Abelha e BMW articulam expansão do CV e miram regiões de potencial econômico
Sob a ideologia de “plantar a semente” do Comando Vermelho pelo país, a facção nascida no Rio de Janeiro ampliou sua atuação por quase todo o território nacional. Ao mesmo tempo em que investia na expansão em grande escala, o grupo direcionava dinheiro, armas e soldados para uma ofensiva local, com o objetivo de retomar das milícias áreas na capital fluminense e avançar do morro para o asfalto. Entraram na mira regiões de forte potencial econômico, na Zona Sudoeste, e de interesse turístico, como a Lapa.
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Por trás desse movimento que transformou a rotina da cidade estão dois traficantes apontados como peças-chave na estratégia do CV: Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, e Juan Breno Malta Ramos Rodrigues, o BMW. Enquanto o primeiro atuava na articulação das ofensivas e alianças da facção, o segundo comandava um grupo de matadores pronto para executar rivais e desafetos.
Apesar de hoje ter um papel bem menor no Comando Vermelho, Abelha já foi um dos criminosos que mais influenciaram os rumos da facção no Rio. Em investigações conduzidas pela Polícia Civil, ele é apontado como um dos principais articuladores do contragolpe promovido pelo CV na cidade, quando a facção passou a investir na ofensiva contra as milícias.
O projeto ganhou força após a saída de Abelha da prisão, em 2021. Ele deixou o Presídio Vicente Piragibe, no Complexo de Bangu, de forma irregular, mesmo ainda tendo mandados de prisão em aberto e sendo considerado um criminoso de “altíssima periculosidade”. Segundo a Polícia Civil, naquele momento a facção concentrou no criminoso a missão de executar os planos traçados pelas lideranças que, reclusas nos presídios, ditam as estratégias do grupo.
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A equipe sombra
Para disputar os territórios dominados pela milícia, principalmente na Zona Sudoeste, o Comando Vermelho contou com a Equipe Sombra, grupo especializado em assassinatos liderado por Juan Breno Malta Ramos Rodrigues, o BMW. Homem de confiança de Edgar Alves de Andrade, o Doca, ele tem perfil violento, atua em execuções e é citado em dezenas de investigações policiais.
Nos registros fotográficos obtidos pela polícia, BMW aparece quase sempre da mesma forma: usando roupas camufladas e portando um fuzil AK-47 com fita vermelha. Além disso, costumava expor os assassinatos nas redes sociais, publicando um emoji de fantasma após os crimes como forma de sinalizar as execuções cometidas pelo grupo.
Além de aparecer na linha de frente das ações criminosas, BMW exercia a função de instrutor, treinando traficantes com técnicas de guerra para confrontos contra facções rivais e forças de segurança. Atualmente, segundo a polícia, ele também desempenha o papel de “administrador financeiro” da Gardênia Azul, sendo responsável por relatar a movimentação do tráfico, discutir a compra e a qualidade de armas e repassar informações, vídeos e atualizações sobre operações policiais.
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A mais de 30 quilômetros da zona de influência do comparsa, é Abelha quem controla outra das áreas de interesse estratégico para o Comando Vermelho: a Lapa, concorrido reduto turístico e boêmio do Rio, onde o tráfico acontece no asfalto, a céu aberto e diante de visitantes todos os dias. Na região, casarões e estabelecimentos comerciais são usados como pontos de venda de drogas, formando até filas de usuários pelas ruas do bairro.
Com sete mandados de prisão em aberto, Abelha integra a lista dos criminosos mais procurados do país divulgada pelo governo federal. Apesar desse histórico, hoje tem posição menos relevante na hierarquia da facção.
A polícia afirma que o enfraquecimento de Abelha ocorreu após divergências internas sobre decisões tomadas por ele, incluindo ordens de execução e expulsões de integrantes da própria organização criminosa. Nos bastidores das investigações, há informações de que ele ainda participa do “conselho” permanente da facção e mantém influência dentro do grupo, mas longe do protagonismo que já teve.
Em uma conversa obtida durante investigação da Polícia Federal, Abelha aparece debatendo com Doca, chefe do Complexo da Penha, sobre possíveis alianças com criminosos do Terceiro Comando Puro (TCP) interessados em migrar para o Comando Vermelho.
‘Quem não vier fica morto’
No diálogo obtido pela PF, ocorrido em fevereiro do ano passado, Abelha escreve: “Viu o papo dele sobre os caras virem pra cá”. Doca responde: “É, o TH dá para vir”, em referência a Thiago da Silva Folly, o TH, apontado como chefe do TCP no Complexo da Maré e morto meses depois. Em seguida, Abelha orienta cautela: “Temos que ter mais cautela, isso pode ser o fim dos terceiro”. Logo depois, acrescenta: “Quem não vier fica morto”.
Nas mensagens, Abelha usava o codinome “PB Vive”, em referência a Pablo Carlos Rodrigues Quintanilha, morto em 2019 durante uma operação policial na Penha, na Zona Norte do Rio. Em homenagem ao criminoso, que era seu filho, havia até pouco tempo atrás um grafite com seu rosto a poucos metros da Escadaria Selarón, um dos cartões-postais mais conhecidos da cidade. A pintura foi apagada pela Prefeitura do Rio em março deste ano.
