A virada surpreendente de Lula, segundo Jairo Nicolau

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Fonte da notícia: Cafezinho Cafezinho

O cientista político Jairo Nicolau, professor da FGV e um dos maiores especialistas em sistemas eleitorais do país, publicou, em artigo no seu Substack, uma análise que vai na contramão do clima de euforia que tomou conta do campo progressista após a vitória de Lula. No texto “Campanha surpreendente, resultado estável”, ele compara o segundo turno de 2026 com o de 2022 e chega a uma conclusão incômoda.

O Brasil mudou muito pouco. Nicolau abre com um exercício provocativo.

Imagina alguém que não sabe nada de política brasileira e, meses antes da eleição, aposta que Lula e Flávio Bolsonaro terminariam com os mesmos percentuais obtidos por Lula e Jair Bolsonaro quatro anos antes. Lula fez 51,8% dos votos válidos, contra 50,9% em 2022, uma alta de apenas 0,9 ponto.

Segundo o autor, esse palpite ingênuo teria superado “as estimativas dos principais institutos de pesquisa e também as de astrólogos, cartomantes e tarólogos, que acertaram apenas o vencedor”. O ponto de partida é deliberado.

Muitas análises recentes celebram a mobilização nas ruas e nas redes, o papel dos estudantes, do chamado Exército do Janones, dos fã-clubes de artistas e de personalidades de direita que declararam voto em Lula. Nicolau reconhece esse esforço, mas escolhe outro foco.

Nas palavras dele, a ênfase “não está nas mudanças que aconteceram entre o primeiro e o segundo turno de 2026, mas na estabilidade”. Um mapa regional quase idêntico

O primeiro recorte é regional, e os números impressionam pela repetição. Lula obteve 69% no Nordeste e 40% no Centro-Oeste, exatamente os mesmos patamares de 2022.

Cresceu 1 ponto no Norte e 1,5 no Sudeste. Recuou apenas no Sul, de 38% para 37%.

Gráfico: Jairo Nicolau/Substack Em seguida, o pesquisador divide os municípios em cinco grupos, cada um reunindo um quinto da população, com base na estimativa do IBGE para 2024.

É nesse corte que aparece a principal novidade da eleição. Gráfico: Jairo Nicolau/Substack

Perda no interior, ganho nas metrópoles Nas cidades com até 27 mil habitantes, Lula perdeu 2 pontos em relação a 2022.

No grupo seguinte praticamente não houve mudança. Nos dois quintos intermediários o petista melhorou, mas Flávio ainda venceu por 5 a 7 pontos.

A virada de fato ocorreu nas cidades com mais de 1 milhão de habitantes. Em 2022 Lula havia ganhado nelas por margem mínima, 50,2% a 49,8%.

Em 2026 a diferença chegou a 6 pontos. Ao cruzar região e porte das cidades, Nicolau mostra que o percentual de Lula encolheu nos pequenos municípios de todas as regiões.

O dado mais forte talvez seja outro. Lula teve votação proporcionalmente menor que em 2022 em 78% dos municípios brasileiros.

O saldo só ficou positivo porque o crescimento se concentrou onde há mais eleitores. Gráfico: Jairo Nicolau/Substack

O Nordeste continua decisivo A pergunta seguinte é de onde vieram os votos absolutos da vitória.

O Nordeste deu a Lula 13,7 milhões de votos a mais que Flávio, e 41% dessa vantagem saiu de cidades com menos de 27 mil habitantes. Fora da região, em vinte combinações de região e porte de cidade, Lula venceu em apenas quatro.

Foram os três quintos menores do Norte, dois deles por margens mínimas, e as metrópoles do Sudeste. Gráfico: Jairo Nicolau/Substack

Para Nicolau, trata-se de uma equação que se repete desde 2014. O PT abre de 11 a 14 milhões de votos no Nordeste e cabe à oposição “tirar a diferença” no restante do país.

Aécio Neves conseguiu 8,7 milhões fora da região em 2014. Em 2022 e 2026 a direita ficou perto de 10 milhões, com 10,4 e 9,3 milhões respectivamente.

A única exceção foi Jair Bolsonaro em 2018, que abriu 22 milhões fora do Nordeste. As quinze maiores cidades

As quinze maiores cidades do país concentram cerca de 20% da população, e nelas Lula obteve 1,6 milhão de votos de vantagem. O petista cresceu em todas em relação a 2022 e venceu em oito, mas só virou o resultado em uma delas, o Rio de Janeiro.

Em São Paulo, Porto Alegre e Belém, que já haviam votado nele, a vantagem aumentou. Gráfico: Jairo Nicolau/Substack

Um país tão dividido quanto antes A síntese de Nicolau é direta.

A diferença entre os candidatos subiu de 1,8 para 3,6 pontos, o mapa regional praticamente não se alterou e o Nordeste segue como fiador da vitória petista. A mudança mais relevante ficou nas grandes cidades, e mesmo ali foi modesta.

O autor admite que também foi tomado pela força do resultado e que se surpreendeu ao comparar os dados. Ele lembra que a recuperação de Lula entre o primeiro e o segundo turno “se transformou em uma virada histórica” e será tema de muitos estudos.

Mas faz um alerta que merece atenção do campo progressista. “Não fosse por isso, todos estaríamos falando da resiliência da direita e de como foi possível que um candidato tão despreparado vencesse as eleições.”

A frase final resume o diagnóstico. “O Brasil saiu das urnas tão dividido quanto entrou.” Segundo Nicolau, o esforço gigantesco da militância teve o efeito de levar Lula apenas um pouco acima do patamar de 2022.

Para quem pensa os próximos quatro anos, a lição é clara. A vitória foi real, mas a base eleitoral da direita permanece praticamente intacta, sobretudo no interior e fora do Nordeste.

Este artigo é baseado na análise de Jairo Nicolau publicada originalmente em seu Substack. Os gráficos são de autoria dele.

Publicação Original Cafezinho ocafezinho.com
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