O filósofo Voltaire estava errado ao prever que a religião viraria peça de museu cem anos após sua morte, em 1778. A fé institucionalizada está em alta e continua influente, incentivando pessoas a serem mais solidárias e também fortalecendo projetos de poder e de teocracia.
Essa contradição, contudo, atravessa toda a sua história: movimentos religiosos que nascem contestando as estruturas de poder acabam, em geral, engolidos por elas. O cristianismo é um exemplo.
A mensagem que invertia a ética e a lógica de seu tempo, afirmando que ricos mesmo eram os “pobres” e classificando os “últimos” como sendo os “primeiros”, acabou sendo assimilada pelos palácios, tornando-se uma das maiores forças políticas, econômicas e culturais da história. “Se você percebe que a verdadeira religião não pode ser um projeto de poder e financeiro para enriquecer alguns líderes religiosos, necessariamente vai enfrentar o pior de todos os sistemas: aquele que, em nome dos seus interesses, alega falar em nome de Deus”, afirma o historiador Leandro Karnal.
“Este é o princípio de toda cruzada, desde o século XI até hoje.” Em seu novo livro, “Jesus - O homem que dividiu o tempo” (Record, 252 págs., R$ 59,90), Karnal revisita a trajetória do homem cuja mensagem, transmitida inicialmente pela tradição oral, atravessou dois milênios e inspirou, em escala planetária, obras de arte, músicas, esculturas, monumentos arquitetônicos, universidades, hospitais, ordens religiosas e instituições de caridade.
“Não é sequer possível narrar o Ocidente sem citá-lo. Não sei dizer ao leitor o que pensar dele.
Sei dizer que vale a pena pensar”, escreve Karnal. Descrito pelo falecido amigo e psicanalista Contardo Calligaris como um “ateu místico”, Karnal vê na mensagem de Jesus elementos subversivos, que precisaram se adaptar às estruturas dominantes à medida que o cristianismo se institucionalizou.
A transformação também se refletiu no pensamento teológico. Em lugar de uma teologia dos humilhados, ganhou espaço a teologia da prosperidade, que associa a bênção divina ao sucesso material.
“Deus me ama e é por causa dele que eu tenho casa com piscina e um BYD”, ironiza Karnal. Nascido em uma família católica do interior do Rio Grande do Sul e educado em um colégio de freiras, Leandro Karnal foi sacristão aos 9 anos, professor de catequese aos 15 e organista de igreja na juventude.
Aos 18 anos, ingressou no noviciado da Companhia de Jesus, tornando-se jesuíta. Por volta dos 25 anos, uma crise de fé o levou a abandonar as práticas religiosas e hoje se declara ateu.
Admite, porém, que o rótulo o incomoda. Em entrevista ao Valor, o historiador fala sobre a atualidade dos Evangelhos, o papel das mulheres e dos marginalizados na trajetória de Jesus e reflete sobre sua própria relação com a fé.
Valor: Como um artesão pobre e periférico, sem-teto, que andava em más companhias para os padrões de sua época e não deixou nada escrito, tornou-se uma das figuras mais influentes da cultura ocidental? Para quem nunca leu os Evangelhos, que diferença pode fazer entrar em contato hoje, pela primeira vez, com as narrativas sobre Jesus?
Leandro Karnal: Historicamente, as figuras alternativas, de fora do sistema, costumam ser vistas como as de maior potencial de transformação. Então, Jesus, um camponês, artesão alternativo da Galileia, da periferia do Império Romano, talvez tenha muito mais influência hoje do que, por exemplo, um homem do sistema romano, como Tibério, o imperador que o condenou à morte.
E quem lê o Evangelho pela primeira vez vai ver uma característica extraordinária, que é a capacidade de ser uma mensagem atual. As grandes propostas de pobreza radical ou de caridade radical ou de fraternidade universal continuam tão válidas no século I quanto no século XXI.
Valor: O senhor foi descrito por seu amigo Contardo Calligaris como um “ateu místico”. O livro, porém, revela forte admiração pela mensagem de Jesus.
Que aspectos de Cristo mais o influenciaram? Karnal: Você pode considerar Jesus um grande filósofo, psicólogo social, sem necessariamente aceitá-lo como Deus.
Eu não preciso aceitar que o Buda seja um iluminado para supor que a sua mensagem seja válida. Quando eu incorporo os milagres e a ressurreição como um salto de fé, citando Kierkegaard, quando incorporo a ideia de que Jesus é o ungido de Deus, o Cristo, a partir daí, além da mensagem, eu incorporo uma crença.
A história de Jesus é um diálogo, às vezes tenso, às vezes complementar, entre o Jesus e a sua mensagem e o Cristo ressuscitado e a sua realidade teológica. Uma coisa não exclui a outra.
Para um religioso, é bom que haja a fusão harmônica das duas figuras. Para o não religioso, a mensagem de Jesus se sustenta sozinha.
Valor: Ao colocar Maria Madalena, uma mulher sem importância para a sociedade de seu tempo, como primeira testemunha da ressurreição, os Evangelhos dão centralidade a quem tinha pouca voz e autoridade. O que esse gesto pode ensinar hoje às igrejas sobre sua relação com as minorias?
Karnal: No Calvário, há mais mulheres ao lado de Jesus do que homens. Lembrando que, dos 11 apóstolos remanescentes, já que Judas havia se enforcado, estava apenas João.
