A História provou que os Estados Unidos e o Brasil foram capazes de manter uma relação respeitosa e profícua mesmo diante de acentuadas divergências entre ambos. Desde o início de 2025, com a posse de Donald Trump na Casa Branca em seu segundo mandato, tal façanha parece exaurida. O diálogo bilateral gradualmente desandou até alcançar uma crise que pune, sobretudo, os setores exportadores brasileiros aos EUA. As eleições presidenciais no Brasil, em outubro, não garantem sua superação definitiva. Agenda Global: EUA emitem sinais econômicos contraditórios que geram incertezas globais Veja também: Fórum em Nova York debate oportunidades econômicas para o Brasil — As chances de o futuro governo brasileiro, seja qual for, convencer Trump a reduzir ou extinguir o tarifaço contra os produtos do Brasil são remotas — avalia Oliver Stuenkel, pesquisador senior do Carnegie Endowment for International Peace e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo. — Primeiro, porque o protecionismo dos EUA veio para ficar e há dúvidas sobre sua reversão por um eventual governo democrata a partir de 2029. Segundo, porque a transformação da relação bilateral não depende do posicionamento ideológico dos dois presidentes, mas de questões estruturais. Sem negociações Ao tarifaço de julho passado, consolidado na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, somaram-se os desentendimentos entre Trump e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva sobre a política de segurança hemisférica pretendida pela Casa Branca e as rusgas ideológicas potencializadas pelo secretário de Estado, Marco Rubio. — O conflito comercial foi aparentemente desbloqueado na conversa de agosto entre Lula e Trump, embora não tenha resultado em uma negociação bilateral — resume Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice). — O político-diplomático, porém, mantém-se vivo. Agenda Global 2026: Países e empresas debatem limites da inteligência artificial e riscos para a Humanidade O Ministério das Relações Exteriores afirma haver diálogo bilateral fluido, mesmo depois da decisão americana de revogar o visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti no início de agosto. Mas não se arrisca a prever a conclusão de um acordo. — A divergência entre Brasil e EUA não é exclusiva ao atual período — lembra um diplomata que acompanha a crise. Posicionamento firme Para Barbosa, não há chances de ambos os lados firmarem um acordo neste ano. Conforme explica Stuenkel, Lula já rejeitou as exigências de Trump de total abertura do Brasil aos produtos americanos e de afastar a China dos minerais críticos brasileiros. Se reeleito, manterá suas decisões. Tampouco a vitória da oposição facilitará a entrega aos EUA dessas e outras concessões, como a adoção de uma regulação amigável sobre as Big Techs, nem mesmo no caso de eleição de Flávio Bolsonaro, o candidato da direita que sinaliza com o alinhamento automático de Brasília a Washington. — A Presidência de Jair Bolsonaro, que coincidiu com o primeiro mandato de Trump por dois anos, provou que o potencial de transformação da relação Brasil-EUA é reduzido — afirma Stuenkel. Contexto: Representantes de Lula e Trump se reúnem nos EUA para discutir tarifaço Setores produtivos atingidos pelo protecionismo americano, porém, apostam em um acordo bilateral firmado por Lula e Trump neste ano. Os interesses dos EUA no Brasil, minerais críticos, data centers e propriedade intelectual moveriam aceleradamente as negociações. — Mesmo em um momento de maior complexidade na relação bilateral, há espaço para avançar, por meio do diálogo e de uma agenda pragmática, e produzir resultados de interesse dos dois países — avalia Abrão Neto, presidente da Câmara Americana de Comércio no Brasil (Amcham). Entenda: Regulação da inteligência artificial vira disputa entre EUA, China e União Europeia A Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Calçados (Abicalçados) pleiteia, ao menos, a inclusão do setor na lista de exceção. Desde julho, seus exportadores estão sujeitos à sobretaxa de 37,5% para ingressar nos EUA e à concorrência nesse mercado com asiáticos, alvo de um adicional de 12,5%. — A retomada das conversas será positiva para nós. O calçado brasileiro não faz parte da problemática dos EUA — afirma Priscila Linck, economista da Abicalçados. Expectativa negativa Segmentos brasileiros de máquinas e equipamentos foram igualmente sobretaxados em 37,5%. Segundo José Velloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), não houve racionalidade na aplicação da Seção 301 contra o Brasil e, menos ainda, contra o setor. — Como 82% das nossas vendas dão-se entre companhias do mesmo grupo empresarial, a sobretaxa será repassada aos preços finais dos produtos americanos. Leia mais: A nova corrida pelo poder da inteligência artificial Incólume à Seção 301, o setor siderúrgico brasileiro espera a retomada do acordo bilateral que o aliviou das medidas protecionistas adotadas por Trump a todos os exportadores de aço aos EUA em 2018. Segundo Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Instituto Aço Brasil, o acerto foi demolido desde a imposição da sobretaxa de 50%, em meados de 2025. — O governo brasileiro tem mantido interlocução com as autoridades americanas. Mas estamos a reboque da melhoria do clima bilateral para a negociação — afirmou. No entanto, a ausência de uma conversa entre Lula e Trump às margens da sessão de abertura da Assembleia Geral da ONU, no último dia 22, emitiu um mau sinal. A declaração de Lula, em Nova York, de que o Brasil retaliará as importações dos EUA se não houver um acordo e a ameaça de Trump, no púlpito da ONU, de usar o poderio militar americano contra os cartéis da América Latina, em nada favorecem o início de uma negociação no fim deste mês, durante o encontro do G20 em Milwaukee, nos EUA.
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Agenda Global: Crise entre EUA e Brasil não deve se dissipar com eleição brasileira
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