Um gesto comum em famílias com crianças até 8-10 anos, quando chega a hora da leitura: evitar o contato com o medo, a tristeza, a perda e outros sentimentos difíceis. O adulto chega à página do lobo, da bruxa ou da floresta escura, hesita, e vira duas de uma vez.
Às vezes o livro vai parar no fundo da estante. A intenção é boa: queremos poupar do que acreditamos representar sofrimento ou angústia.
Mas vale perguntar o que estamos tirando deles junto com o medo. Uma história assustadora é, antes de tudo, uma aventura.
Na ficção — e, portanto, na imaginação —, a criança se perde no bosque, se defronta com o vilão malvado, cai na armadilha, consegue fugir. Ela passa por perigos que a vida real não lhe oferece, e passa por eles no lugar mais seguro que existe: o colo de alguém, com a voz conhecida lendo ao lado.
Ela sabe que está em segurança, e o risco é na imaginação. Mas tem que lidar com a emoção que sente no momento.
E emoções precisam ser exercitadas. É um pouco como a imunidade: um corpo mantido longe de toda sujeira não aprende a se defender, ou pode acabar reagindo demais, de forma alérgica, a um elemento estranho.
Com a mente infantil acontece um processo semelhante. Sentir medo em pequenas doses, em um ambiente protegido, vai criando “anticorpos emocionais”, preparando o sistema nervoso para lidar com emoções difíceis como medos e tristezas, quando chegarem de verdade.
A coragem vai se construindo aos poucos, com sustos de tamanho adequado. Cada criança lê uma mesma história de modos diferentes.
Para uma, o susto vai fazer rir, para outra, se encolher de medo. O detalhe que uma esquece na hora, outra carrega por semanas.
Essa diferença é justamente o que torna a literatura uma experiência pessoal e insubstituível. O que importa é que haja alguém por perto quando a emoção aparece.
A leitura compartilhada tem esse valor. Quando o monstro surge, o adulto está ali para parar e perguntar: você ficou com medo? E para admitir: eu também fiquei.
Dar nome ao que se sente, em companhia, pode criar oportunidades ótimas para uma boa conversa. Reconhecer e falar sobre emoções fortalece o desenvolvimento emocional e cognitivo da criança, e esse aprendizado a acompanha pela vida.
Muitas vezes o medo que atrapalha não é o da criança. É o nosso medo de que ela sinta medo.
Ler todos os dias com os filhos é um ritual que presenteia todo mundo. Produz memórias afetivas que duram, ajuda a criança a ser mais inteligente e criativa e a lidar melhor com o que sente, inclusive com o medo.
O Globo