Todos deveriam viver a experiência de ser um músico ou uma cantora na noite de São Paulo por, pelo menos, duas horas. Não pela suposta nobreza do ato, que consiste em aliviar corações abrindo portais para lugares confortáveis do passado enquanto se canta “Purple rain” ou “Me and Bob McGee”, mas pela chance de assistir (enquanto se é assistido) a um microcosmo do sistema social em que viemos parar em 2026. Ao contrário dos camarins, onde tanta mentira se diz por amor, e do palco, onde artistas vivem seus personagens, as plateias são desarmadas e transparentes.
Diante de pessoas com idades entre 35 e 55 anos, temos feito experiências de repertório todas as semanas, o que dá uma aferição interessante: “Can’t buy me love”, dos Beatles, e “Honky tonk women”, dos Stones, não provocam nem um décimo do delírio que provocavam quando as tocávamos nos anos 1990. “I’ve got a feeling”, dos Beatles, talvez pela gravação de Cássia Eller, vai um pouco melhor. Vejo um sinal aí: as gerações pós-2000 não estão dando a mínima para duas bandas que entendíamos como indestrutíveis. Ao mesmo tempo, três artistas brasileiros têm sido reavaliados com força mítica em uma pista de dança pela geração mais recente. Rita Lee (a terceira, pós-Mutantes e pós-Tutti Frutti, sem vergonha de ser hedonista, da era Roberto de Carvalho), Marina Lima (por seu feminismo de vanguarda eletropop na MPB) e Erasmo Carlos (salvo da alienação, como Roberto Carlos, depois que a canção “É preciso dar um jeito, meu amigo”, de 1971, foi usada na trilha sonora do filme “Ainda estou aqui”). Todos já eram mitos, mas se tornaram catárticos. E quem fez isso foram os jovens. Até canções menos conhecidas, como “Tudo vira bosta” (que Rita gravou de Moacyr Franco em 2003) e “Sou uma criança, não entendo nada” (que Erasmo lançou no disco “1990 — Projeto Salva Terra!”, de 1974), passaram a esquentar plateias. Outros artistas seguem incendiários. Gil, Caetano, Chico, Milton, Cazuza, Elis, Gal, Djavan (o rei da noite), Raul Seixas (claro) e, com um poder de identificação imediata, independentemente da geração, Tim Maia. De Tim se perdoa tudo. “Me dê motivo”, que ele chamava de “melô do homem chifrudo (traído), o último a saber”, é um torpedo capaz de fazer uma casa inteira cantar. O esvaziamento do rock dos anos 1960 e a longevidade da MPB dos 1970 e 1980 podem estar seguindo uma lógica que se vê também nos olhos de uma plateia. Em tempos de ameaças democráticas, a música não é percebida mais apenas como entretenimento. E mesmo a diversão parece se tornar mais divertida quando traz em si um sentimento de justiça. É preciso dizer algo que muita gente gostaria de dizer e, de preferência, em alto e bom português. Diversão por diversão está virando culpa.
O Globo