Açaí a R$ 40 em Belém reflete impacto da entressafra na oferta do fruto

 

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O preço do alimento mais tradicional dos paraenses está custando cerca de R$ 40 o litro do tipo de médio nos pontos de venda da cidade, um aumento de aproximadamente 66%, em comparação ao valor no período normal, de em média R$ 24. Segundo os vendedores, o valor é reflexo da entressafra do produto, quando a baixa oferta do fruto nas feiras, o que também tem pressionado o bolso dos comerciantes. A lata do açaí, que normalmente sai a R$ 120 no período normal, está sendo comercializada a R$ 300 durante a escassez.


O vendedor de açaí Heron Amaral Rocha, de Belém, descreve muita dificuldade na hora da compra dos paneiros de açaí, tendo que recorrer a diferentes fornecedores e origens distintas do produto. Nesse movimento, o volume de açaí adquirido para revenda, normalmente de cerca de 18 latas, reduz expressivamente conforme a oferta do fruto. Isso, somado ao preço do produto final mais elevado tende a afetar o lucro do comerciante, mesmo com a adesão positiva dos consumidores.


“Em média, adquirimos entre 16 a 18 latas por dia. Nos finais de semana, costumamos aumentar esse volume em aproximadamente 30%. Hoje, consegui comprar 18 latas, mas com muito esforço, comprando pequenas quantidades de diferentes fornecedores, para conseguir o volume necessário”, avalia Rocha.


Na Feira do Açaí, onde o produto é comercializado antes da revenda nos pontos, a lata, que rende 14 litros de açaí, com o fruto que vem das ilhas próximas custa em média R$ 120 no período de fartura, um aumento de aproximadamente 150%, em comparação com o preço atual de R$ 300. O cenário é ainda mais expressivo no caso dos paneiros, que rendem de 35 a 45 litros de açaí, e estão sendo comercializados em média a R$ 600, contra R$ 100 praticados anteriormente.


“Outro problema é que, às vezes, mesmo comprando um paneiro menor, a produtividade do fruto é baixa e o preço aumenta drasticamente, chegando a 300%. Não há uma tabela fixa, cada fornecedor pratica o preço que considera adequado. Para manter um preço acessível, alguns comerciantes vendem o açaí com uma margem de lucro menor, dependendo da região. Felizmente, nosso público tem aceitado os preços praticados”, explica o comerciante.


Em outro ponto de venda de Belém, os preços variaram entre R$ 50 no fim de semana e se estabilizaram em R$ 40 até hoje, mas o propietário do ponto Anderson Alex descreve dificuldade com o fornecimento. “Hoje, apenas dois fornecedores estavam disponíveis. O preço atual do açaí é de R$180,00”, afirma. Segundo ele, há opções de açaí vindos de outros estados, o chamado açái gelado, mas a distância prejudica a qualidade do produto até a chegada na capital paraense.


Consumo


A terapeuta ocupacional Erica Cardoso, natrural de Belém, mas que vive fora doe stado atualmente, chegou na última quinta-feira (02) na cidade e se deparou com o litro do açaí custando R$ 35. Hoje, com o aumento repentino, ela descreve o valor como “absurdo”, mas não abre mão de consumir o fruto do jeito tradicional, para relembrar os costumes.


“Quando cheguei aqui, na quinta-feira, o valor era 35. Ontem, creio que começou a aumentar, pelo menos na região onde meus pais moram, próximo ao bairro do Marco. Achei um absurdo, não é possível. Saímos de longe para, obviamente, saborear o açaí, com farinha, água e peixe. Para matar a saudade, mas encontrar esse preço tão alto é complicado. Mesmo assim, pago caro, mas, no fim, vale a pena”, conclui.


Produção


Segundo o agricultor Cid Ornelas, a dinâmica de produção do açaí no Pará está diretamente ligada ao ciclo natural da planta, o que concentra a safra entre o fim de julho e dezembro. Nesse período, há grande oferta de um produto altamente perecível, o que pressiona os preços para baixo diante da necessidade de escoamento rápido. Ele destaca ainda que o comportamento do consumidor paraense reforça esse cenário, já que há preferência pelo consumo do açaí fresco, batido no mesmo dia por batedores artesanais, o que limita a absorção de outras formas de comercialização.


Por outro lado, entre janeiro e junho, a produção nativa praticamente desaparece, enquanto a demanda permanece elevada devido ao forte hábito alimentar da população. Ornelas explica que, nesse intervalo, a oferta depende principalmente de áreas de cultivo em terra firme, que exigem altos custos com adubação e irrigação, o que impacta diretamente nos preços. Ele ressalta que não há produção suficiente para atender a demanda nesse período e que, apesar de existir oferta nas indústrias, o consumo de açaí industrializado ainda enfrenta resistência. A expectativa, segundo ele, é que sejam necessários anos de investimento para equilibrar a oferta no primeiro semestre e, assim, possibilitar uma eventual redução de preços.