Os outros todos fugiram. A todo instante, o Evangelho nos fala desse protagonismo de mulheres, que também permeia a Igreja primitiva.
Se eu quero entender que Jesus é um discurso para marginalizados, isso tem muita coerência com o Evangelho, porque ele janta com cobradores de impostos, como Zaqueu; ele atrai para os discípulos um publicano, como Mateus; ele chama zelotes; chama pescadores analfabetos e não chama nenhum homem da lei, sacerdote ou levita para o seu grupo.
Jesus não se aproxima dos grupos teologicamente ou socialmente dominantes, mas anda com mulheres, come, bebe. Então, nós temos muitas formas de associar Jesus aos excluídos.
Valor: João Batista confrontou o poder político e religioso de seu tempo e pagou com a própria vida. Quem exerce hoje esse papel de denúncia?
Karnal: João Batista é o precursor, é o tipo do profeta que denuncia abertamente os desvarios do poder, no caso a casa de Herodes. Toda pessoa que confronta o poder corre riscos até hoje.
Se você percebe que a verdadeira religião não pode ser um projeto de poder e um projeto financeiro para enriquecer alguns líderes religiosos, necessariamente você vai enfrentar o pior de todos os sistemas, que é aquele que, em nome dos seus interesses, alega falar em nome de Deus, que é o princípio de toda cruzada, desde o século XI até hoje.
Valor: O senhor cita o Grande Inquisidor, da obra “Irmãos Karamázov”, de Dostoiévski, que pergunta a Jesus: “Por que vieste nos atrapalhar?”. O que essa passagem revela sobre a distância entre a mensagem original de Jesus e o cristianismo institucional?
Karnal: A figura do Grande Inquisidor é um cardeal católico em Sevilha, não se refere exatamente ao catolicismo ocidental, mas ao sentimento dos russos do século XIX. Mesmo assim, tanto para católicos ocidentais quanto para russos ortodoxos, existe essa questão de que o cristianismo institucional contempla muito pouco das ideias contidas no Sermão da Montanha, Mateus 5, 6 e 7.
Jesus claramente diz: não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Eu não posso servir a Deus e às instituições que fornecem poder, porque naturalmente meu coração vai estar onde estiverem minhas preocupações.
Karnal: Tudo foi cooptado por uma estrutura de poder dominante, naturalmente. E tudo isso faz parte de uma transformação na estrutura política e econômica e do próprio pensamento teológico.
Hoje, em vez da teologia dos humilhados, do Apocalipse, há uma teologia da prosperidade. Deus me ama e, é por causa dele que eu tenho casa com piscina e pude adquirir, por exemplo, um BYD.
Essa característica é recente, mas ela dialoga com toda a história do cristianismo. Valor: Durante séculos, a ideia de que os judeus seriam coletivamente responsáveis pela morte de Jesus alimentou uma tradição de antissemitismo cristão.
Por que interpretações historicamente frágeis conseguem sobreviver por tanto tempo? Karnal: Muitos especialistas em antissemitismo associaram a sua raiz à proposta cristã.
Não apenas pela afirmação de deicídio, que saiu do texto católico de Sexta-feira Santa (“os pérfidos judeus que mataram Jesus”) apenas na segunda metade do século XX. Existe, claro, uma associação entre o judeu, não tanto apenas pelo deicídio, mas pela resistência judaica à conversão.
Os povos da Europa Ocidental, os francos, os bárbaros em geral, todos eles foram convertidos ao cristianismo. Apenas o judaísmo na Europa Ocidental resistiu bravamente a essa investida, feita à força e com violência.
Existem expressões antissemitas fora do mundo cristão, mas, sem sombra de dúvida, o cristianismo é uma peça importante na constituição do judeu como o inimigo ideal, porque ligado a valores que o cristianismo não identifica como válidos e, por muito tempo, correu o risco de se tornar uma seita do judaísmo.
É esta origem em comum que torna a relação de ódio ainda maior. Valor: O senhor já disse que sua passagem da fé ao ceticismo não nasceu de um trauma específico e que não descarta voltar a acreditar.
Para um brasileiro em situação semelhante à sua, o atual ambiente político e religioso tende a dificultar uma reaproximação com a fé cristã? Karnal: Eu não tive nenhum trauma específico, uma experiência ruim para me afastar da fé.
Conheci pessoas ótimas na Igreja, uma ou outra não tão boa, como conheci na universidade, como conheci no meu condomínio, também em São Paulo. A existência de vilões nos ambientes não torna o sistema inviável.
No mundo de hoje, eu acho que a religião está em alta. É muito mais fácil a adesão à religião hoje do que talvez fosse há 50 anos, porque a religião está em todos os lugares, é muito mais forte e há mais presença, inclusive tanto na Igreja Católica como nas evangélicas, como nas pessoas que não seguem uma fé organizada, mas conservam uma crença religiosa no coração.
A religião não é excepcional, ela não é alternativa. Você não precisa virar um hippie teológico, como São Francisco de Assis, para viver o Evangelho.
Então, eu acho, pelo contrário, que hoje a religião tem muito futuro. Quando Voltaire morreu e profetizou que a religião seria peça de museu, seria ultrapassada cem anos depois da morte dele, ele estava errado, porque a religião continua forte, influente, para o bem e para o mal, animando pessoas a fazerem o certo, o melhor, o solidário, e também animando projetos de poder e de teocracia.
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