Acordo entre traficantes permite que CV use favela em Realengo, na Zona Oeste, como corredor para invadir territórios rivais
Um acordo firmado entre traficantes de facções rivais garantiu ao Comando Vermelho (CV) o direito de usar uma favela controlada pela Amigos dos Amigos (ADA) como corredor para facilitar seu avanço rumo a territórios das zonas Oeste e Sudoeste. A informação sobre a aliança foi descoberta pela Polícia Civil a partir da interceptação de uma troca de mensagens entre Carlos da Costa Neves, o Gardenal, principal braço operacional do CV, e um miliciano. Segundo dados de inteligência da corporação, até março, a maior facção do Rio estava presente em 1.283 favelas, morros e conglomerados do estado.
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Gardenal tem contra si, de acordo com o site do Conselho Nacional de Justiça, 17 mandados de prisão expedidos pelo Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ). No diálogo com o aliado paramilitar, ele pede ajuda para montar uma base para promover ataques à Favela de Antares, em Santa Cruz, na Zona Oeste, controlada por outra milícia. Ele menciona ainda que já tem livre acesso à comunidade Jardim Novo, em Realengo, favela cujo tráfico é comandado por Lucas Apostólico da Conceição, o Índio. O suspeito está com a prisão decretada pela Justiça e é considerado foragido.
“Jardim Novo. Posso entrar a hora que eu quiser”, escreveu Gardenal em um trecho da conversa, que ocorreu em setembro de 2025. “Lá é o Índio. Vi ele ainda menor. Bom de bala”, respondeu o miliciano. Investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) revelam que o acordo garantiu ao CV o uso de um corredor de passagem para realizar ataques a pontos controlados por milicianos e por traficantes rivais do Terceiro Comando Puro (TCP), em comunidades localizadas em Bangu, Campo Grande e Santa Cruz, na Zona Oeste, além de uma saída para Taquara, Praça Seca e Itanhangá, onde fica a Favela Rio das Pedras — uma das mais cobiçadas pelo Comando Vermelho, mas que ainda está sob domínio de uma milícia. Estas na Zona Sudoeste.
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Todos na Zona Oeste
Em troca do uso do Jardim Novo, o traficante Índio recebeu a promessa de não ser atacado pelo grupo de Gardenal, passando a desfrutar da estrutura do CV para proteger seus negócios.
— A investigação evidencia indícios da existência de um corredor criminoso usado por organizações criminosas distintas. A ADA teria a garantia de não ser atacada. Já o CV usaria o local como base ou passagem para favelas da Zona Oeste — explicou o delegado Alamberg Medeiros Miranda, da DRE.
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Segundo a polícia, a Zona Oeste é a única região da capital onde há presença simultânea dos quatro grupos criminosos: CV, TCP, milícia e ADA. Esta última, a menor, controla territórios em Padre Miguel e em Realengo.
No dia 10 de abril, policiais da 44ª DP (Inhaúma) realizaram uma operação no Jardim Novo para cumprir 24 mandados de prisão contra integrantes da facção. O local é considerado estratégico por fazer divisa com a Taquara e por estar próximo a vias que dão acesso à Cidade de Deus, área dominada pelo Comando Vermelho. Seis pessoas foram presas, mas Lucas Apostólico conseguiu escapar.
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O grupo chefiado por Índio também é apontado em um processo que tramita na 20ª Vara Criminal como responsável por torturar três mulheres dentro de um ferro-velho, na comunidade da Light, em Realengo. O caso aconteceu em 3 de janeiro deste ano e terminou com a morte de Naysa Kayllany da Costa Borges Nogueira.
A vítima trabalhava no ferro-velho durante o período noturno. Ela estava com uma amiga quando foi atacada por um grupo de mulheres ligado ao chefe do tráfico do Jardim Novo. As suspeitas foram recolher um montante em dinheiro e verificaram que faltava uma parte da quantia. A vítima e a amiga foram levadas para o alto da comunidade e torturadas. Foram espancadas com pedaços de madeira, fios e pontapés.
A sobrevivente pediu que uma pessoa levasse a quantia em dinheiro que faltava até o local onde estava sendo torturada. Pouco depois da entrega, as duas foram liberadas. Muito machucada, Naysa procurou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Magalhães Bastos, mas não resistiu aos ferimentos.
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Chefe longevo
Apontado na investigação como um dos chefes da ADA, Celso Luís Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém, chegou a ter a prisão pedida pela polícia por essa morte. A solicitação, no entanto, foi rejeitada pelo juiz. O magistrado decretou a prisão de outras seis pessoas suspeitas de integrar o tráfico no Jardim Novo.
Celsinho chegou a ser preso em 8 de maio de 2025 pela Polícia Civil, durante operação na Vila Vintém, em Padre Miguel, na Zona Oeste. Segundo investigações, o fundador da facção Amigos dos Amigos (ADA) aliou-se a chefes do Comando Vermelho (CV) em disputas territoriais para retomar comunidades na Zona Oeste.
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Em maio do mesmo ano, a defesa de Celsinho conseguiu habeas corpus, e ele passou a responder à acusação em liberdade. Patrono da escola de samba Unidos de Padre Miguel, já foi o bandido mais procurado do Rio nos anos 1990. Ficou preso por 25 anos por tráfico, formação de quadrilha e homicídios. Quando saiu da cadeia, em outubro de 2022, aos 61 anos, disse que não voltaria ao crime.
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