Para Lorice Scalise, CEO da Roche Brasil, inteligência artificial não é onda de curto prazo, mas alavanca estratégica Gabriel Reis/Valor
“O agente de inteligência artificial do futuro será parecido com a minha tia Luiza”, diz Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza. O executivo faz referência à tia-avó, Luiza Trajano Donato, que fundou a rede em 1957, em Franca, no interior paulista.
Segundo Trajano, ela conhecia tão bem os clientes que, às vezes, mandava produtos para a casa deles sem que tivessem pedido. Ele vê o comércio agêntico, e-commerce onde agentes de inteligência artificial autônomos realizam a jornada de compra em nome do consumidor, como a terceira grande revolução tecnológica do varejo, depois da internet e do smartphone.
Para o CEO, o sistema vai mudar não apenas a forma como as pessoas compram, mas também como vivem. “Daqui a algum tempo, a gente vai falar mais com seres de IA do que com humanos”, afirma.
No fim de 2025, o Magalu lançou o WhatsApp da Lu, uma experiência pioneira de agentic commerce. O projeto, com uma arquitetura baseada em multiagentes de IA, já gerou mais de 9 milhões de conversas.
No atendimento, a força de trabalho é híbrida: os funcionários trabalham em conjunto com os agentes, mas são os humanos que estabelecem as diretrizes operacionais, o tom de voz, as políticas de privacidade e as travas de segurança para garantir que a persona da Lu responda de forma ética e precisa.
Na hora de avaliar se o atendimento foi bom, a IA faz a primeira análise e define um score. Onde há grandes desvios, o funcionário responsável estuda a questão e dá um feedback para a IA, o que serve para melhorar as conversas seguintes, segundo a empresa.
“Ainda estamos no começo dessa revolução”, diz Trajano. “Mas tenho certeza de que vai ser avassaladora.”
O CEO não está sozinho. Para alguns, os agentes de IA - sistemas baseados em grandes modelos de linguagem, projetados para realizar tarefas de forma autônoma - representam um novo paradigma que irá mudar para sempre as relações de trabalho.
Outros acreditam que estamos vivendo a maior transformação organizacional desde as revoluções industrial e digital. Embora sua disseminação ainda seja recente e restrita a grandes empresas e startups, os agentes de IA já estão causando um barulho considerável no mundo corporativo.
Explica-se: enquanto a IA generativa funcionava apenas como ferramenta, respondendo questões ou auxiliando em tarefas, eles vão muito além: acessam sistemas, executam etapas, tomam decisões e só recorrem ao ser humano quando encontram algo que não conseguem solucionar. Ainda estamos no começo dessa revolução, mas tenho certeza de que vai ser avassaladora”
“Não olhamos para a inteligência artificial como uma onda de eficiência de curto prazo, mas como uma alavanca estratégica para nossa missão: acelerar o acesso à inovação em saúde para os pacientes brasileiros”, afirma Lorice Scalise, CEO da Roche Farma Brasil. “A IA agêntica representa um salto de maturidade, mas exige uma liderança intencional e ética para conduzir essa transformação”, diz a executiva.
Lorice avalia que, para extrair o valor real dos agentes de IA, as empresas precisam evoluir seus ecossistemas de dados, garantir uma governança robusta e, acima de tudo, preparar as pessoas. “Na Roche, já trabalhamos com agentes descentralizados, que atuam no mapeamento de gargalos na jornada do paciente, na extração e análise de dados, na geração e revisão de códigos até na otimização de pesquisas clínicas”, afirma a CEO.
Existe ainda um agente, chamado Alex, voltado ao desenvolvimento de carreira dos funcionários. Segundo Marilia Ribeiro, líder de pessoas e cultura da empresa, a diferença em relação às ferramentas genéricas é a capacidade de cruzar dados internos da companhia - inacessíveis a um modelo comercial - com o plano de desenvolvimento de cada empregado, orientando o treinamento específico de cada um.
Na área de tecnologia do Bradesco, mais de 5 mil profissionais são apoiados por agentes de IA. Atualmente, a Bia Tech AgentiX, plataforma interna do banco voltada para a orquestração dessa tecnologia, reúne 70 agentes especializados, voltados para atividades como engenharia reversa, geração de documentação, modernização tecnológica, avaliação automatizada de mudanças e análises de incidentes.
Segundo Silvana Machado, diretora executiva de pessoas e sustentabilidade do Bradesco, os indicadores ajudam a mostrar a transformação. “Já observamos um crescimento de 69,5% de eficiência na escrita de histórias para engajar funcionários, 85% de acurácia na criação de testes automatizados e redução de até 95% no tempo dedicado à leitura e análise de documentos em determinados processos”, relata.
Para chegar a esses números, o banco investiu em capacitação. Mais de 10 mil funcionários já foram impactados pelas iniciativas de aprendizagem de IA em 2026, diz a executiva.
“A jornada vai desde o primeiro contato com a tecnologia até sua aplicação estratégica”, afirma.
Valor