um dos trechos, afirma que o ministro estaria exercendo “poderes típicos de presidência da investigação, e não de supervisão judicial”. Informações sem valor de prova O próprio documento faz ressalvas sobre as informações reunidas. No cabeçalho, é classificado como “documento de trabalho”, de “difusão restrita” e “sem valor probatório”. O relatório diferencia informações documentadas, baseadas em registros; reportadas, obtidas a partir de relatos de servidores; e avaliadas, que correspondem a juízos do analista. Também atribui graus de confiança às conclusões. Essa classificação aparece justamente em algumas das principais suspeitas levantadas contra Mendonça. A hipótese sobre o direcionamento de investigações recebe grau baixo de confiança, enquanto manifestações atribuídas ao ministro sobre integrantes da PF e da PGR dependem de relatos que não foram formalizados.
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Alcolumbre, delações e pressão sobre a PF: entenda em seis pontos o relatório apócrifo usado por Moraes contra Mendonça
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O Globo
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