247 – Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel e alvo de acusações internacionais de crimes de guerra e de responsabilidade pelo genocídio do povo palestino na Faixa de Gaza, recebeu uma manifestação explícita de apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a oito dias das eleições parlamentares israelenses. Em conversa telefônica divulgada nesta segunda-feira (19), Trump previu uma vitória expressiva de seu aliado, enquanto Netanyahu o classificou como o melhor amigo que Israel já teve na Casa Branca.
As informações foram publicadas pela Agence France Presse (AFP), e reproduzidas pela Folha de S.Paulo. A ligação, filmada e transmitida em viva-voz, expôs a proximidade entre os dois dirigentes em um momento em que Netanyahu tenta permanecer no poder após quase três anos de destruição na Faixa de Gaza, confrontos militares em diferentes países do Oriente Médio e crescente contestação internacional à atuação de seu governo.
“[Você é] o melhor amigo que Israel já teve e terá na Casa Branca. E toda a nossa civilização se sente encorajada pela sua coragem. Donald, temos uma missão a cumprir. Você disse isso, e vamos cumpri-la juntos”, afirmou Netanyahu durante a conversa.
O premiê também descreveu Trump como um “líder incrível do mundo livre”. O presidente estadunidense, por sua vez, chamou Netanyahu de “grande guerreiro”, reforçando o apoio político a um governante cuja atuação militar na Faixa de Gaza provocou denúncias de graves violações do direito internacional humanitário.
Netanyahu enfrenta acusações internacionais por crimes em Gaza
A campanha eleitoral israelense ocorre sob o peso das consequências da guerra desencadeada após os ataques de 7 de outubro de 2023, liderados pelo Hamas. A resposta militar de Israel provocou destruição generalizada na Faixa de Gaza, deslocamento forçado de grande parte da população palestina e uma catástrofe humanitária.
Netanyahu é alvo de um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), em novembro de 2024, por suspeitas de crimes de guerra e crimes contra a humanidade relacionados à condução da ofensiva israelense em Gaza. Entre as acusações examinadas pelo tribunal estão o uso da fome como método de guerra e a responsabilidade por ataques contra a população civil.
Israel também enfrenta, na Corte Internacional de Justiça (CIJ), uma ação apresentada pela África do Sul sob a acusação de violar a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio. O processo diz respeito à atuação do Estado israelense, enquanto o procedimento do TPI envolve a responsabilidade criminal individual de dirigentes. Não há uma sentença definitiva da CIJ reconhecendo a responsabilidade de Israel por genocídio.
As acusações internacionais se tornaram parte central do debate sobre a permanência de Netanyahu no governo. Apesar da pressão diplomática e das denúncias de organizações de direitos humanos, o premiê mantém o apoio de Trump, que tem sido um dos principais sustentáculos internacionais de Israel.
Aliança com Trump reforça apoio político ao premiê
O respaldo de Trump a Netanyahu foi manifestado inicialmente no domingo (18), quando o presidente estadunidense publicou uma mensagem na Truth Social descrevendo o aliado como “forte, corajoso e brilhante diante de uma oposição tremenda”. Na mesma publicação, chamou o premiê de “guerreiro e parceiro pela paz”.
Os elogios contrastam com a situação jurídica internacional de Netanyahu. O Tribunal Penal Internacional mantém um mandado de prisão contra o primeiro-ministro, expedido em novembro de 2024. Os juízes identificaram fundamentos razoáveis para suspeitar de sua responsabilidade por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo assassinatos, perseguição e privação de alimentos da população civil.
A parceria entre os dois governos também se expressou na guerra contra o Irã, iniciada em fevereiro com ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel. A ofensiva matou o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, e aprofundou a instabilidade regional.
Netanyahu reiterou nesta segunda-feira que Israel conserva capacidade militar para atacar seus adversários a qualquer momento, sinalizando a continuidade de uma política de confrontação regional.
Eleições podem definir futuro político de Netanyahu
O primeiro-ministro enfrentará nas urnas, em 27 de outubro, a primeira eleição parlamentar israelense desde os ataques de 7 de outubro de 2023. A votação ocorre depois de um período marcado pela devastação de Gaza e pela expansão dos conflitos envolvendo Israel, Líbano e Irã.
Aos 76 anos, Netanyahu é o governante que permaneceu por mais tempo no comando de Israel. Desde sua primeira eleição, em 1996, acumulou mais de 18 anos no cargo, em diferentes mandatos, e atualmente lidera uma coalizão formada por partidos da direita e da extrema direita.
As pesquisas eleitorais apontam dificuldades para a formação de uma maioria parlamentar. Nem o bloco governista nem a oposição aparecem com perspectiva clara de alcançar as 61 cadeiras necessárias para controlar o Knesset, o Parlamento israelense.
Nesse cenário, partidos árabes israelenses podem exercer influência decisiva nas negociações para a formação de um novo governo.
Apesar do apoio de Trump, o efeito de sua intervenção na campanha permanece incerto. A popularidade do presidente estadunidense entre os israelenses diminuiu diante de divergências sobre a política em relação ao Irã.
Trump também enfrentará teste eleitoral nos Estados Unidos
O apoio ao premiê israelense ocorre às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, previstas para novembro. A votação renovará toda a Câmara dos Representantes e aproximadamente um terço do Senado.
O resultado poderá alterar o equilíbrio de forças no Congresso e impor obstáculos à agenda política de Trump durante a segunda metade de seu mandato.
A proximidade entre os dois líderes evidencia a continuidade da aliança entre Washington e Tel Aviv, mesmo diante das acusações internacionais relacionadas à destruição da Faixa de Gaza. Para Netanyahu, o apoio estadunidense representa um recurso político importante na tentativa de permanecer no poder, enquanto segue submetido a questionamentos internacionais sobre sua responsabilidade pela guerra e pelo sofrimento imposto à população palestina.
Brasil 247